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Toca o telefone, um amigo a perguntar se estou a ver televisão. "Não?", então que a ligue, vai-me anunciando os milhares à volta da selecção de partida para a Suíça, os motardes imigrados por lá também à espera no aeroporto, a RTP-A/I transmitindo em directo o delírio colectivo. Quem me telefona não é um inimigo da bola, a desculpa da chamada até foi o comentário à contratação do dia ("Postiga?, então o que achas?"), mas o que é demais tresanda, isto para não dizer que fede, que é mesmo isso, mas as homofonias são desagradáveis quando se quer manter o nível.

Bem, lá vou eu ligar a televisão. Ali ao lado está a Carolina (a minha filha que fez seis anos esta semana) a escrever uma carta - sua autonómica decisão - aos avós a dizer-lhes que tem saudades da família e de Portugal. Enquanto escreve eu fico a assistir à transmissão, assim a ver um avião da TAP na pista do aeroporto da Portela a preparar-se para levantar voo enquanto um locutor e o professor Marcelo, este em mangas de camisa e de cachecol da selecção portuguesa, vão comentando sobre a importância do evento futuro e desta partida dos jogadores. Alguns minutos se vão arrastando e enquanto o avião ("um Airbus" modelo não sei quantos, avisam, sob o comando do "comandante Coutinho", sossegam-nos) se vai posicionando, o professor Marcelo - que um dia quis ser primeiro-ministro do país, imagine-se - anuncia o efeito bandeirístico que regressa, rejubila com a atenção nacional, etc. Entretanto o tal Airbus do comandante Coutinho (mui decente profissional, estou certo, e que não tem culpa desta maluqueira toda) estanca no início da pista aguardando o sinal da torre do controle, como nos explica o locutor (para a gente não descrer que a selecção voará para o Euro, presumo), e dentro de pouco o professor Marcelo (insisto, que um dia quis ser primeiro-ministro, imagine-se) irá dizer-nos, preocupado, que o avião está a rolar tempo demais, a custar-lhe descolar, e repete-o, provocando-nos um pequeno frissonzito, "deus queira que tudo corra bem" pensará a pátria, e assim correu, vá lá, lá seguiram eles. Mas ainda antes disso, ainda com o comandante Coutinho, digníssimo profissional, esperando a "luz verde" para arrancar, e nós expectantes desse sempre arriscado momento, não é assim?, a Carolina - repito, em autonómica decisão de escrever uma patriótica carta, "cheia de saudades de Portugal" e "dos avós", que a avó Marília "me deixa fazer tudo" e o "avô António faz maluquices" -, e a Carolina, dizia eu, interrompe o seu afã pátrio, vira-se para mim armando olhar crítico, e até surpreso de me ver a ver aquilo, e dispara com entoação "ó pai, os aviões não são importantes!...".

Fico-me a sorrir. Se se mantiver assim a esta, quando crescer, não há-de o professor Marcelo enganar com as suas vichyssoises. Palhaçada ... ao que um homem desce. Ao que este desceu. E tantos com ele ...

publicado às 23:12


6 comentários

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De Jorge Leite a 01.06.2008 às 23:49

Subscrevo. Porra!
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De WR a 02.06.2008 às 01:43

Engraçado. Eu não vi essa palhaçada que todos os canais transmitiram durante horas, mudei para programas mais interessantes, como se o futuro de um país pudesse depender de uns chutos numa bola. As televisões emitem, só papa quem quer: os papalvos!

WR
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De jpt a 02.06.2008 às 01:59

WR no post abaixo sublinho que concordo contigo
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De Francisco Valente a 02.06.2008 às 02:07

O tal comandante também apareceu de cachecol ao pescoço para a sua conferência à frente dos jornalistas. Nem sei o que se diz nestas alturas.
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De jpt a 02.06.2008 às 03:45

o "comandante coutinho" também? afinal!?!? ... nem sei que resmungue (ah, gosto de o saber por aqui, abraço. só por isso valeu a estopada do aviãozito ...)
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De cláudia a 03.06.2008 às 14:21

ainda bem que estás longe... eh, eh.

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