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O estado da arte

por jpt, em 07.10.11

[Europa, 1885

 

Por vezes as catacumbas dos comentários do ma-schamba têm discussões acesas. Nada como o era há alguns anos atrás, diga-se, em tempos de bloguismo desagenciado e polémico. Nos últimos dias algumas houve (aqui e nos "murais adjacentes"). A propósito do seu âmago, "a decadência do império", deixo excertos de um antigo ministro português, M.M. Carrilho. Talvez que para alguém que vive fora de Portugal (e da Europa) o que ali se afirma, o real actual,  tivesse sido evidente há muito mais anos do que aos patrícios residentes na "pátria amada". Mas custa a crer que tenha sido apenas o local de residência a causa da incompreensão generalizada daquilo que Carrilho (esse que foi apupado no congresso do PS há dez anos) vem dizer. Com clareza:

 

E esse problema central é o do esgotamento do modelo de crescimento que se baseava fundamentalmente num crédito torrencial que, subitamente, diminuiu ou colapsou. É este o ponto cego das nossas dificuldades ocidentais, que na verdade quase ninguém quer – dada a multiplicidade e gravidade das suas implicações - ver e pensar. Passámos a última década distraídos, muito distraídos. Primeiro, com a declamatória «estratégia de Lisboa» aprovada em 2000, que deveria ter feito da União Europeia «a economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, antes de 2010, capaz de um crescimento económico duradouro acompanhado por uma melhoria quantitativa e qualitativa do emprego e uma maior coesão social».... Depois, arrastando os problemas institucionais da U.E., de cimeira em cimeira, de tratado em tratado, só descobrindo a quase inutilidade de tudo isto quando a ratificação do último, o Tratado de Lisboa, coincidiu com o rufar dos tambores da crise, a dizer que afinal os problemas que se impunha tratar eram outros. Por fim, com a imprudente arrogância de fim-de- época, que nos tornou incapazes de perceber o novo mundo que se abria com a entrada em cena dos países emergentes, abalando as ingénuas expectativas de que, com a globalização, a supremacia ocidental se consolidaria... (...)

 

O ponto cego do nosso tempo está aqui: por um lado, no esgotamento de paradigma do ilimitado, seja da energia, do consumo ou do crédito. E, por outro, na brutal competição que, simultaneamente, a globalização impôs em todos os domínios (da produção à fiscalidade, do trabalho ao ambiente, etc.), acentuando de um modo alucinante o ritmo e a intensidade da crise deste modelo. O choque de 2008 não bastou para compreender isto. O recurso oportunista a um keynesianismo de pacotilha alimentou a ilusão de um rápido regresso à normalidade, a uma normalidade que mais não era do que esse sonho do ilimitado e a um crescimento que, claro, ele não deixaria de provocar. (...)

 

 

É, pois, preciso mudar de lentes e reconhecer que é no modelo de crescimento dominante nas últimas décadas, alavancado sobretudo pelo crédito, que está o grande problema. Como há dias escrevia E.le Boucher, no Slater, «o endividamento não é a raiz do mal, ele é o analgésico que permitiu que não se olhasse o mal de frente. O mal, é a necessidade de uma enorme mudança, imposta pela globalização em relação a “como produzir” e a “como proteger”». Estamos numa viragem de civilização, muito mais do que num momento de oscilação de ideologias. Por isso, de resto, elas parecem tão inúteis e perdidas, propondo mais ou menos o mesmo por todo o lado, com um efeito cada vez mais corrosivo na confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

 

Talvez por isso, por de fora ser há tanto tempo tão notória essa "distracção", como Carrilho lhe chama, mas que não é apenas défice de atenção, mas ponto de vista clientelar, muito fel tenho botado na minha quota-parte de ma-schamba.

 

jpt

publicado às 22:12


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