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Memórias de um jantar

por jpt, em 30.01.04

Há uns (largos) anos passámos uns dias na Ilha e encontrámos um puto porreiro imerso no voluntariado o qual, ao fim de um ano por ali, já estava um bocado cacimbado e totalmente falido. Cá em casa lembramo-nos que com ele partilhámos algumas boas refeições, o cozinheiro da casa era óptimo e ficaram no nosso pedestal doméstico uns filetes de peixe-papagaio absolutamente inolvidáveis.

 

Agora ele tem a idade que eu tinha na altura e também bloga, lá em Lisboa. Com simpatia escreveu sobre estas machambas, afirmando-me "moçambicanizado". Não pude deixar de sorrir. Ainda que discordando, quanto mais passa o tempo de imigrante mais me sinto português. E não por reacção contra nada, bem pelo contrário. Apenas porque me é normal (o senso comum diz "natural", mas isso é coisa fisiológica).

 

E para demonstrar a diferença que quero realçar narro de seguida um episódio das memórias de Moçambique que ainda esta semana lembrei durante um lauto jantar em que estavam presentes alguns dos protagonistas. Ei-lo:

 

Lá pelos anos de 1998/9 veio a Maputo uma famosa jornalista portuguesa. O seu objectivo era escrever sobre o "regresso dos portugueses", então propagandeado em Portugal e vituperado por cá. E, claro, exagerado em ambos os sítios. O objectivo foi cumprido, o artigo foi feito, resultando numa série de pequenos perfis sobre portugueses de apelidos relativamente sonantes então residentes em Maputo. Enfim, opções...

 

Durante a sua visita fui convidado para um jantar com a jornalista e algumas individualidades moçambicanas, jornalistas, médicos, romancistas, professores, líderes de movimentos sociais. O fito era que ouvisse ela desses "representantes" da sociedade moçambicana o que achava esta de tal regresso.

 

Correu mal o encontro. Esperava o anfitrião que o diálogo fosse aprazível e as conclusões positivas. Mas a presença de tão famosa jornalista, ainda para mais de tão importante jornal, foi uma espécie de Caixa de Pandora aberta. Sobre os portugueses se um dos convidados dizia "matem-nos" o outro logo gritava "esfolem-nos" e de imediato alguém urrava "queimem-nos". Foi uma catarse e também uma provocação - tantos anos depois todos concordamos com isso. Pois aquele momento foi também entendido como uma oportunidade para reafirmar uma série de coisas a Portugal. Reafirmação porventura desnecessária, achei eu durante o jantar, ainda que algo distraído ali debaixo da mesa a cavar o buraco onde me tentava esconder.

 

Até que a senhora, famosa, culta, respeitadíssima, se afligiu com tanta opinião negativa. E perguntou, estupefacta, aflita, enfática: "mas não gostam de nós...?", "depois de tudo o que fizemos por vocês!?!?".

 

Não me lembro de mais nada, com esta mergulhei para o buraco e tapei-o!

 

Fim. E que raio tem a historieta a ver com o princípio da arenga? Qual o moral da história? Pois aqui quero dizer(-te) que não se trata de estar moçambicanizado. É apenas o tentar não pensar e dizer estas barbaridades. (Talvez outras, talvez outras). Que são tão generalizadas. E que se neste caso até se escondiam atrás da educação irrepreensível e do brilho, tal não acontece no outro amiude.

 

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publicado às 09:02


5 comentários

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De | ma-schamba a 01.04.2008 às 14:36

[...] Às vezes lembro(am)-me. [...]
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De josé palmeiro a 01.04.2008 às 19:01

Meu caro, gostei imenso do seu escrito.
Se bem que numa outra fase e num outro contexto, vou contar-lhe o que se passou comigo.
Dir-lhe-ei, em traços largos que, depois de ter cumprido, quarenta e seis meses e meio de serviço militar obrigatório, passei à "peluda". Depois de todo esse incomensurável tempo, uma realidade me esperava, ser chamado, no período de um ano, ano e meio, para o curso de capitães e engrossar o contigente de tropas que detínhamos nas colónias. Para que tal não acontecesse, rumei com a minha companheira e um filho, para Moçambique. Garanti um contrato de trabalho civil, o que me obrigava a permanecer, cinco anos nesse território. Deu-se , ano e meio depois o 25 de Abril!
A minha alegria foi igual à dos moçambicanos, pois a Liberdade era a promessa, mais óbvias, para os nossos dois povos. Entretanto tinha-me nascido mais um filho, agora nessas paragens. Com o frevor revolucionário e as notícias do que por cá se passava, resolvi voltar, não sem me ter empenhado, enquanto aí presente, na afirmação dos valores inerentes ao povo moçambicano.
Regresso, por minha inteira vontade, cinco dias antes da independência, sem nunca me ter considerado retornado e com tudo à minha conta. Na altura, Portugal esperava por mim e eu ansiava voltar.
Por tudo o que atrás disse, compreendo a sua atitude de se enterrar no buraco, que foi construíndo.
Gente, como a que descreve, é o que por aqui há mais e todas cheias de importância, balofa, diga-se de passagem, por isso o episódio que conta e os que nós por cá continuamos a ouvir.
Neste 1 de Abril, altura em que estou consigo, aceite o meu voto de LIBERDADE, e o orgulho de o saber tão português, ao ponto de, ter todo esse grau de respeito, pelo país que o acolheu.
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De jpt a 02.04.2008 às 01:03

obrigado
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De web a 03.04.2008 às 15:36

ainda actual? (ricto de má surpresa)
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De jpt a 03.04.2008 às 17:38

sempre actual ...

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