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No Diário de Notícias um artigo de Vasco Graça Moura sobre a "política da língua" em resposta a entrevista de Carlos Reis ao Expresso.

(Artigos transcritos abaixo, que estas ligações com os jornais têm tendência a serem perecíveis. E para daqui a três ou quatro anos consultar - com o triste sorriso com que sempre se consultam declarações semelhantes de periodicidade cíclica?).

Sobre esta temática (ortografia, política linguística, coisas que nisto seguem juntas) já deixei aqui o que acho. E sobre a escatológica visão de Graça Moura também. A qual polui um pouco bons argumentos que apresenta.

Agora apenas me vai ficando o tal sorriso triste. Pois desta troca de argumentos pouco mais há a registar. Do seu conteúdo, dos seus efeitos. Talvez só algumas ideias meramente conjunturais:

a) Quanto aos efeitos: Vasco Graça Moura é do PSD e Carlos Reis andará na área do PS (presumo). É fácil ir ao technorati/google e ver como as opiniões portuguesas sobre o assunto imediatamente se cindem de acordo com essa "superestrutura" (oops!). Não é caso único, o par "direita/esquerda" é a melhor muleta para os impensadores teclarem, já se sabe.

b) Vasco Graça Moura é letal, mas em questão paralela: tem toda a razão, o Instituto Camões tem uma política da língua, aliás muito bem recenseada em Maputo pela sua presidente durante a recente visita do Presidente Cavaco Silva. Da sua validade não posso ajuizar, mas é surpreendente que a dois terços da legislatura algo brote como se de um nada anterior. Talvez apenas rivalidades institucionais ou protagonismos pessoais. Mas indiciando cabotagem estatal.

c) Carlos Reis anuncia passos numa nova política da língua, aparentemente refrescada ("lusofonia" é um termo em queda, vá lá). Mas mantem algumas ideias-quistos com tendência a degenerarem em metástases intelectuais. Afirmar em 2008 que as Escolas Portuguesas em Luanda e Maputo (concedo que Timor seja um caso particular e sorrio à evocação de Macau) são exemplos da política da disseminação do português é estar num registo completamente inverso a toda a retórica auto-justificativa que Reis e tantos outros intervenientes agitam.

Custa-me crer em efeitos positivos, estruturantes duradouros, de grandes planos delineados por quem não consegue compreender essas escolas como meras obras de regime, as quais traduzem uma visão lusocentrada e saudosista. Não se trata de negar a qualidade do seu funcionamento (a de Maputo trabalha bem, ao que consta). Trata-se de aceitar - e até citar como exemplo quase horizonte- a construção e financiamento (dispendioso) de escolas públicas em países onde o ensino (básico, secundário, médio e universitário) é feito em português. E onde é esse a língua oficial, efectivamente disseminada pelos Estados próprios, disseminação às quais estas escolas são radicalmente estranhas. [E não se diga que elas são um factor de cooperação, que o são apenas muito marginalmente - nem foi essa a sua causa histórica, local e nacional, não foi esse o seu desenho, não é esse o seu desempenho].

Valerá a pena expressar a surpresa quando tal é apontado como um exemplo a seguir? Não. Vale a pena referir que diante disto nenhum outro argumento auto-justificativo, no quadro retórico usado, se aguenta. Argumentação suicidária.

d) Informa ainda que Luís Figo regressa ao regaço maternal linguístico: depreendo que da próxima vez que a FIFA o escolher como "o melhor jogador do mundo" não discursará os seus agradecimentos em espanhol, como agora se diz (em tempos eu aprendi a dizer "castelhano" mas por lá devem ter feito um Acordo qualquer). Fantástico: Viva Figo (ele é fantástico, não tanto os intelectuais mergulhados no futebolês próprio dos políticos).

e) Finalmente, em tempos chegou a ser divertido, pelo seu vazio intelectual, ver os críticos de uma política da língua (e ortográfica) serem considerados saudosistas, imperialistas e outras coisas. Ainda para mais por alguns que tanto esgrimem o fado lusófono. Mas agora é só cansativo.

Entenda-se: os críticos desses críticos estão  absolutamente centrados nas dinâmicas portuguesas e nas suas necessidades ("não perder o comboio", "não perder o mercado do livro", "não perder ... a influência em África", "não perder etc e tal"). Não serão eles, apesar deles próprios, os verdadeiros lusitanófilos?

