Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Identidades

por jpt, em 31.08.04

Leio no Público [artigo abaixo transcrito pois as ligações ao Público são perecíveis] as declarações do porta-voz da Comissão Europeia, congratulando-se dado que "A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo...[pois] conquistou 286 (82 de ouro) [medalhas olímpicas] entre os 25 países que actualmente a constituem".

Poderiam ser palavras de um qualquer importante dignitário, que valeriam como sua opinião individual. Mas é um porta-voz, ainda que o possamos imaginar informal, "de sorriso largo". Daí que, apenas e muito, ecoa o sentido da dita Comissão Europeia.

Irrita-me. Pois é um cúmulo de ideologia burocrática, a querer impor identidades, sentidos, ao mundo. A narrativa que a Comissão quer inculcar, escondida no tal "sorriso largo", prazenteira, "como quem não quer a coisa".

Nem discuto se a Comissão está mandatada para isso (haverá mandato explícito para a construção de identidades colectivas?). Mas irrita-me a vertigem do funcionário, aflito para produzir a "sua" identidade europeia, aflito para ultrapassar essoutra identidade europeia fluída, complexa, contraditória, antagónica, mítica, construída e também sempre (re)construível , e, para ele(s) talvez pior do que tudo, que não lhe(s) cabe no relatório de actividades. Porque dele(s) não deriva.

Sobre esta vontade de sobreposição, esta incapacidade de entender a dimensão actual de representação identitária que se joga no desporto, e que se cobre de ridículo (e de anti-corpos?) nos seus meneios, já aqui escrevi, em tempos de Ma-schamba menos frequentada.

Vou, por isso, repetir o pecado da auto-referência (a idade, implacável). Foi a propósito do último França-Inglaterra do torneio das 6 Nações de râguebi que botei sobre os hinos e as identidades nacionais no desporto. Para quem não tenha paciência para o clic aqui deixo o final:

Mas se eles [Gales] não estiverem é a Inglaterra. [O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...]

Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.

Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lembro-me e lamento-me eu, desalentado.

Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.

Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.

Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.

Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.

[Transcrição da peça do Público, 31 de Agosto de 2004]

UE Louva Supremacia Sobre EUA

Comissão Europeia congratula-se com as 286 medalhas conquistadas contra as 103 dos norte-americanos

Nenhuma nação obteve em Atenas, tantas medalhas (103, 35 de ouro) como os EUA, mas verifica-se que ficaram a léguas da União Europeia, que conquistou 286 (82 de ouro) entre os 25 países que actualmente a constituem. Como se de arqui-rivais se tratassem, o porta-voz da Comissão Europeia, Reijo Kemppinen, não perdeu a oportunidade de fazer esta comparação, ontem, em Bruxelas.

"A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo, referindo que os europeus se distinguiram sobretudo nos desportos aquáticos e decepcionaram no boxe e no halterofilismo. "Daqui até 2008, o nosso nível deverá melhorar", afiançou.

A prestação dos EUA foi, no entanto, elogiada pela imprensa local. "Os americanos prolongam o domínio nas medalhas", titula o "USA Today", lembrando que os norte-americanos tiveram o mais elevado número de medalhas desde as 108 de Barcelona; mas acrescenta que as 35 de ouro representam o total mais baixo desde Montreal. Os elogios à organização grega são unânimes por parte dos diários mais importantes, embora o "New York Times" mencione a "factura" que a Grécia terá de pagar nos próximos anos pelo investimento feito.A China, com menos três medalhas de ouro que os EUA, rendeu homenagem aos atletas que a representaram. "Bandeira vermelha de cinco estrelas, estamos orgulhosos de ti", escreveu o jornal "Quotidiano" em editorial do orgão central do PC.

Os russos balançavam entre o sucesso dos seus atletas e a desconfiança. Mesmo tendo ganho mais quatro medalhas do que em Sidney, o facto de terem perdido cinco de ouro em relação há quatro anos lançou o alerta.A Alemanha foi o país europeu mais bem classificado, na sexta posição, atrás do Japão e da Austrália, mas os responsáveis apelaram a modificações na estrutura desportiva de alta competição. Com um total de 48 medalhas (56 em Sidney), o ministro dos Desportos, Otto Schily, fez um balanço globalmente bom, mas sublinhou que houve "grandes decepções em algumas modalidades".

(Rodrigo Cordoeiro, com AFP)

publicado às 20:40


2 comentários

Sem imagem de perfil

De jo a 01.10.2007 às 12:31

Excelente entrada! Séria, reflectida, perspicaz!

Abraço,

Joao gomes, editodo blogue vistas na paisagem
Sem imagem de perfil

De Eugénio costa Almeida a 01.10.2007 às 12:32

Meu caro, guarde um pouco dessa irritação para o princípio do ano, quando analisar e referendar(?) o Tratado Constitucional da União Europeia que muitos julgavam que seria eternamente um utopia.

comentar postal



Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos