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Habitat

por jpt, em 21.12.11

 

[Como abaixo referi tive que escrever para a edição de hoje do Canal de Moçambique. O palavroso texto é este:] 

 

HABITAT

 

O “complexo” encosta-se à estrada, claro. De caniço, acolhe os clientes em ampla esplanada coberta, anunciando uma sombra quase fresca, sedutora, e agora ainda mais de tão desejada que é. Só depois atentarei que a parte da pensão, lá nas traseiras, é feita de blocos, sinal de que o negócio vai bem. Ali fronteiro, na orla recortada do alcatrão, um pequeno bazar, meia dúzia de vendedoras, algum amendoim, bananas, peixe seco, coisas poucas, e ainda um ou outro jovem com as tralhas Mcel, essas que enchem as ambições de norte a sul, estendidas quase na estrada em moldes de revenda ou reparação.

 

O amigo que ali me conduz demora-se, com todos fala, aos parcos clientes e aos das vendas indaga das famílias, manda entregar saudações a alguns dos ausentes, quer novidades do negócio, e nisso tudo mostra-me, percebo-o bem. Está na sua terra, é a sua gente, está feliz, lindo no seu novo uniforme de régulo, o sol que ainda vai alto fere-me nos seus dourados, reluz-lhe a placa “autoridade comunitária”, e assim vem também vaidoso, que a farda e a bandeira acabaram de chegar, a bicicleta está prometida para breve. Mais importante ainda, muito mais importante, finalmente chegou o reconhecimento, disso que nele sobrou de pai e tio-avô.

 

Entramos na esplanada, repleta de mesas agora vazias pois apenas um casal por lá arrasta o entardecer. A mulher levanta-se para nos receber, sorriso aberto, lesta a levar-nos até à sua mesa. O chefe, jovial, eles os dois logo em gargalhadas cúmplices, apresenta-nos “Josefina, a dona da casa” e eu adianto-me, ainda de pé, “somos xarás” e nisso quero-me um pouco cúmplice. Ela ri-se num típico “afinal!” e ficámos. É uma quarentona já avantajada mas nisso sem esconder toda a beleza passada, está ali com um amigo, que dono não é, percebo-o logo pelo modo como as primeiras cervejas são chamadas e ainda mais pela forma como não conduz a conversa. Se namorado, amante ou só amigo daquele dia não sei, nem pergunto, claro. É um tipo alto, robusto, quarentão de ar bem-parecido, e conservado. Destoa-lhe um pouco o ter os olhos já raiados, vão-se até semicerrando, algo que ainda combate. Já tomou, está adiantado, e com ar de que não é só de hoje.

 

As 2M chegam, e vêm quentes, naquele morno que logo me traz a azia e que, pior do que tudo, me rouba a euforia da bebedeira, aos primeiros golos sei que só ficarei pastoso, cabeceando em pequenos arrotos, sem aquele pique rebelde que me faz lesto após o escorrer das garrafas. Mas não me nego. Pedimos galinha, certo que levará tempo, que já não conseguirei comer bem quando chegar, mas é o pretexto para bebermos. O régulo explica, quem sou e o que aqui me traz. Fá-lo com detalhe e de modo a que as duas empregadas, uma que ele prende pela manga, o ouçam, pois também serão elas a divulgar. Algumas pessoas entraram para acompanhar, nisso rodeando a mesa, e ele, mão espalmada no meu ombro, avisa que sou amigo de há muito, professor na universidade, aqui de novo a trabalhar sobre a região, a recolher a história, e também a actividade dele próprio, autoridade comunitária. Cada um destes factos é acolhido por sons da anuência, é satisfatório o relatório, e acede-se à minha presença.