É disso sintomático, e uso-o como mero exemplo, que tenha chegado a estes artigos via Kontrastes. Num post onde Graça Moura é reduzido a "Vasquinho", qual uma nulidade argumentativa dado que não conhece "a abertura do governo brasileiro face aos países africanos", esse sim o problema, sistematicamente repetido por várias vozes. Por isso, por esse desconhecimento da presença brasileira em África, são as  opiniões de Graça Moura (e de outros) remetidos a um saudosismo quinhentista, expansionista, colonialista.

Mas a ninguém ocorre dizer que esta tralha preocupada com a influência brasileira em África, e portanto tão reformista do português, é não só lusocentrada como decalcada (saudosista?) das preocupações portuguesas com a influência "brasileira" em África (Angola e Moçambique, particularmente) nos séculos XVIII (2ª metade) e brasileira (XIX). Se aqueles são quinhentistas ou colonialistas que dizer destes outros? Oitocentistas? Negreiros?

Não serão eles mesmo, alguns até incapazes de se auto-perceberem, neste afã da influência do português e do português de Portugal (numa forma reformada ou não) os verdadeiros saudosistas? Estou completamente crente disso. Da sua auto-incompreensão (gauchiste, quase sempre). Do seu imperialismo espontâneo. E de uma enorme arrogância. Típica, também ela, do imperialista. Em particular quando frustrado. (Que isto de entre Minho e Timor não se escrever do mesmo modo custa. Até parece que não é o mesmo mundo ... o nosso mundo - mesmo que um pouco actualizado. Na continuidade.)

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VASCO GRAÇA MOURA "Luís Figo e a Política da Cultura"Diário de Notícias,9 de Julho de 2005"Este Governo não tem emenda. Continua agarrado às manifestações de fachada e a não se preocupar minimamente com o rigor e a correcção daquilo que faz ou anuncia que vai fazer.Uma das suas vítimas favoritas é a língua portuguesa. Tem-se visto abundantemente no que respeita ao Acordo Ortográfico. Mas agora, segundo o Expresso, o Conselho de Ministros prepara-se para adoptar esta semana uma resolução lançando "as bases de uma política da língua".Essa comovente iniciativa seria muito interessante se o Governo a tivesse feito preceder de um debate público convincente.Mas limita-se a tomar como base um estudo coordenado pelo meu amigo Carlos Reis, cuja competência nesta matéria é, não duvido, muito superior àquela de que ele tem dado provas no tocante ao Acordo Ortográfico, mas cuja credulidade me suscita as mais sérias reservas, uma vez que, entre outras coisas, atribui a Luís Figo um papel canónico na promoção da língua portuguesa em Espanha...

O certo é que ficaríamos todos bem mais sossegados se fosse conhecida a posição do Ministério da Educação, das universidades e de outras instituições e se tivesse havido uma discussão pública séria destas e de outras análises, bem como das linhas e dos critérios enunciados para as bases de uma política da língua.

Mas o Governo tem pressa. Vem aí a CPLP e ele quer ter alguma coisa para mostrar, com o picante de pretender agora lançar as bases de uma política da língua sem auscultação dos restantes países interessados... Não tem emenda, repito.

Todavia, há coisas que, mesmo sob a égide simpática de Luís Figo, são difíceis de perspectivar e até de engolir para alguns países da CPLP.

Poderá o Governo português assentar em que Angola e Moçambique não têm "um peso internacional considerável"?

E em que é preciso esperar que o tenham para a língua portuguesa se internacionalizar?

Com isto, aceitará o Governo português que o mundo inteiro, com Angola e Moçambique à frente, se lhe ria na cara?

O Governo português, tão encrençado em TGVs, afinal estará disposto a deixar agachadamente que o Brasil seja "a locomotiva fundamental do processo" e "o grande interlocutor no universo da língua portuguesa para África"? Para África?

Poderá o Governo português tomar medidas credíveis e oportunas de uma política da língua a partir do nenhum rigor, do espírito de demissão e da patente incorrecção política e cultural de pressupostos deste tipo?

