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(Alguma) Literatura Moçambicana

por jpt, em 30.04.08

Esplanada de fim de tarde em lenta conversa até cíclica. Face a interlocutores literatos, e até comigo algo concordantes, vou remoendo a minha surpresa, relativa é certo, da continuidade da edição, por via das editoras oficiais e dos prémios institucionais - até "obrigados" por tradição universal à produção de um tal de "cânone" literário cujo defeito será(ia) exactamente esse tom oficial-institucional -, de alguma prosa literária muito fraca. Fraca de monotonia temática, de pobreza formal mas acima de tudo fraca por grosseiro psicologismo.

As razões para tal, sempre me avançam, são os mecanismos de edição e premiação - fragilidades dos juris de selecção. E o sempre anunciado, ainda que (quase)nunca provado, amiguismo. Mas de tão repetidos esses argumentos nada me dizem - explicarão o aqui e ali, mas não a continuidade da produção. Fala-se também da falta de leitura de alguns publicados escritores,  talvez escritores não leitores. Aí já vou alinhando, mas não me chega.

É em casa - e não na esplanada ... -, entre as coisas das minhas aulas que me ilumino sobre o porquê do eco da falha literatura que vai vingando. E da porrada levada (e o silêncio, haverá lá pior porrada a um escritor do que esse silêncio?) por alguns jovens que, mesmo que algo toscamente, tentaram aqui meter a carne e a mente na literatura. Entenda-se, os homens escorregadios e incoerentes. Uma iluminação perigosa, lâmpada a ferir os olhos, com riscos de "evolucionismo", sei-o. Mas muito apetecível de compreensível ... se não ficaramos por aí para entender. E esperando que os "oficiais" olhem para algo mais "moderno" - já nem digo "contemporâneo".

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"Mais sans doute l'établissement provisoire d'une psychologie um peu sommaire, à grandes lignes très arrêtées, était-il nécessaire d'abord pour permettre à un art classique de se construire. Il y fallait des amoureux qui soient bien amoureux, des avares qui soient bien avares, des jaloux qui soient bien jaloux, et des hommes qui se gardent d'être un peu tout cela à la fois. Montaigne n'a jamais été plus perspicace qu'en dènonçant sous cette fausse exigence esthétique, l'entorse qu'elle donnait à la verité: "Je laisse aux artistes, et ne sçay s'ils en viennent à bout en chose si meslée, si menue et fortuite, de renger en bandes cette infinite diversité de visages, et arrester nostre inconstance et la mettre par ordre. Non seulement, je trouve mal-aysé d'attacher nos actions les unes aux autres; mais, chacune à part soy, je trouve mal-aysé de la designer proprement par quelque qualité principalle, tant elles sont doubles et bigarrées à divers lustres".

[André Gide, "Préface", (1962) em Montaigne, "Essais I", Paris, Gallimard, 2005, p. 14]

publicado às 14:44


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