 

Estou a ser mostrado, como é costume, e quase sempre deste modo ostensivo. É isto da estranheza de um branco, e até de cabelo branco, e português, professor vindo de Maputo, a interessar-se pelas coisas dos sítios. Serei motivo de conversas, assim vincando a importância de quem me acolhe. Por isso sou passeado, feito coisa exótica, um bem de prestígio. Bebo enquanto a conversa segue, pois ao régulo são perguntados detalhes sobre a minha estadia. Olho o gargalo, e intervalo, a lembrar-me daqueles meus colegas, seniores antropólogos, sempre ávidos a fotografarem-se com os chefes locais, esses que até sacerdotes são, pois mediadores de espíritos, e assim mostrando-se nos seus torna-viagens, num “the chief and I”, por vezes até dizendo-se iniciados, curandeiros ou coisa assim. Sorrio, em esgar da tal azia, a esta ânsia do como se diferente, auto-engrandecedora. E que é recíproca, como aqui torno a notar entre-golos. E rio-me, sozinho, até assim deselegante, pois vem-me à cabeça que tudo isto nada mais é do que “exotic-dropping”. É o meu momento, pois percebo que estou a criar.

 

O chefe acabou, os curiosos debandam, ficamos os quatro. O amigo da Josefina, nem-sei-o-nome mas foi dito, até então quase calado, diz que tem histórias para me contar, dele mesmo. Mas antes tem que ir fazer umas necessidades, já virá contar. E lá segue, já trôpego. Ficamos ali, como se dele à espera, a dona apresenta como está o “complexo”, a pensão lá atrás, é agora que reparo. Saúdo, está grande e bonito. Ela vai sorrindo, olhar daqueles que entra mesmo. Sabe o que é, bonita, dona de si, mamas fartas, soltas, ancas largas, riso aberto, de boca e olhos, engordada, braços roliços, a pele a luzir de transpiração, não é provocação o que me faz, é sedução, estão ali os quartos, é só avançarmos. Deixo-me imaginar, reconheço os quartos, cubículos sob tecto de zinco, abafados, aquela cama estreita, o colchão de palha já esmagado, o balde de água, esta já cansada de tanta espera ali. O meu amigo vai falando das suas coisas e nós ouvimo-lo, encarando-nos em posição de sorriso, e enquanto bebo, trocamos cigarros, deixo-me pensar em nós dois se por lá, quarentões, os nossos corpos pesados, num juntos sem ânsias nem encantos mas divertidos, soltos. Tudo isto conversamos em olhares, mais os dela que os meus ou será o contrário?, e se a vida me fosse outra quem sabe?, sorrimo-nos, muito, percebemos.

 

Nisto regressa o amigo dela. Vem para contar a sua história e mando vir mais cervejas. “Eu fui soldado da guarda de honra” diz-me, com orgulho. Narra com detalhes, até oscilantes, que era soldado no início dos anos 80. Uns dias antes da assinatura do acordo de Nkomati o presidente Samora visitou o quartel e viu-o. E logo o mandou avançar. Enquanto ele fala Josefina supreendida, até arqueando os olhos na dúvida, sorri-me, incrédula. Mas a história é séria, Samora chamou o nosso conviva. “Achou-me bonito, disse que eu tinha uma boa figura”, que precisava de homens assim e “mandou que me pusessem na guarda da honra”. Tudo para integrar a cerimónia lá com o presidente dos boers. Josefina ri-se, o régulo também, ele abespinha-se, jura que é verdade, o presidente gostou da sua figura, insistiu, até lhe deram farda nova, foi transferido para estar lá em Nkomati. É uma delícia, a história em si, mas mais do que tudo não posso deixar de contrapor aquele casal, ela ali, atrevida, dona, a enlear-me agressiva, e ele, homem rijo, entusiasmado com a beleza própria, como se uma menina coquette. O oposto do que costumamos esperar.

 

De súbito, até incomodado com os risos dos outros, olha para mim, para a minha t-shirt e pergunta-me, mudando a conversa, fugindo à ironia alheia, “e o que quer dizer habitat?", um qualquer dístico ecológico que eu trago ao peito, nesta roupa velha que trago para o campo. Hesito, na mudança de registo, e tento explicar, isto da protecção do meio ambiente, preservar animais e, mais ainda, as árvores.

 

O régulo ri-se, corta-me a palavra, e dispara, cáustico “os brancos cortaram as árvores deles e querem que nós fiquemos com as nossas feras, é isso”. E ri-se mais. Todos se riem. Eu também me rio. E pago mais uma rodada. Porque nada, como sempre se torna tão óbvio, é exótico.

 

jpt

publicado às 11:06


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