E acaso terá sido prevista alguma política para a uniformização da terminologia gramatical, depois de tudo o que se passou com a TLEBS do lado de cá? Ou caminha-se irreversivelmente para uma dupla gramática pela mão dos mesmos que tanto se eriçam com as consoantes mudas?

O mais intrigante de tudo é que está a ser desenvolvida desde há anos uma política para a língua portuguesa no mundo. A presidente do Instituto Camões descreveu-a na FLAD em 5.11.2007 (Promoção da Língua Portuguesa no Mundo, relatório da reunião de trabalho, Fundação Luso-Americana, Novembro de 2007, pp. 43-56).

Aí se desenha um conjunto de linhas de acção concreta, a que provavelmente continua a faltar uma boa dotação orçamental, ligados a uma "óptica de trabalho sobre e com a língua portuguesa: língua da comunicação, do trabalho, da ciência, da cultura, do direito e da diplomacia", na perspectiva articulada de três vectores. Resumindo muitíssimo: 1) intra-fronteiras dos países CPLP e organizações internacionais e regionais em que o português é língua de trabalho, como o espaço ACP; 2) estratégias de promoção da língua, da cultura portuguesa e das culturas em língua portuguesa, por Portugal enquanto Estado membro da UE, fazendo valer esta "como língua de oito vozes culturais"; 3) promoção da língua e cultura portuguesas por Portugal em correlação com os seus próprios interesses sociopolíticos, apostando na promoção do ensino no Magrebe, na China e na Índia, nos países da Organização dos Estados Ibero-Americanos, nos EUA e no Canadá.

Então o Governo português vai atrever-se a mandar todo este trabalho para o lixo? Ó Luís Figo, vá lá, faça sinal a esta gente de que assim ainda perde de vez o campeonato."

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EXPRESSO,

5 de Julho de 2008

Luísa Meireles

Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta ao Expresso "Está na moda aprender português" "O coordenador do estudo sobre a Internacionalização da Língua Portuguesa defende política da língua consistente, continuada e em conjunto com todos os países de língua portuguesa."

O português está em expansão mas, para se lhe dar uma verdadeira internacionalização, é preciso mais do que boa vontade. É preciso uma política da língua consistente e continuada, que lhe atribua meios e concerte esforços. Para o filólogo Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, o acordo ortográfico também é fundamental para esta tarefa. Nesta entrevista, o professor catedrático em Coimbra, lança pistas e propostas, explica as diferenças com o Brasil e cita o exemplo de Espanha - com a qual advoga uma aliança estratégica - e conclui que esta é uma tarefa que tem de ser conjunta de todos os países de língua portuguesa. Ele foi o coordenador de um estudo sobre a Internacionalização da Língua Portuguesa, que está na base de uma resolução do Conselho de Ministros que, na próxima semana, deverá consagrar, pela primeira vez, uma política da língua.

Como se faz a internacionalização do português? De várias formas. Através do ensino do português como língua estrangeira. Internacionalizar é fazer do português uma língua oferecida em matéria de ensino a franceses, alemães, ou búlgaros, por exemplo, que não tenham com ela outra relação que não seja entenderem que ela é um idioma importante. Internacionaliza-se também nas escolas secundárias e universidades, fazendo dele uma língua que abre caminho a outros sectores de actividade - penso na economia. É fazer dela uma espécie de vanguarda de presença, que depois é completada por noutros elementos, a economia, os negócios, a ciência, a cultura. Internacionaliza-se também através de entidades, como por exemplo os centros de língua, que trabalham o seu ensino fora das universidades. Dou o exemplo dos centros de língua do Instituto Cervantes, de Espanha, que não estão vinculados as estruturas universitárias, mas estão na rua, ao alcance do cidadão comum.

Portugal tem alguma coisa parecida com isso? Não, o mais parecido mas limitado - embora de nível de excelência - são as escolas portuguesas em Luanda, Maputo, Macau e Timor. Internacionalizar-se uma língua fazendo dela um instrumento de referência cultural e económica, passa muito pelo desenvolvimento. Falamos muitas vezes com certa retórica triunfalista na dimensão demográfica do português, os famosos 200 a 230 milhões de falantes, mas não é bem assim. Esses falantes são em grande parte integrados por povos e países que infelizmente contam pouco no concerto internacional. Uma língua tem escassas possibilidades de se internacionalizar enquanto noutras instâncias que não a linguística (política, económica, científica) esses países não se afirmarem.

