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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
1. Luis Rainha do Blogue de Esquerda integrou-me numa lista de blogs de direita, entre prestigiada companhia e até a de um blog fascista (ao qual ele, posterior e candidamente, nomeia como "blog sobre o movimento fascista"). Depois, impávido, argumenta "que eu não percebi nada", que apenas procurou evidenciar as diferenças existentes entre esse grupo.
Ira! Qual incompreensão, ira total! Qual a pertinência de alguém se entreter a distinguir-me de um fascista? Que identidade comum haverá entre nós que apele à necessidade dessa destrinça? Qual a semelhança básica que LR procura matizar?
Respondi. Irado, com toda a franqueza, sem rodeios. Lá deixei, como corolário, um PQP, única forma que o meu limitado português tem para significar o repúdio por um ultraje destes. Mas LR, apesar de reafirmar que não tem vida para isto, insiste, com desfaçatez regressa a este blog do "senhor Flávio" para lamentar a facilidade com que insulto e propondo, até em tom constrangido, que lhe apresente eu as minhas desculpas.
Insulto público, por escrito e a alguém que nem conheço (nem leio) é a primeira vez na minha vida! E já aturei muita porcaria, já levei muita pancada. Foi preciso muito para que ele brotasse. Este muito! Pois cada um tem o seu Muito, algo que o bloguista LR não compreende, é dele a incompreensão.
Mais, é óbvio que um PQP não é uma expressão literal. É, disse-o antes, um "esconjuro insultuoso", e aqui meramente reactivo. Mas a associação, ainda que matizada, que com total despropósito LR efectuou é literal, é pessoalmente direccionada, é absolutamente atentatória da minha dignidade, da minha honorabilidade, do meu bom-nome, do meu intelecto, da minha moralidade. Absolutamente inadmissível, absolutamente injustificada. E totalmente inopinada. Quem é este Luís Rainha? De onde saíu? Não o conheço, não temos conhecimentos comuns, não o leio, não faço a mínima ideia de quem seja. E não tenho nada a ver com as polémicas em que se coloca. Estou totalmente no escuro. A que propósito, com que direito, é que o homem surge com estas coisas? Isto é demais. E ainda tem o atrevimento de me vir aqui pedir satisfações.
2. Antes do último comentário de LR, antes de me irritar outra vez, ensaiei um texto mais geral, mais calmo. Não o vou acabar, que isto só me faz mal. Fica assim. Nele procuro interpretar o texto de LR, articulando-o com a minha visão sobre o seu movimento político e o desgosto (e des-gosto) que tenho pela sua influência no meu país. Fica aí para quem tiver paciência. E interesse.
Ei-lo:
Recebi algumas mensagens dizendo exagerada a minha resposta ao texto de LR. Há quem me diga ser democrático aceitar as opiniões alheias. Como se isso implique aceitar todas as opiniões e, acima de tudo, todos os processos categorizadores. É por essa invocação da democracia que volto ao assunto, aqui deixando dois pontos que sublinham (não é justificar, é sublinhar) a minha ira: sobre o texto que li, sobre o seu contexto.
Texto: LR tem um pensamento topológico. Organiza-se intelectualmente colocando-nos num espaço por ele construído. Mas nada adianta sobre os critérios que utiliza, como constrói as suas coordenadas. Não diz quais os conteúdos das entidades espaciais que tece (ou herda). Seria interessante que o fizesse, pois se os locais que vai mapeando são classificadores, presumo que correspondam a algo de substantivo. Não o fazendo depreendo que é na própria arrumação que fundamenta as classificações que opera. Significa com isso que as entende como evidentes. É uma lógica de pensamento invertida.
Também não explicita quais os locais existentes. Afirmando uma "direita" presume-se a existência, pelo menos, de uma "esquerda". Nada mais. Haverá "centro" no cosmos de LR? [Esse "centro" tão desvalorizado hoje em dia, o "centro sociológico" do actual jargão politiquês de Portugal, ou o "centrão" de conotações pimba, agitado para dar a entender que o verdadeiro intelecto anda pelas extremidades.] Ou outro qualquer lugar? Haverá, pelo menos, algum outro tipo de graduação no interior dos polos referidos, que ultrapasse o sensitivo de LR: a direita "interessante" ou "alerta" ou "troglodita"? Não se pode adivinhar.
Neste tipo de discurso aparenta que apenas sobrevive o pensamento dicotómico, ancorado no sacro par "esquerda/direita". Um par que é agente de exclusão: "não pensas como eu, és dos outros". Elogie-se ou não alguma elegância ou acuidade desses "outros".
Mas é também um pensamento classificatório que só sobrevive nessa dicotomia, sem ela perde a capacidade conceptual de operar, de mapear.
(Veja-se: LR cita um texto em que afloro a estafada questão de uma "superioridade intelectual e moral da esquerda". Como a nego, depreende que sou de direita. "Não pensas como eu, és dos outros"?)
