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Cartas de Guerra, de Lobo Antunes

por jpt, em 18.10.08

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Já antiga prenda de bela amiga só agora leio "D'este viver aqui neste papel descripto", as cartas de guerra de António Lobo Antunes à sua mulher Maria José (D. Quixote, 2005).

Livro especial, na altura da sua edição nos jornais muito se louvou a escrita de Lobo Antunes, a transcrição da intensidade do seu amor, o seu sentir da guerra. Ora o que leio (vou a meio do livro) é algo diverso. Se Lobo Antunes é um escritor extraordinário não é o nestas cartas - nem tinha que o ser, são cartas para a sua mulher, nunca pensadas como objecto literário. E se muito amava a sua mulher (a qual surge como de uma Beleza perturbante) não seria isso relativamente generalizado nos seus camaradas de armas? Amará mais um escritor do que um amanuense? E não serão a guerra e a sua solidão extrema dinamizadores do sentimento do amor? Ele escreveu esse amor e outros não, a diferença. Que justifica juntarmo-nos à volta destas palavras, não precisando para isso de outros sublinhados.

Nessas cartas surpreendem duas coisas: por um lado a narrativa da guerra, nada (aparentemente) escondido, um nunca capear os perigos e os medos - um pacto entre o casal? Mas acima de tudo surpreende o homem, a ingenuidade que transparece nos seus 28 anos, até a estreiteza do interesse sobre o que o rodeia, homem do seu espaço e do seu tempo, um tempo onde se podia escrever "as hóstias sabem a papel almaço". É isso que espanta pois, por mais céptico que se vá ficando, ao ler um Escritor como este, imenso, imagina-se o homem como quasi-omnisciente, homem imenso também, uma inata apreensão do circundante. Mas não, mero homem que amadurece(rá). Esse, para mim, o interesse do livro. Extremo.

Tudo se poderá resumir assim. O médico militar vai a uma povoação (7.3.71, pp. 80-82) e "Hoje, domingo, passei a manhã numa cerimónia curiosa, a assistir à esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela. Como sou uma personagem de marca sentaram-me na única cadeira existente, dando a direita ao soba. Depois 3 homens tocavam tambor, a doente foi sentada numa esteira, e a malta dançava e cantava em volta uma melopeia estranhíssima. Estava um calor como não me lembro de ter sentido na minha vida, não havia uma única nuvem no céu e tudo brilhava e reluzia. Assisti à cerimónia por acaso, porque andava à procura de cachimbos e pentes. Aquelas coisas de madeira em que se faz o pirão, uma espécie de almofariz assim, mais ou menos trabalhado, ficava estupendo em nossa casa como cesto de papéis ou outra coisa qualquer. Há-os muito bonitos, mas são bastante pesados. Estou a pensar mandar fazer um baú para levar os objectos que por aqui vou juntando, e que nunca vi em parte nenhuma em Lisboa. Os bibelots ficam por minha conta. A fim de escolher só coisas que valem realmente a pena tenho passado o meu tempo livre a esquadrinhar os quimbos. Hoje, por exemplo, vi um cachimbo giríssimo mas não mo quiseram vender, apesar de eu oferecer a exorbitante quantia de 10$00. Tenho a impressão de que a tia Hiette, por exemplo, perderia a cabeça por estas paragens. Espero que não te horrorizes quando me vires chegar cheio de coisas para as quais, talvez, pelo número, não tenhamos lugar em casa. Vamos a ver se levo algumas em Outubro, quando aí for. E o mais incrível é que no meio disto tudo ainda só gastei 20$00!"

Não é crítica minha. É até comovente ver um (ainda) jovem recém-casado a escrever à mulher grávida, as minudências da decoração do lar, uma verdadeira bricolage para manter o registo de casal (quotidiano, como as cartas o tendem a ser). Mas ao mesmo tempo ao ler isto espanto-me, o Lobo Antunes, futuro médico psiquiatra (ainda que não lhe fosse a vocação, há-de resmungar durante anos) passa, forçado e distraidamente por uma exorcização, e segue descrevendo com minúcia o bric-a-brac? Coisas desse tempo, ileituras desinteressadas desse tempo, o hiato entre-homens de séculos, de então. E se até o Lobo Antunes assim pairava, como seriam, como seguiriam todos os outros?

Depois, enquanto vou passando as páginas e decido voltar atrás para sublinhar, percebo que o tempo não passa. Não andam hoje esses profissionais produtores de exótico às voltas, maravilhados, com as "medicinas tradicionais", não são eles os nativistas do "conhecimento autóctone" os distraídos consumidores deste bric-a-brac d'agora? Completamente. E com o (gigantesco) senão de não serem Lobo Antunes ...

publicado às 13:26


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