Esse é um factor muito notório do português, nomeadamente nos Estados Unidos? Apesar de ter uma presença muito antiga, o português ainda não conseguiu ser uma das 10 línguas "requisito de acesso às universidades", onde está por exemplo o coreano, que não tem a dimensão demográfica do português. Porquê? Porque a presença económica e social da Coreia nos EUA é considerável; está o hebraico, por razões também conhecidas. Por isso, não faz muito sentido falar da política de internacionalização da língua isolada do resto e não tenho pruridos em o dizer: enquanto Angola, sobretudo, e Moçambique, que são países com dimensão demográfica considerável, não ganharem um peso internacional considerável, será muito difícil que o português se internacionalize. O caso do Brasil é a evidência disto. Na medida em que ele está a ganhar uma grande presença e é um país mais poderoso economicamente e com menos desigualdades internas, o português começa a ser um língua com algum poder internacional. Esta é uma zona um pouco melindrosa para alguns, que têm dificuldade em reconhecer que Brasil é aqui uma locomotiva fundamental. Não temos que ter receio disso.

O papel do Brasil

Está a falar do acordo ortográfico? Não só. Em termos de melindres, essa foi a manifestação mais evidente e, em pessoas que estimo e cultas e responsáveis, foi mesmo penosa de se ver. Sobretudo o que estava em causa era um enorme preconceito em relação ao Brasil. Curiosamente, algumas dessas pessoas às vezes traduziam isso através de expressões brasileiras que já entraram lexicalmente no português. O português do Brasil tem algumas qualidades que o de Portugal não tem e já entrou no nosso falar desde que a televisão brasileira tem aqui uma presença forte. Há expressões que já nem as identificamos como brasileiras: quem hoje diz ir para a bicha? Diz-se 'para a fila'. Ou 'está tudo numa boa'.

Entraram por via da imigração e das telenovelas. Da televisão, sobretudo. Há aspectos do português do Brasil em que leva vantagem sobre nós. Um deles é a articulação: um filme português passado no Brasil precisa de ser legendado e um brasileiro em Portugal não. Tão simples como isto. Porque os portugueses tendem a obscurecer a língua do ponto de vista articulatório, fonológico, de pronúncia. Engolem as palavras. O português do Brasil valoriza mais as vogais, os fonemas vocálicos, o que é uma vantagem para o bom entendimento. Temos de fazer um esforço de recuperar coisas que se perderam e isso só pode ser feito na escola, lendo expressivamente, obrigando a pronunciar bem as palavras todas. Mas a importância do Brasil neste cenário é evidente desde algum tempo. O Brasil apercebeu-se que a língua é um instrumento estratégico muito importante e o seu anúncio de criação de uma universidade para os países da CPLP no Nordeste não é inocente nem destituída de sentido político.

É curioso que seja no Nordeste? Entende-se que uma universidade deste tipo é um factor de desenvolvimento de uma região pouco desenvolvida, e também porque no Nordeste há uma forte presença africana. Portanto, é como quem diz: 'nós somos a ligação para África'. Com esta iniciativa, o Brasil está a dizer que o grande interlocutor no universo da língua portuguesa para África é ele. Está no seu direito e porventura tem boas razões para isso, económicas, sociológicas, devido à imigração desde os tempos da escravatura. Isto significa o despertar do Brasil de uma forma muito vigorosa para a causa da língua portuguesa como instrumento estratégico.

Foi acordado com Portugal? Não creio, foi anunciado pela primeira vez pelo ministo dos Negócios Estrangeiros Celso Amorim na Guiné-Bissau, em Abril. Não é inocente o lugar do anúncio.

O Brasil tornou-se um 'concorrente? É uma questão que tem de ser desdramatizada. A verdade é que a internacionalização da língua portuguesa também passa pela música brasileira, a moda, o futebol, a economia, muitas outras presenças que significam uma presença derivadamente linguística e que são uma outra forma de fazer política de língua. Convém não esquecer o papel do Brasil na América Latina em matéria de difusão da língua, nomeadamente entre os países limítrofes, como o Uruguai, ou a Argentina.

