Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Carlos Cardoso

por jpt, em 06.11.12

Quando cheguei a Moçambique, em finais de 1990s, razões profissionais logo me fizeram conhecer Carlos Cardoso, editor de "O Metical". Tal como a vários dos seus colegas e amigos. Contrariamente ao acontecido com alguns desses nunca tive qualquer relação com Cardoso, apenas alguns acenos, quanto muito meia-dúzia de quase-mudas saudações. Tinha a consciência de que eu lhe seria totalmente indiferente, quanto muito apenas algo, distraída e superficialmente, antipático. Do meu lado, confesso, bem distante, não tinha por ele qualquer empatia. Pelas suas idiossincracias. Não gostava do jornal dele. Não gostava de o ouvir falar. E não tinha afinidades ideológicas.

Sei que dos mortos sempre se exageram elogios e qualidades, se inventam proximidades e comunhões. Não o faço, nem o farei neste caso. O homem não me era simpático. E de mais elogios não precisa. Talvez, sim, talvez, seja conveniente lembrar os que já teve, e bem mereceu: incorruptível, corajoso destemido, vertical, frontal. E solidário. Se assim foi para quê inventar outros, fingir irmandades? Fica-me, mais de uma década depois, o respeito por um tipo do caraças - e a memória da comoção que o seu assassinato me causou, do respeito emocionado pelas corajosas palavras de Mia Couto no seu velório, como que lhe pegando no "testemunho".

E também muito a memória da profunda reacção popular. Na sua morte, no seu funeral. No depois, nos cartazes nos "chapas", nas ruas. E, mais depois ainda, nesse extraordinário caso sociológico que foi o julgamento dos acusados do seu assassínio, as sessões transmitidas em directo pela rádio, pela tv, um caso de transparência, talvez algo estranho para este estrangeiro europeu habituado a outros usos jurídicos, mas que tanto se impunha então. E no que se via andando pelas ruas do país, o povo em torno das tvs públicas, de rádios portáteis feitos fogueiras, ouvindo horas a fio, dias sobre dias, as alegações. Sobre o assassinato de um dos seus, talvez um dos melhores dos seus.

Tudo isso me irrompeu quando agora mesmo uma amiga me envia uma mensagem. Para que fosse eu ao facebook ver o perfil de um dos seus assassinos. Carregado de elogios. E de ligações, e tantas delas que me são comuns (pois o número destas muito me cresceu por via do blog). Presumo que muitas daquelas ligações derivem de mera curiosidade. Mas espantam-me. Magoam-me. Mesmo que sejam só por isso. E não só pelo que contradizem desses outros tempos. Apenas um "como é isto possível"? E assim boto isto. E vou para o facebook. Limpar essas minhas ligações ("amizades").

E pensando que então, in illo tempore, deveria ter tido "espaço" mental para parar, e  beber um copo, fumar umas coisas, com o Cardoso. Pois nunca convém andar muito depressa, e ter muitas certezas. Mas isso só a idade é que ensina. E faz assentar.

jpt

publicado às 16:03



Bloguistas







Tags

Todos os Assuntos