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Ortografia

por jpt, em 18.03.12

Aqui lembrei que é falso afirmar que não há sanções ortográficas, que reina a liberdade ortográfica. Não é só a documentação oficial e o mundo escolar. É no dia-a-dia, a desvalorização daquele que falha. É secular a hierarquia social expressar-se no apuro ortográfico, de tendencialmente se conceberem homólogas a "pureza" de casta e a da escrita. Na actualidade também tal se encontra constantemente. Quem lê blogs nota, repetidamente, polémicas polvilhadas com a desvalorização ortográfica: "V. escreveu mal X, portanto as suas opiniões são miseráveis". É um argumento imbecil (e nada cristão, aquela coisa de "atirar a primeira pedra ...") mas é constante. É certo que o "capital ortográfico" não está desligado de outras dimensões, e isso vê-se também no mundo dos blogs, mais nas catacumbas dos comentários, pois é muito comum que aí os anónimos irados sejam useiros e vezeiros na trapalhada ortográfica, quantas vezes pungente. Quem quiser ler isso sociologicamente que o faça.

Muito me irrita a redução do argumento alheio por causa de uma tropelia ortográfica cometida. Já por aqui o disse (e logo aparecem os "inteligentes" a afirmar que estou a defender os erros). É um arrivismo, nada mais do que isso. Mas existe e funciona. Pois muito boa gente embatuca e gagueja após ter cometido uma pequena burrada qualquer, como se os antepassados lhes caíssem na lama por tal. Ou, pior ainda, como se os antepassados lhes viessem da lama, que é a tal coisa das hierarquias sociais mostradas via uso do abecedário.

Vem isto a propósito de uma recente troca de opiniões num blog muito-conhecido, ocorrida entre bloguistas que discutiam exactamente o acordo ortográfico. Aconteceu que um ali exo-bloguista, veterano (e sportinguista), comentou a defender o acordo. E escreveu a palavra "dignatário". Foi logo reduzido a um limbo semi-mineral por uma atroz oponente do acordo, ali residente. Aquilo chamou-me a atenção, mais do que o habitual, pois "dignitário" é uma palavra que me custa, troca-me a língua. Algumas vezes a escrevi mal mas, pior (porque não se emenda), já muitas vezes a disse mal, foge-me o pé para o "dignatário". É claro que é erro, coisa básica da etimologia, mas da próxima vez já sei que o farei.

Naquela caixa de comentários fiquei (apesar dele defender o acordo) do lado do meu confrade (sportinguista). Pois "raios partam" as professoras primárias do tempo das palmatoadas, muito ciosas ...

Hoje ao ler a tradução portuguesa de livro russo de XIX  (eu não sei russo, não posso avaliar a tradução, mas o texto está muito legível e sem adornos) feita por um tradutor muito conhecido deparei com uma "dignatário". Sorri. Fui confirmar nos dicionários electrónicos. Num apanho já a definição (vinda da empiria, ou seja, da língua) "Forma não recomendável de dignitário". Erro comum, em processo de ascensão. Ou seja, não estamos sós, neste nosso troca-línguas.

Moral da história: isto do "dignitário" mostra que é indigna a refutação por via ortográfica. Fraca forma de afirmar hierarquias sociais. Arrivista (ou seja, de "recém-chegados", faço-me entender?).

jpt

publicado às 23:51


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