O acordo ortográfico é indispensável

E o acordo ortográfico? Foi excessivamente dramatizado em Portugal. O acordo é um instrumento ao lado de outros, que vale o que vale, não vai descaracterizar a língua, como se diz, mas vai significar alianças estratégicas, concentração de esforços.

Mas é fundamental para fazer a política de internacionalização do português? É muito importante, e sem ele temos sempre uma fragilidade, vista do exterior, que é o facto de termos duas normas ortográficas oficiais. O que não acontece com o espanhol ou o inglês, que têm apenas variantes ortográficas.

O que nos conduziu a isso? Muitas razões, entre quais a dimensão. Espanha: que aconteceu na América do Sul no principio do século XIX para cá? O domínio espanhol fragmentou-se numa série de repúblicas relativamente pequenas, ao passo que a presença colonial portuguesa deu lugar a um grande país. Ainda por cima, as respectivas metrópoles eram assimétricas, Espanha é quatro ou cinco vezes maior que Portugal. Espanha continua a ter um grande ascendente em todos os aspectos, a começar pelo económico, sobre as suas antigas colónias, Portugal não. Mais, Espanha soube ter ao longo dos séculos instrumentos reguladores que funcionam difusamente como instrumentos de política da língua. Já para não falar do mais antigo deles, a Real Academia de Ciências, e dos instrumentos normativos que ela produz, como o dicionário, que é respeitadíssimo entre o mundo que fala espanhol.

As pessoas resistem a reconhecer que no domínio em que se trabalha a língua, a lexicografia, o domínio dos dicionários, o Brasil tem uma história incomparavelmente mais rica do que a nossa. O dicionário da nossa Academia só apareceu há meia dúzia de anos, sendo que o antigo, o do século XVIII, só se publicou um volume e nunca se completou. Era o volume referente à letra A, que terminava na palavra azurrar. Acabou por ser objecto de tantas críticas - dizia-se que o dicionário tinha ficado 'a zurrar', que numa edição seguinte teve de inventar-se uma palavra, azuverte. Em Espanha, existe uma ligação muito estreita entre a Real Academia e as suas congéneres sul-americanas, com muitas acções conjuntas. Isto dá um grande poder unificador ao espanhol, que apenas conhece variantes ortográficas, que estão dicionarizadas. Neste aspecto as nossas fragilidades são grandes e o acordo ortográfico é indispensável do ponto de vista de política de língua, por muitas reservas que se coloquem e eu próprio coloco algumas de ordem técnica.

Uma aliança com Espanha

Defende as alianças estratégicas. Está a pensar em Espanha? Penso sobretudo no domínio universitário, nos departamentos em que se ensina português e espanhol e nas mais valias que se podem retirar de presença conjunta, dada a relativa afinidade dos dois idiomas. Isto é, é possível mostrar aos estrangeiros que quem aprende português, com alguma facilidade aprende também o espanhol e vice-versa. É muito prático. E porque não recorrer a economias de escala, alianças concretas que têm a ver com recursos, espaços, administrativos? E que poderiam permitir aprender alguma coisa do que se faz no Instituto Cervantes.

Porquê? Dou um exemplo. O presidente do patronato do Cervantes são os reis de Espanha e dele faz parte também o primeiro-ministro. Todos os anos, a abertura solene é presidida pelos reis. Onde vemos isto aqui? O Prémio Cervantes tem uma repercussão considerável no mundo da língua espanhola, mas o nosso Prémio Camões só sai no rodapé das televisões e, no Brasil, é praticamente ignorado. Não há uma intervenção simbólica ao nível da mais alta magistratura da nação ou do Governo, que sublinhe a importância agregadora do Prémio, porque é essa a importância que ele tem. É preciso fazer sobre isto um trabalho político consciente, empenhado, com imaginação.

Os falhanços da política

Faltou-nos sempre uma política da língua? Sim, e com continuidade. Há que encontrar almofadas de protecção que protejam as políticas da língua das mudanças de Governo e até de ministro! Para não se começar tudo de princípio de cada vez que muda o Governo. Porque se a política de língua é reconhecida como um desígnio nacional, não pode estar sujeita às oscilações e humores dos ministros.