Assim sendo, este é um tipo de raciocínio recorrente, alimentado de pressupostos. Baseado em implícitos, em percepções não desvendadas (as tais evidências). Isto nada mais é do que uma retórica de blindagem, pois a qualquer argumento que se lhe contraponha poderá dizê-lo inexacto: "eu nunca disse isso", "eu nunca pensei isso", "isso é uma suposição". Claro, se o discurso não se fundamenta, se não apresenta os seus elementos organizativos e substantivos, como pode ser efectivamente rebatido?
Mas estamos diante de uma qualificação política, algo que na sua essência é público. Portanto discutível. Ao não referir os seus constituintes o discurso impede a discussão, a contra-argumentação, pelo que deixa de ser democrático. Neste caso particular é apenas um produtor de epítetos. E, noutros contextos, de slogans.
Entenda-se, a não explicitação dos fundamentos e dos conteúdos substantivos não é uma fragilidade intelectual, pelo contrário é uma eficaz retórica para fortificar (e esconder) um discurso que se quer baseado no indizível, no invisível. A estas características que induzo no pensamento de LR não as considero pessoais, elas derivam do seu.
Contexto: será grave o dizerem-me "bloguista de direita"? As categorizações não são absolutas, a sua consideração depende de quem é o agente classificador, tal como os seus conteúdos implícitos e explícitos.
LR é, confirmam-me, um activista do BE, escreve num blog de cariz político, e disserta sobre política. E é nessa condição que lhe interpreto a referência. No entanto crispa-se porque o associo ao movimento político que anima. Num contexto destes, um texto político num blog político, acho essa crispação uma mera elisão. Porque estou face a um discurso que é (pelo menos também é) prática política, e que deriva de um conjunto de perspectivas políticas colectivas. LR não tem autonomia pessoal? Claro que tem, mas não estou diante de um blog poético, intimista, de divulgação cultural, etc. Estou face a um blog que é também acção política. Colectiva. E isso é de realçar, pois estruturador do seu discurso.
LR despreza que eu lembre a história dos partidos que constituem o BE. O que é recorrente nesse movimento, pouco atreito a relembrar o passado próprio. Ora o facto do BE ser uma associação de partidos de extrema-esquerda de inspiração maoísta, estalinista e trotskista serve mais do que para a mera ironia de ser aquilo um albergue espanhol. Essa herança é um facto que contribui para a sua inteligibilidade. A compreensão do BE não se reduz aos passados dos seus constituintes. Mas não se faz sem ela. Refutar isso é mais uma manobra de elisão. E, repito-me, a elisão no político é anti-democrática.
O BE poderia ter produzido uma nova identidade teórica. Que eu o saiba não o fez (mas reconheço, aqui de longe talvez me tenha escapado). Apesar de ser muito activo nos domínios da retórica, da mobilização, da intervenção atomística. Apesar de colher forte apoio no meio intelectual e académico português, onde não faltarão profissionais da escrita sistémica potenciais reorganizadores do seu quadro último de referência teórica. Não terá havido urgência nisso. A este propósito lembro um devastador texto no Jaquinzinhos sobre a realidade do BE (não será um texto final, é um mero "post" corrosivo. Mas é uma bela ilustração).
É esta realidade do BE que me orienta, não as actuais agitações, as últimas e mediáticas iniciativas. Quais os modelos socioeconómicos e de organização política que esse aglomerado de organizações defende? Muito se ouve falar de uma democracia participativa. O termo parece inócuo, agradável até. Como não defender uma maior participação dos cidadãos na vida política? Uma maior atenção, uma melhor opinião, uma mais constante acção?
Mas "democracia participativa" não é isso. É uma concepção comunitarista de vida política, de redução da dimensão representativa da organização política. Privilegiando a influência dos "movimentos sociais" - há algum tempo Pacheco Pereira, penso que no Público, colocava a questão central: quais "movimentos sociais"? Quem os define, quem lhes atribui legitimidade, quem os hierarquiza? Que organização institucional e política os permite e integra? Quais os seus fundamentos? Nada disto está explícito.
Repito-me: no político o que fica implícito, falsamente evidente, quer-se indiscutível. Ou seja, é anti-democrático. E, também aqui, esta não-explicitação não é defeito, é uma característica fundamental de uma prática política não democrática.
O que nesse jargão "participativo" se encontra, sob a capa de uma proposta igualitária e democratizadora, é a vontade de uma sociedade que seja regulada por instituições que delimitem e hierarquizem o peso e a legitimidade respectiva de cidadãos e suas associações, segundo critérios político-ideológicos escolhidos e manipulados por uma particular formação política. Aliás, tudo isto é história recente. Aliás tudo isto é, alhures, actualidade.
Dir-se-á que na democracia representativa isso também surge, principalmente em torno dos partidos. Certo, mas neste sistema (imperfeito é mais do que sabido, mas neste caso também eu sigo a célebre definição de Churchill) os processos de atribuição de paridade de cidadania são muito mais universais. Nesse sentido a aparentemente simpática democracia representativa é uma perversão do sistema democrático como o reconhecemos.
