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Abro as mensagens do facebook. Tenho 5 pedidos de informações sobre o "estado da arte" em Moçambique, pedem-me conselhos sobre possibilidades de trabalho em determinadas áreas, enquadramentos jurídicos, enquadramento de modos e níveis de vida. Duas pessoas pedem-me ajuda mais explícita, que lhes arranje casa. Não conheço nenhuma delas, são ligações estabelecidas em torno do grupo ma-schamba - que me parece estar a desiludir muito gente, pois não providencia informações, para além das do meu ensimesmamento e de raras incursões dos companheiros (ainda mais ensimesmados? ou totalmente entimesmados?).

Já por duas vezes aqui referi a aridez do que posso dizer (ou fazer) a quem quer imigrar. Sei que é antipático, as pessoas cobram o que acham ser falta de interesse ou solidariedade. Não me passa pela cabeça menosprezar quem precisa de ajuda para trabalhar. Mas não vou estar com rodeios, pouco tenho a adiantar. E não vou interromper o meu vácuo para procurar casa ou informações para um colectivo, crescente.

Aos patrícios que querem imigrar. Boa sorte. Coração ao alto. Para mais informações gerais vejam este artigo recente no jornal "i". Oito opiniões de portugueses residentes, escolhidos entre a burguesia e os funcionários públicos (muito pobres os critérios da jornalista Isabel Tavares), a maioria dos quais conheço (conheço 5 dos 8 entrevistados). Opiniões diferentes, algumas das quais até surpreendentes - um tipo que diz que pagou à polícia "mas que tem tudo em ordem", só para não ficar retido é um caso, radical, de autismo. Um tipo que diz que Maputo em 1997 "era um inferno", enfim, merece quando morrer ir para o purgatório. Mas os caminhantes que leiam as opiniões, já podem imaginar um quadro geral.

O que tenho a dizer? O meu único luxo actual é o Peter Stuyvesant azul, 75 meticais (2 euros). Já tentei o Pall Mall, o velho Palmar (35 meticais, 1 euro) mas provoca-me enxaqueca. Sei que há que não acredite, a maioria proveniente de um grupo sociologicamente confinado e que de quando em vez, nestes oito anos de bloguismo, me surgem a resmungar: os que partiram há décadas e que continuam a ilegitimar a história, em particular nós, malandros, que estamos onde eles não estão. Para eles um tipo que aqui está está a enriquecer. Quem me dera. Mas não, o nível de vida está cada vez mais baixo, a tornar-se difícil. Falo da burguesia. Da dieta europeia.

E uma coisa podem aprender comigo. Aprendam a comer folhas. Nhangana, "ma-couve" (e este nome é cá de casa, deve ter outro), cacana, mboa, matapa. Usem farinha de milho. Moelas, cabrito. Não é preciso comer trinca (o arroz mau), que é o que o povo está agora condenado a comer.  Ou seja, seja-se emigrante em Moçambique como se fosse noutra "frança" qualquer. Pois assentar praça em general é coisa de expatriado. Sei bem do que falo, também o fui.

 jpt

publicado às 11:02


6 comentários

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De rosa alice a 06.06.2012 às 22:49

Gostei do texto.Eu fui para Maputo há 10 anos e foi um choque, mas é com choques que aprendemos se tivermos mente aberta...
E fui à aventura, com dois filhos comigo e a mais novinha tinha 16 meses, e o menino 7 anos...
Sinto saudades, creio que irei aí mais uma vez, mas no momento há mais países a conhecer...
O mais complicado foi o arranjar casa, uma casa segura para meus filhos... nunca policia algum tentou subornar-me, e sempre fui tratada com respeito quando cometia alguma infração, sou muito distraída... e para evitar a multa contava uma estória e eles deixam passar... ao contrário dos guineenses, povo com quem gostei de conviver, mas os senhores agentes que conheci não eram muito simpáticos com as mulheres...e para eles é impensável que "branku fimea" viajasse sozinha... tive problemas na fronteira quando uma vez resolvi ir ao Senegal...e quando os enfrentei sem medo chamaram-me feiticeira...
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De Paula Matos a 27.05.2012 às 22:16

Texto honesto e realista. Imigrar para....Moçambique.... Sinal de riqueza!? Não é fácil, mas cumpram-se os sonhos. Boa sorte aos futuros aventureiros.
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De jpt a 27.05.2012 às 21:57

IAR é isso, após 9 meses regredi. Quanto às suas cinzas espero que a viagem, já encomendada, venha ainda longínqua Cumprimentos
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De Isabel Alves Roçadas a 25.05.2012 às 16:46

Caríssimo José Teixeira, como está? Conto que bem.
....e voltou a fumar?????
Releve as "exigências" dos nossos pedidos de ajuda. Talvez sejam de pessoas como eu, a quem falta sentido de aventura e teme já muito e que, ao não estar nem bem nem segura aqui, queria algo seguro aí, porque ao decidir imigrar, não teria condições de saúde mental para voltar de novo a este País que nunca conseguirei aceitar.
Já pedi á pessoa familiar mais próxima que mande incinerar-me quando morrer e que entregue as minhas cinzas a um Sr natural de Moçambique e que aí vai todos os anos. Assim cumpro o sonho de voltar á minha terra para sempre, lol!
Caro José Teixeira bem-haja por estar aqui e aí, saúde, cordiais cumprimentos e muito obrigada pelo "ma-schamba".
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De jpt a 25.05.2012 às 11:39

Os "anos de chumbo", como se lhe chamam. Do "carapau e repolho". Escassez absoluta, agora a escassez é relativa e coisa bem diferente. E, note-se, não me estou a queixar (além de que estou a dar suculentos conselhos gastonómicos). Pelo que sei, de ouvir contar, Adriano Alcântara, se V. voltasse seria recebido de braços abertos ... Abraços
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De Adriano Alcântara a 25.05.2012 às 11:28

Texto honesto, como há muito não lia sobre o tema em questão. Mas uma coisa é certa: se pudesse voltar a trabalhar em moçambique, nem pensava duas vezes: no início de 1980, as montras das lojas mostravam só pirâmides de pensos "Modesse" (já nem sei se o nome se escrevia assim) e semi-círculos de martelos de picar carne vindos, salvo erro, da Bulgária, junto com uma ou duas sandálias com sola de pneu. E uma das minhas filhotas nasceu na beira, ainda assim.
Abraço, Jpt.

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