Mas ainda não é reconhecida como tal... Pode ser dita como tal, mas não há acções concretas que a reconheçam. Há lacunas e falhanços, a começar pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, no âmbito da CPLP, por boas ou más razões. Estas questões são sempre um pouco melindrosas, mas não sei se não teria sido necessário escolher para sede daquele instituto, com todo o respeito por Cabo Verde, uma visibilidade mais efectiva, uma capacidade de intervenção, e até no plano doutrinário, mais efectiva.

Está a falar de um outro país? Porventura.

Portugal, Brasil? Porventura. É claro que isto tem melindres de outra natureza, mas temos de decidir se queremos fazer uma política da língua a sério, ou não.

A tarefa é de todos

Portugal consegue fazer uma política da língua sozinho? Não, de todo. Se Portugal não trabalhar para trazer para esta causa os outros países, está condenada ao fracasso.

Tirando o Brasil, os outros países estão interessados? Nem o acordo ortográfico foi adoptado por todos... Mas vai ser, há manifestações claras nesse sentido. Isso é outra coisa. Voltemos um pouco atrás, comparando com o caso espanhol, por exemplo. Quando é que se deu a descolonização de Espanha? 1898. No fim do século XIX, a Espanha, bem ou mal, tinha resolvido o seu problema colonial. Nós vivemos uma descolonização tardia e é natural que países como a Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Angola - que esteve em guerra durante mais de 40 anos - só agora comecem a dispor de instrumentos de intervenção no domínio da língua que demoram décadas a construir: universidades, academias, centros de pesquisa, académicos qualificados. É natural que seja assim. Têm outras prioridades e outras limitações, muitas das quais foram deixadas por nós, de resto.

Têm outras prioridades mas, agora, que despertam para o assunto, colocam problemas, nomeadamente quanto às ortografias, não? Há essa questão. Pode dizer-se, de forma redutora, que nós em escrevíamos respeitando mais a etimologia das palavras, enquanto no Brasil se foi derivando para a forma como as palavras são ditas. É evidente que nos países africanos há injunções locais, cenários dialectais e linguísticos muitíssimo complexos, que podem levar a esses problemas de 'singularidades'. Mas eu lembro a opção clara de um grande líder africano, Amílcar Cabral, que fez da língua portuguesa a língua oficial, reconhecendo que, sendo o português a língua do colonizador, não era necessariamente uma língua colonizadora. Era um factor de unificação nacional, como aconteceu no Brasil e acontece em Moçambique e Angola, que sendo países muito grandes e de cenários complexos, o português funciona como língua veicular, permitindo que as pessoas se entendam. Nesses países, o português como língua materna subiu muito nos últimos 20-30 anos. Quando se esperava que ia desaparecer, confirmou-se a tese de Amílcar Cabral.

E quanto à política da língua? Há uma contradição que tem de se saber resolver. Por um lado, diz-se que queremos uma comunidade muito alargada, chamada lusófona (um termo que embirro pela sua excessiva ligação à matriz portuguesa), que seja unificada por um idioma comum, falado por 200 ou 230 milhões de falantes. Mas, por outro lado, queremos valorizar as singularidades locais, a criatividade lexical e a riqueza linguística local. Mas a notícia, boa ou má, é que não podemos ter tudo. Se queremos um universo linguístico sólido, consistente e coeso, que não temos por agora, então temos de reconhecer essa qualidade ao português.

Mas pode haver um problema político com as elites de afirmação nacional... Sim, e levar à paralisia e à fragmentação do português. Se é isso que se quer, muito bem, mas que se saiba o que se está a fazer. E tenhamos a noção que podemos chegar a uma situação tão estranha e contraditória como a que se passa hoje com Espanha. O espanhol é uma língua em expansão em todo o mundo menos na Espanha, porque tem a pressão dos idiomas nacionais. Por enquanto ainda vive bem com isso e viverá certamente, devido à sua larga presença internacional. Mas o português pode permitir-se isso? Os africanos têm a noção muito clara porque há hoje gente politicamente muito preparada nos países de língua oficial portuguesa de que seria muito mau para Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé ou Cabo Verde hostilizarem o português. Eles sabem isso.

