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por jpt, em 12.10.06
Ilha de Moçambique: o verso ...MuipítiIlha, velha ilha, metal remanchado,minha paixão adolescente,que doloridas lembranças do tempoem que, do alto do minarete,Alah - o grande sacana! - sorriaaos tímidos versos bem comportadosque eu te fazia.Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,minha pachacha pseudo-orientala rescender a canela e açafrão,maquilhada de espesso m'siroe a mimar, pró turismo labrego,trejeitos torpes de cortesã decrépita.Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,têm-te de cócoras na sopa melancólicade uma arena limosa e marinha,gaivota tonta a adejar inutilmenteao lume de água contra a amarraque te cinje para sempreao bojo ventrudo do continente.De teu, cultivam-te a vénia e a submissãosolícitas, trazidas nos pangaioslá do distante Katiavar,expondo-te apenas no que tens de vil,razão talvez para que ao longe, de troça,pisquem mortiças as luzes do Mossurilou sangre no meu peito esta mágoa incurável.Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,caminhos sempre abertos para o mar,brancos e amarelos filigranadosde tempo e sal, uma lenturabrâmane (ou muçulmana) durando no ar,no sangue, ou no modo oblíquo como o soltomba sobre as coisas ferindo-as de mansinhocom a luz da eternidade.Primeiro a ternura da mão que modulouesta parede emprestando-lhe a curva hesitantede uma carícia tosca mas porfiadalogo o cheiro a sândalo, o madeiramentocorroído da porta súbito entreaberta,o refulgir da prata na sombra mais densa:assim descubro subtil e cúmplice,que a dura linha do teu perfil autênticote vai, aos poucos, fissurando a máscara.[Rui Knopfli]... e o anverso?MuhípitiÉ onde deponho todas as armas. Uma palmeiraharmonizando-nos o sonho. A sombra.Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobreas ondas eternas. Onde nunca fui e os anjosbrincam aos barcos com livros como mãos.Onde comemos o acidulado último gomodas retóricas inúteis. É onde somos inúteis.Puros objectos naturais. Uma palmeirade missangas com o sol. Cantando.Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmose marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.Golfando. Maconde não petrificada.É onde estou neste poema e nunca fui.O teu nome que grito a rir do nome.Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardosnaufragam. O tempo. O cigarro a metralharnos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.É onde me confundo de ti. Um menino vergadoao peso de ser homem. Uma palmeira em azulhumedecido sobre a fonte. A memória do infinito.O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.E eu vagueio em soluços de sílabas. OndeFujo deste poema. Uma palmeira de fogo.Na Ilha. Incendiando-nos o nome.[Luís Carlos Patraquim]

publicado às 06:04


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