O BE e os seus militantes são um perigo para a democracia portuguesa? Quem vai lendo o Ma-schamba aperceber-se-á que para mim o grande perigo para a jovem (sublinhem o jovem, sff) democracia portuguesa é o patrimonialismo cleptocrático que tem vigorado, inscrito no coração dos grandes partidos nacionais. Ele polui as instituições democráticas, rompe a confiança entre população e seus representantes. E tenta des-politizar a sociedade. É essa cleptocracia que alimenta os populismos, os sidonismos. Que nunca estão no horizonte até que se assumem. Urge incrementar a democracia representativa, fundamentalmente pela democratização institucional. [reconheço que esta frase é um truísmo, mas este aspecto exigiria/á um texto só por si. Até porque este já vai longo].
No contexto político português o BE é algo marginal. Mas o seu espaço, ainda que pequeno, denota a fragilidade da democratização da sociedade portuguesa. Pois só assim se compreende que um movimento com este tipo de matriz e de propostas estruturalmente anti-democráticas, mas de grande capacidade retórica, e com grande apelo junto a algumas camadas sociais devido à actualização de causas sonantes [o "fracturante" que não é realmente fracturante], ganhe algum relevo social e enorme eco mediático. Tudo isto denota, em minha opinião, alguma generalizada incultura política. Mas também denota o envelhecimento decadente dos partidos tradicionais, incapazes de um discurso crítico da sociedade, de um atitude projectiva para o país e, pior do que tudo, de uma cristalina prática democrática. Mas estes, e apesar de tudo isso, são partidos democráticos, melhoráveis. Em meu entender Portugal vive uma partidocracia de partidos democráticos. Urge "despartidocratizar", não mergulhar em partidos estatizadores, comunitaristas, anti-democráticos (ou no seu mero inverso).
A um outro nível acho que a expansão do discurso BE serve ainda para descaracterizar uma reflexão democrática, para a sedimentação de problemáticas, conceitos e de modelos de acção alheios a este sistema, os quais se vão instalando fora do BE, sem que sejam devidamente combatidos (até devido ao seu apelo, ao modismo que acarinha).
Em suma, LR surpreendeu-se com a minha reacção, pois entende que a sua categorização era elogiosa. Refuto-a. Pela inadmissibilidade de ver associado (seja de que forma for) a um blog de inspiração fascista.
Mas mais, a minha reacção é também uma defesa contra estas categorizações, estes rótulos elaborados por agentes políticos de movimentos deste teor. Não aceito. Porque não me entendo de direita? Não é essa a questão, isso estará a outro nível.
Neste caso tudo é diferente. O meu repúdio nasce da minha total desconfiança relativamente ao BE, nos seus apoiantes. Devido à sua matriz, devido às suas aspirações. Pois, e mesmo que a sua retórica surja "jovem e fresca", creio que o seu modelo é o meu silêncio.
Muitos dizem que o BE nunca chegará ao poder, e que apesar de algum "pedigree" menos democrático, cumpre um papel político importante, coloca questões, dinamiza as oposições. [E neste "muitos" integro apoiantes seus, tantos deles por aqui passados, com lugar à mesa por prazeres de amizade e hospitalidade, e sempre inquiridos sobre o "então como está Portugal?"] A esse nível nem contesto. Mas espanta-me o raciocínio.
Pois é o facto de não se perspectivar a sua ascensão ao poder que se vão aceitar as suas visões no debate quotidiano? Esquecendo que, até pelo talento comunicacional evidenciado, vão influenciar a cultura política nacional? Num sentido perverso?
Mais, não será isso um mísero tacticismo, albergar um movimento do qual não partilhamos os princípios apenas porque tem utilidade conjunturall? Não é esta atitude de alguns dos seus apoiantes e (semi) apoiantes, bem como dos seus coniventes, uma radical e perigosa contradição? Uma, e peso bem a palavra, imoralidade?
Mais, no Ma-schamba já tive a péssima experiência de ser indexado. Pelo mesmo tipo de processos, sem argumentação, sem discussão. Não gosto da atitude intelectual. Mas acima de tudo temo este tipo de atitude política. Pois revisitando a sua matriz e espreitando as suas aspirações temo-os. Não confio.
E para mim desconfiança e temor não me levam para casa. Tenho toda a consciência de que uma afirmação destas quando lida poderá parecer quixotesca, ridícula. Mas ainda assim ponho-a aqui. A mim a desconfiança e o temor irritam-me e levam-me ao protesto, ao grito se for possível.
Gritar ao LR? Será ele um apparatchik, desses que as revoluções deles logo usam para devorar os seus filhos? Ou um desses intelectuais (orgânicos) que as revoluções deles logo devoram? Não sei, não o conheço. Nem agora me interessa. O que me interessa é repudiar categorizações deste tipo, indexações elaboradas por esta linha de pensamento.
Porque LR e os seus são o ovo da serpente.
Uma mambinha porventura. Mas mamba ainda assim. Predadora.
E ninguém, minimamente consciente, traz a mamba para dentro de casa.