É hoje claro que o poder internacional de uma língua tem muito que ver com o lugar que essa língua ocupa nos EUA"

Foram eles que fizeram o grande esforço do ensino do português nos seus países Absolutamente. E fizeram-no porque tiveram essa consciência. O impulso português e o despertar brasileiro

Porque o actual impulso de internacionalizar o português? Sem pruridos de correcção política, porque Portugal apercebeu-se que o Brasil tinha acordado para esta questão. É a minha explicação mais politicamente pragmática. Há outras razões, a beleza e riqueza da língua, as comunidades, o valor económico da língua, mas acho que há uma pressão do lado do Brasil e Portugal apercebeu-se.

A iniciativa brasileira da Universidade é vista com reticências? Infelizmente e por diversas razões, nunca foi possível levar por diante no âmbito das universidades de língua portuguesa uma iniciativa desse natureza, uma universidade internacional de plataforma e consórcio entre grandes universidades. Chamava-se universidade virtual da língua portuguesa, porque funcionaria sobretudo através das tecnologias do ensino à distância. Há mais de 10 anos que se fala nisso, chegou a haver um esboço de projecto feito no Brasil, tivemos uma intervenção, mas nunca houve vontade através de política universitária de fazer isso a sério.

Porque Portugal não se entende com o Brasil para isto? Não sei se é difícil, é preciso olhar para o Brasil como ele é. Uma das coisas que mais prejudica a nossa relação com o Brasil é a persistência de certos estereótipos. Um pouco como se para muitos portugueses o Brasil fosse um país óptimo para passar férias, importar jogadores de futebol e ver escolas de samba e, por outro lado, se ignorasse ou não se quisesse reconhecer coisas como estas: que em qualquer "ranking" de universidades mundiais, a primeira universidade de língua portuguesa que surge é a Universidade de S. Paulo e a segunda é a de Campinas. E a primeira portuguesa que aparece está muito distante destas - era a Universidade Técnica de Lisboa, no "ranking" que consultei. É preciso reconhecer isto sem dramatismos. É uma questão de dimensão. Tal como o é o facto do Brasil fabricar e exportar aviões para os Estados Unidos, ou que é auto-suficiente em matéria de petróleo.

Casos de sucesso: China, Africa, Espanha

O português está em expansão em África e na Ásia? Há na África austral uma procura considerável e não temos tido capacidade de resposta para acudir a toda essa procura. E está também na Ásia, na China, por razões de natureza económica, em particular. Na China e não tanto em Macau, onde está em forte regressão. São zonas muito interessantes, tal como Espanha.

Na China porquê? Razões de carácter instrumental, em grande parte. Os chineses sabem que é importante falar português para fazer bons negócios em África. De resto, também a presença chinesa em África é uma curva ascendente impressionante. Mas o ensino de português na China é feito sobretudo por brasileiros, não temos capacidade de resposta. O que é extraordinário num país em que existem centenas e centenas de professores de português no desemprego.

E para que isso se faça falta o quê? Um acordo com chineses? Meios? Não sei se Portugal tem ou não dinheiro para sustentar professores na China, mas sei que é uma questão de opção política e que, se pomos dinheiro numas coisas, não há para as outras. A realidade é esta: há muitos professores de português no desemprego e não somos capazes de responder à procura. Se calhar, haveria alguns capazes dessa aventura.

E em África o português está em expansão porquê? Pela presença de portugueses que viviam em Angola e sobretudo Moçambique e que derivaram para países da Africa Austral por causa da descolonização. E, em parte, porque o sul da África está enquadrado por dois grandes países de língua portuguesa, Moçambique e Angola. O trabalho que lá se está a fazer a nível de coordenação de português é notável, às vezes em cenários difíceis e mesmo hostis. O que nos foi dito é que maior fosse a nossa oferta, a procura está lá, à nossa espera, na Africa do Sul, na Namíbia. O que me leva a dizer outra coisa: em matéria de politica de língua para o estrangeiro não há só uma, há várias políticas, de acordo com os cenários, presenças, instrumentos que se convocam. A noção de política de língua é abrangente mas tem de ser desmontada, porque é uma na África Austral e outra em Espanha, e outra ainda nos EUA. É preciso ter em conta as contingências de cada cenário e também descentralizar um pouco o Instituto Camões.

