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Um Velho

por jpt, em 02.02.04

Lá perto de Boane, naquele cruzamento sede de dumba-nengue, estanco diante de um camião em lenta inversão de marcha, na berma da estrada um velho instruindo a manobra, complicada pela abundância pobre das bancas serpenteantes. Aproveito e peço-lhe a confirmação "por favor, o caminho para a Ponta do Ouro é por aqui?", que não quero perder-me por areais desconhecidos de quem usa o avião para apressar o fim de semana.

 

Que "Sim", responde-me o velho, alongando o braço bem para longe "é ir sempre a direito até lá à frente e então virar à esquerda, não há que enganar, aí há-de ver que depois é só continuar sempre em frente", e havemos lá chegar. Sei também que, bem mais a sul, algures terei que acompanhar o rumo dos postes de electricidade mas isso já não lho pergunto, ainda estamos longe e decerto que por lá outrém mo indicará, de modo que eu não venha a confundir.

 

Agradecimento cumprido aproveito a pausa em ponto-morto para acender mais um cigarro, mas eis que o velho retorna, um passo atrás, nenhuma entoação especial, apenas para melhor esclarecimento, "filho, é seguir em frente, mas não é para virar na primeira à esquerda, é só na segunda, na estrada de alcatrão", e torna a partir, abandonando um breve aceno.

 

Esfumaço e sinto-me a sorrir, a reparar naquele orgulho que de tão normal que é nem se sente obrigado à ostentação, ali sorrateiro neste “filho”, tão tipo mas neutral. Sem esse “patrão” urbano ou a sua sequela “chefe”, nem tão pouco esse “branco” mais rural e que nunca percebemos se substantivo se adjectivo desqualificativo. Ou esse “pai” ou até “papá”, este mesmo como se de simulacro de carinho se tratasse, que os velhos do mato têm para oferecer, tão desajustados do invertidos que surgem. Mas agora, aqui, apenas, muito apenas, a minha idade do “filho”, que me põe no meu lugar (por enquanto, por enquanto, que o tempo está a voar), digna de natural que é.

 

Posso agora partir, todo atrevido, no meu fór bai fór e o velho, terminada a manobra do camião, decerto que lá irá caminhando para Boane que isso não está ali a contar entre nós. Como nunca deveria contar.

 

Para o meu lado comento um "reparaste?", e que sim, "tão raro, não é?", diz a Inês. Tão raro que tanto tempo passado, e já bem conhecido o caminho da praia, ainda me lembro do pequeno episódio.

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publicado às 18:07



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