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Também como bela forma de assinalar os vinte anos do acordo de paz, que se celebram nesta quinta-feira, amanhã ao fim da tarde (3 de Outubro, 18 h.) inaugurar-se-á na galeria da Kulungwana uma individual do Sérgio Santimano. Chega com o nome "em>Karingana wa Karingana". Estará disponível até ao próximo dia 21. A exposição é uma réplica das sete fotografias que estarão expostas, de forma permanente, na secção da Cirurgia no Hospital Universitário Karolinska de Estocolmo, capital da Suécia.E está acompanhada deste texto de Luís Carlos Patraquim:

Enquadramentos

Karingana Wa Karigana é o nome desta exposição de Sérgio Santimano. Era uma vez… em tradução aproximada. Desde que o poeta José Craveirinha, em 1974, publicou o seu livro de poemas com o mesmo título que a expressão vem sendo glosada, do teatro à pintura, da fotografia ao cinema.

Um dos mais consagrados fotógrafos moçambicanos, Sérgio Santimano divide-se entre a Suécia e o seu país. Mas território emocional mais importante do seu já extenso trabalho é Moçambique. Índico, de corpo inteiro, fez uma vez uma espécie de autobiografia, revisitando as origens goesas. Essa Goa que se entranhou por inteiro no tecido cultural e social moçambicano.

Se a escola da fotografia moçambicana bebe no fotojornalismo, com Ricardo Rangel e Kok Nam – este último aqui em bela e agora comovedora evocação (Kok Nam em Estocolmo junto da imagem de Samora Machel em manifesta cumplicidade) – a verdade é que Sérgio Santimano se desdobrou em trabalhos temáticos de grande fôlego. Esquadrinhou as terras e as gentes da portentosa província do Niassa e caminhou ao lado dos refugiados de guerra que, após a assinatura do Acordo de Paz de 1992, regressavam às suas aldeias e lugares perdidos.

O Karingana Wa Karingana, o Era uma Vez que impõe uma dimensão narrativa ao destino e às vicissitudes individuais e colectivas de todo um povo, ganha em Sérgio Santimano uma intensidade e um enquadramento peculiares. Nele, como na maioria dos fotógrafos seus compatriotas, o enquadramento vai ao arrepio do discurso oficial, do relato épico, da visibilidade conveniente. O enquadramento é um acto moral e político, dizia Jean-Luc Godard. Sérgio Santimano empenha-se, com humaníssima atenção e sensibilidade, em nos dirigir o olhar para uma espécie de ritualização do momento dramático, como na imagem da mulher que se “lava” de todos os seus sofrimentos. É este o enquadramento que importa, o que se descentra da evidência conveniente, para iluminar e dar a ver, em proposta polissémica, o que considero o melhor do seu trabalho, a dignidade essencial da condição humana.

jpt

publicado às 09:43



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