Descentralizar o Instituto Camões? Quero dizer que aquilo que tem de se decidir na Africa Austral, não tem necessariamente de vir a Lisboa, por exemplo. É um assunto para se ver com cautelas, mas talvez fosse de pensar em descentralizar um pouco a política de língua, tendo em conta os cenários locais. Não quero dizer criar um Instituto em Nova Iorque e outro em Pequim, mas há que encontrar estruturas de desconcentração que tivessem alguma autonomia para decidir "in loco".

Espanha é outro caso de expansão? Por razões que têm a ver com a presença económica em Portugal. É nítido nas regiões transfronteiriças, onde há uma subida em flecha de alunos espanhóis  a estudar português. Há um refrescamento da imagem de Portugal na Espanha. A presença de Luis Figo é extremamente importante para a refiguração do imaginário de Portugal e produz os seus frutos. É preciso saber tirar partido disso. Se se pensasse em criar mais escolas portuguesas, Madrid deveria ser uma séria candidata. Há portugueses em Espanha que o justificam e há interesse em Espanha numa escola com qualidade. O mesmo se diga de outros dois locais também importantes, política e simbolicamente: Paris e S. Paulo.

O poder americano

E nos EUA, como se dá o salto para que o português 'mude de estatuto' Nos EUA é muito complicado, fez-se um trabalho de diligência politica, gastou-se muito dinheiro em trabalho de lobi, mas não se pode desistir. Depende muito das comunidades, mas às vezes também tem de se desligar o imaginário da língua do das comunidades. Se estas estão muito associadas a uma imigração pobre, não é bom para a difusão da língua e a sua afirmação internacional. O que as comunidades podem fazer é por os seus homens políticos a trabalhar para isso, e já há exemplos nos Estados Unidos. É hoje claro que o poder internacional de uma língua tem muito que ver com o lugar que essa língua ocupa nos EUA. Se ocupa um lugar de destaque lá, é um excelente cartão de visita, senão é mais complicado. O caso extraordinário de sucesso do espanhol deve-se muito a isso, embora não se excluam as razões de imigração mexicana e sul-americana, como é óbvio.

Em que se traduz o valor estratégico de uma língua? Em muitas coisas. Negócios - uma língua e uma cultura podem abrir caminhos à economia, tornar o país conhecido, dar boa imagem, divulgar o que lá se faz e isso é um valor estratégico importante. Uma língua também ajuda a valorizar socialmente as comunidades que vivem no estrangeiro. Se conseguir impor-se na Internet, se produzir software educativo - é por aí que passa relação com o mundo - e já agora, olhando para dentro, se for bem ensinada no próprio país, se os seus cidadãos a falarem bem, se a pronunciarem bem. Não podemos falar apenas no valor estratégico e numa política de língua no estrangeiro, se não tivermos uma boa política da língua em Portugal.

É possível fazer-se essa política sem a cultura? É missão impossível e absurda ensinar uma língua esvaziada de cultura. Portanto, tem de ser encontradas articulações interministeriais. É uma prioridade estratégica dita neste relatório, a concertação de esforços. Retomo uma ideia antiga de criar uma entidade que regesse a política de língua, e que devia ser supra-ministerial, porventura dependente do primeiro-ministro. Valorizaria politicamente a entidade e talvez ajudasse a resolver problemas das fracturas de quem intervém em quê

Quais são as conclusões principais do seu estudo? Primeiro que tudo, há que dar continuidade a uma política de língua. Não se espere que um ministro crie um instituto e nomeie um presidente e daí a três anos dê frutos. Uma década é pouco. Segundo: é preciso ter em conta as boas práticas dos outros países e fazer análise comparativa mais afinada. Terceiro: atenção às condições locais. A política da língua não é única, nem rígida, nem igual para todos e para toda a parte. Quarto: apostar nos recursos humanos, formar professores para ensinar no estrangeiro, que é diferente do ensinar em Portugal - uma banalidade mas por vezes é preciso afirmar o óbvio. Quinto: as alianças, convocar outros esforços e outros países. A acção diplomática é fundamental para mostrar a Moçambique, Angola, Brasil que, no fundo, esta causa comum é de todos e todos beneficiamos dela. E, finalmente, é preciso esperar que a árvore cresça.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 5 de Julho de 2008, 1.º Caderno, página 20. 

publicado às 22:47


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