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Um Símio em Calções

por jpt, em 03.02.04

Após o jantar uma ida nocturna à farmácia, ali à da Clínica Cruz Azul em plena Baixa de Maputo, qualquer coisa que a Inês se esqueceu de levantar, felizmente nada de grave, uns achaques triviais. Mas já estava fechada, desde as 8 horas, a ver se não me esqueço para não repetir. Percorro então, acima e abaixo, a Karl Marx em busca de uma farmácia de serviço mas hoje não é o dia destas. Avanço para a vizinha Samora Machel, à farmácia Tunduro, aquela ali entre a Cervejaria Galé e o célebre Scala, mas também a esta encontro fechada. Já perdi tanto tempo nestas andanças que paro e vou à montra ver a escala de serviço, apesar de ser noite e Baixa, que também não se devem exagerar os perigos, já por cá estou há tempo suficiente para me deixar ir nisso.

 

Mas nem percebo bem qual é a farmácia que está de serviço, reparo que não estou certo da data d’hoje, que tonto, ou envelheço?. Regresso ao carro e, bolas, ali plantado à porta um tipo, maior do que eu, entre o pedinte e o ameaçador, já percebi que não me quer dar o espaço todo para entrar pois postou-se de modo a que eu, no esgueirar-me lá para dentro, lhe terei que dar as costas. Então se é assim, e ainda ele não disse nada, já lhe estou a empurrar um “sai lá daqui pá” no estômago, mas ele afinal não é de meias medidas e saca a naifa.

 

Passo-me, mas passo-me mesmo!, empurro-o outra vez, filha da puta, a porta do carro, entretanto já aberta, quase nos separa o suficiente para que com o meu passo atrás ganhe eu tempo e espaço. Com a irritação tiro o cinto, que lhe hei-de foder as trombas, grande cabrão, a sacar-me de uma faca, quem julga ele que é, mas... estúpido, gordo, a noite estava tão boa (agora mudou, claro) que estou para aqui de calções, e como estes vão já apertados estou sem cinto, dizem-me ambas as mãos, ali apalpando em vão e logo irritadas com o dono.

 

Recuo mais um pouco, até ao para-choques, e arranco numa saraivada de insultos, que nenhum dos seus antepassados, mesmo os que ele nem imaginava ter, se safa. E grito, grito-lhe os impropérios, ele estancado, indeciso, para ali a olhar para mim, a naifa também parada na mão, os molwenes no meio da avenida calados, e parece que dele pouco cúmplices. No passeio, rente às escuras montras vem subindo um pequeno homem, num modesto mas digno fato e gravata de funcionário, o qual sem se afastar muito da parede lá participa com um “deixa lá o homem, que chatice, deixa lá o homem”. Eu, enquanto isso continuo a vociferar tudo o que ali me vem à cabeça, mas é este socorro subtil também feito espelho que mo faz compreender, sou ali um símio em calções aos urros e pulos, aflito, esbracejando, passo à frente passo atrás, diante da fera, até a assustar. Esta, constrangida, avalia que já perdeu o momento do salto e cede às arrecuas, devagar, enquanto se rejuvenesce como que por magia a querer-se menino de rua, num “só estou a pedir mil!” esganiçado e agora surpreendente, enquanto a arma lhe desliza para o bolso, isso sim acriançando-o em definitivo.

 

É tal a raiva que saio dali directo, rugindo ainda, mais até do que o escape de competição do Kia “Champ” da Inês, à esquadra vizinha, lá no Museu da Moeda, onde de rajada arrasto do descanso um carro patrulha que faço atravessar a rua em busca do faquista. Aí regressado, agora escoltado, ainda vejo o “angolano” como lhe vão chamar os molwenes, a escapar-se pelas ruínas, já monumento, do Prédio Pott. Pronto, nada mais posso fazer, estou para ali a destilar o fel mas também a marcar pontos, lembrar-se-ão do branco de barbas, carro CD, que se chateia a sério. Ganhar espaço, acho eu, se calhar certo, se calhar errado. O polícia concorda, que o senhor pode ir para a casa, vai-me reformando, ele conhece o assaltante, hão-de persegui-lo mas o pior, e lamenta-se, é que estes ladrões são todos menores, mal presos logo algum juíz os liberta. Mas que volte eu no dia seguinte, a ver em que é que deu tudo isto.

 

Passam dois ou três dias, e de manhã manhã, antes das aulas um duplo café ali no Nautilus, a ver se os bacharéis adormecem menos ao meu rame-rame. E saio rápido, a pressa daquela hora, mas já é sina minha, ou será da cor, lá me vem um gajo chatear, “dá-me dinheiro, hoje vais dar-me dinheiro”, a história de sempre, que me está a guardar o carro, moedas que mais não são do que a portagem de utilizar um bocado da rua que ele decidiu ser seu. Eu não dou, continuo contra a privatização da terra. Mas este já vem aviado, a empurrar-me até ao “tá quieto, pá, não me chateies”, que não o convence, eu ali à mercê dos perdigotos do sacana, a bêbedo não cheira, e aquela hora também seria difícil, o cambalear excitado parece-me o de outras andanças, mas nem vou perder tempo a medir-lhe as pupilas, que seja “herói por um dia” até ao dia em que rebente, desde que não me chateie. Mas hoje decidiu fazê-lo, agarra-me, largo-o, agarra-me a porta, ameaçador no “dá-me dinheiro!, vais ver!, dá-me dinheiro!”, e em fechando-lhe eu o carro, põe-se aos murros à chapa e ao vidro. E fá-lo também escorado no seu grupo, todo ele sorrindo ali na esquina, como sempre.

 

Que raio de começo de dia. E ainda para mais à porta de casa, aqui é o meu terreno de pasto do todos os dias, ladeando a família. E é mesmo por esta que isto não vai ficar assim, saio dali mais uma vez para a esquadra, aquela vizinha ao fundo da Nyerere. Pois já que me acordam as noites com os gritos dos presos, da porrada que lhes dão, que me aturem agora. E aí, enquanto chamam alguém para me acompanhar, lá me vão desabafando de novo que não vale a pena, prendem-nos e são menores, no outro dia são soltos pelo juíz. Tenho que confessar, quando me dá estas raivas, caem-me as sociologias todas, estou-me um bocado nas tintas para as desgraças alheias, e o abandono das crianças, e a falência da família, e a crise económica, e a globalização, etc. e tal, tudo isso que põe os putos na rua a roubar e a matar. E por isso estão os polícias ali a carpir, e eu a interromper, cruzamos lamentos, tudo bem mas já fui assaltado cinco vezes, e dá-me para reagir, sei lá é o meu mau feitio, que assim a frio bem sei que é para dar tudo e seguir como se nada fosse, e por este andar um dia destes ainda um há cabrão que me fila, e lá se vai um antropólogo, até liberal, até crítico, até já foi de esquerda, mas nesse dia hão-de-se estar cagando nisso. Bem, este choradinho todo não lhes fiz eu, mas insisto no que é que posso fazer?, assim a sublinhar a impotência do pobre cidadão, a ver se lhes acicato o ânimo, estúpido, nem a pergunta tem resposta, nem me parece que os ânimos deles precisem de grande acicate, a julgar pelas histórias que se contam e pelos berros nas traseiras lá de casa.

 

Aí, um dos agentes para, calmo, até amistoso, e corta-me um “há muita gente por aí que já comprou uma destas” e vai apontando a pistola, ali descansando na mesa da entrada. Eu sinto os olhos a arquear, os meus claro, e sai-me com um meio sorriso “eh, isso não, não vou dar um tiro em alguém por causa de uma carteira”, mas com isto num instante passei de indignado a displicente, percebo-o, e ele também. Talvez por isso sinto que tenho de me justificar, que quem usa arma deve estar pronto para matar, nunca só para assustar, como se ele que vive com uma no cinto não o soubesse, e que para tal não estou disposto. Ele encolhe os ombros e remata “olhe, há muita gente que pensa diferente”.

 

Bem, eles lá saem atrás e eu, boleia dada, sigo à minha vida. Ao volante. A repetir-me, como se fosse para outros, que um polícia, com a naturalidade do assim como quem não quer a coisa, me aconselha a arranjar uma arma para que me defenda eu próprio e aos meus. Já vou mais calmo, claro, o breve Índico à direita também ajuda, e tudo isso puxa-me o literato, que nesta manhã sai-me na forma do “que faço eu aqui?” de poeta, que isto assim também é demais, resmungo ainda.

 

E lembro-me do meu irmão, dobrado o Cabo de Cinquenta, comandante aqui convertido à cabotagem de terra, conforme o dia saía-lhe irónico ou triste o sorriso à conversa do regresso a Portugal, e assim a deixar-se por cá rebentar de porão em porão. E, já com ele, transformo a poetice matutina num “que farei eu aí?”. Pois podem estas picadas estar em mau estado, bem embrenhadas, que sempre iludem em deixar-se andar, nem que seja com a tal catana na mão, desbastando-as. (...)

 

Dezembro 2002

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publicado às 18:16



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