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A Guerra em Hugo Pratt

por jpt, em 18.08.06
"É verdade que eu provenho de uma família fascista, mas não sinto qualquer incómodo por isso, e nunca o ocultei. E na minha infância, à parte alguns milhares de dissidentes, todos os italianos eram mais ou menos obrigados a aderir ao fascismo, mesmo os sindicatos, para poderem existir, tinham de reclamar-se dele. Por isso eu não vou ter vergonha porque aos sete anos, desfilei na Praça de São Marcos atrás de cem tambores que marcavam a cadência com uma camisa negra e um lenço azul. Não podia então ter consciência da palhaçada da situação. Depois, apercebemo-nos que tínhamos sido manipulados, que alguns de nós tinham morrido para nada. Houve, está claro, quem trocasse a camisa fascista para se tornar "partiggiano" no bom momento, ao passo que aqueles que se bateram com afinco foram muitas vezes mortos, mas sem se renegar.É fácil dar lições a posteriori, mas nos anos trinta o imperialismo era coisa corrente: o colonialismo inglês aplaudia um filme como Os Três Lanceiros do Bengala e o Império colonial francês achava-se então no apogeu, autocelebrando-se cheio de boa consciência. E para a criança que eu era, o fascismo era uma abertura para o mundo exterior, ajudo-me em particular a cortar o cortão umbilical com a minha mãe. O mundo fascista deu-me a possibilidade de sair da minha família, de ter camaradas, de encontrar raparigas, pois o fascismo, com um objectivo natalista, decidira favorecer as relações entre os jovens dos dois sexos. Eu próprio sou, aliás, um resultado dessas campanhas. Não, eu não chegarei ao ponto de dizer que devo a vida a Mussolini.-As suas recordações da guerra perseguem-no?-Sim. Alguns acontecimentos marcaram-me para sempre. Mas não tenho remorsos. Fui sem querer implicado em situações que me escapavam, e parece-me que a minha atitude foi coerente. Aconteceu-me disparar sobre pessoas, mas há momentos em que se é levado a fazê-lo. (...) Talvez tenha morto alguém, talvez não. Espero que não, mas repito, não sinto arrependimento. Era preciso disparar para manter os ditos inimigos à distância. (...)Claro que a guerra é um disparte, mas o problema é que por vezes é preciso fazê-la, ou que por vezes nos vemos obrigado a fazê-la. É sempre uma fatalidade e uma má solução."
Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, pp. 270-272 (Tradução de António Sabler)Imagem reproduzida de Hugo Pratt, Corto Maltese - Memoires, Paris, Casterman, 1998

publicado às 23:09



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