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(Des)Colonização

por jpt, em 10.02.04

A "polemicazita" sobre a descolonização deslocou-se para o mundo blog. No colectivo Mar Salgado gerou uma polémica interna, em reacção a um texto ali colocado por V. Lobo Xavier, no qual se defende liminarmente o colonialismo português.Acredito que o teor desse texto esteja vinculado a dois factores: a um reflexo da polémica partidária que lhe é anterior; a um profundo desconhecimento do seu autor sobre o assunto que aborda. E, talvez, a um desejo de cutucar aqui e ali. O texto vale o que vale, as respostas que recebeu em casa própria servem para o ultrapassar. E, provavelmente, VLX terá curiosidade em se informar um pouco melhor sobre a matéria, agora que escreveu sobre ela, agora que se cumprem trinta anos sobre os processos de independência das colónias portuguesas.

 

Não é portanto sobre esse texto que venho escrever. Mas sim sobre um outro do mesmo Mar Salgado, de FNV. Uma posição crítica à do seu parceiro, lúcida. Mas onde ainda se retira "O Regime pode ter feito uma colonização menos brutal...", um traço recorrente na leitura do colonialismo português, e quase sempre conjugada com algum luso-tropicalismo, ainda que básico (não neste caso). Ideia baseada em alguns lugares comuns, frágil, preconceituosa.

 

A leitura da história e a realização da historiografia são actos políticos. Por isso não me pode surpreender que as perspectivas políticas surjam tão arreigadas quando se fala de Portugal em África. Mas o império acabou há já trinta anos, e não há apenas trinta anos. Para quê continuar a falar do colonialismo entricheirados em aparentes campos político-partidários?

 

O regime colonial era de uma brutalidade terrível. Não apenas pela violência política mas fundamentalmente pela sobrevivência quase até ao seu final de mecanismos violentos de exploração do trabalho local . Sobrevivência que não está ligada a qualquer "maldade" nacional (o que é isso de "maldade"?) mas à própria estrutura económica portuguesa, incapaz de desenvolver mais rapidamente outras formas de incentivos à produtividade. Está isso narrado, contado, analisado (ainda que não em demasia). Basta ler, olhos abertos e despido de alguns preconceitos serôdios, anacrónicos.

 

Olhar para isso, saber isso, nada deveria ter a ver com as perspectivas políticas que se defendem para a sociedade de hoje. Saber o passado apenas. Saber mais sobre um Portugal ainda recente. E despirmo-nos dessa ganga de ignorância que de retemperadora nada tem.

 

Pois senão o coro de discursos sobre o regime colonial e sobre o seu evidente corolário, a descolonização, possibilitarão o reavivar de uma velha ideia tantas vezes apregoada: a de que a esquerda é mais "intelectual", "sábia" do que a direita. Ideia tão preconceituosa, irreal e anacrónica como as acima lamentadas.

 

Finalmente, e um pouco marginal a isto. Surpreende-me que um partido do governo, que o seu chefe parlamentar, usem a descolonização e a crítica radical aos regimes subsequentes como arma de política interna. Penso que foi Telmo Correia que disse quase isto "O dr. Mário Soares provocou e teve resposta apropriada". Isto é de uma ligeireza absoluta. Porque pode prejudicar as relações entre Estados - e portanto são atitudes desprovidas de Razão de Estado. Porque pode prejudicar os interesses portugueses e as comunidades aqui imigrantes. Se fossem discursos integrados numa opção governamental de ruptura ou esfriamento com estes regimes não seriam ligeiros e seriam até legítimos (ainda que passíveis de discussão). Mas não é esse o caso. Assim são atitudes de dirigentes políticos tornados apenas ruído nas relações. E portanto ligeiras. E ligeireza em política é incompetência.

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publicado às 18:48



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