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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Claudio Rissicini (coordenação), Centro Internazionale Crocevia, 1998.
"Homenagem á um povo / Omaggio a un popolo" é um álbum fotográfico, bilingue, que pelas suas características se torna ele próprio em objecto histórico. Trabalho paradoxal. Por um lado amador, dolorosamente amador. Por um outro lado trata-se de uma edição institucional (patrocínios da Comissão Europeia, da Regione Liguria, da Provinzia della Spezia, do Centro Internazionale Crocevia, e da Unione Regionale delle provincie Liguri), destinada a recordar (e a salientar) o papel assumido pela cooperação italiana no processo de paz em Moçambique, em particular a muito importante acção da Comunidade de Santo Egídio no acompanhamento das negociações culminadas no Acordo de Roma de 1992. Para isso o motivo escolhido para enquadrar o álbum é a celebração das primeiras eleições presidenciais e legislativas multipartidárias em Moçambique (1994).
Digo-o também objecto histórico pelo que indica da, usual, fragilidade deste tipo de trabalhos quando totalmente imersos em quadros institucionais, em que as "boas vontades" (ainda que implicitamente propagandísticas) cedem todo o espaço ao amadorismo. O bilinguismo é penoso, com um português truncado (até no título do livro). A própria responsabilidade editorial seria desconhecida não fosse ter sido indicada num dos textos introdutórios (de Brazão Mazula, aqui presente na condição de presidente da Comissão Nacional de Eleições de 1994). As fotografias são pobres (excessivamente amadoras) e escolhidas segundo critérios preguiçosos (preguiça que implica, inclusive, a reprodução de duas fotos - pps. 44 e 58 - quase similares, uma óbvia distracção). Com vários textos introdutórios a cargo de figuras institucionais nenhum deles contextualiza o livro. Enfim, um objecto muito frágil, exemplo de tanta da acção propagandística quando amadora.
Mas objecto histórico também pois as amplas fraquezas são também o seu interesse. Este livro é ainda exemplo de um tipo de olhar, de um método de olhar: um capítulo inicial apresentando "o povo", essa categoria etnográfica sempre presente como se natural. E incluindo os traços do costume desse "povo" (belezas femininas, artesão algures - expressando o "sentir genuíno" decerto - , meninos sorrindo - o "futuro", claro -, a bela paisagem natural - epítome da "alma local"). Esta "apresentação", que quase sempre surge neste tipo de trabalhos, vem aqui algo mal amanhada pois as fotos são fracas. Mas no mesmo género de tantos outros trabalhos.
Nesse capítulo "povo" (o sucedâneo dos velhos artigos sobre as "gentes", "usos", "costumes" alheios) é de realçar apenas
esta casa (foto de Roberto Falciai, "Povoação nos arredores de Maxixe") e isso porque identifica o tipo de arquitectura de Inhambane, um entrelaçado de folhas de palmeira distinto, relativamente pouco usual nas recensões fotográficas do país.
Mas o livro é também objecto histórico, e agora sem interpretações, no recordar da realidade do início da democracia moçambicana e de alguns dos seus agentes:
("Mudira, Zambézia. Último dia de eleições, o presidente da mesa, com os seus colaboradores cumprimenta um observador português"; foto Loretta Dapporto).
Eis a memória do papel das missões de observação eleitoral nos processos pós-conflito e, em Moçambique, das importantes funções então ocupadas pelas Nações Unidas (ONUMOZ) na gestão nacional. Nesta fotografia representadas pelo observador português Luís Carmona, que aqui surpreendo.
Fica ainda o livro justificado por algumas memórias sobre o processo eleitoral. Aqui a formação cívica de então, a aprendizagem e sensibilização eleitoral...
("Maputo, uma iniciativa eleitoral", fotografia de Pepe Diniz. Onde se recorda o cartaz "Vamos juntos votar Moçambique", inserido na educação eleitoral. No qual se reconhecem ao centro a actriz Lucrécia Paco e à direita o jornalista/actor/escritor Rogério Manjate, então algo mais jovens. Actuando frente ao cartaz está o célebre, e extraordinário, grupo de Makwayela, os TPM.)
E ainda a memória dos próprios "dias de voto", de cujo capítulo retiro duas expressivas fotografias, sumarizando o peso da democracia. A dignidade do primeiro voto
("Votação em Matalane", fotografia de Troels Norlen) e esta última fotografia, que por si só justifica o infeliz álbum, desculpabilizando-lhe tantos defeitos
("Todos podem votar". Maputo, Escola Secundária Josina Machel; fotografia de Troels Norlen)