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Apoiar o Benfica?

por jpt, em 16.05.13

 

No sábado vibrei com o golo de Kelvin, aquele com que, já no fim do jogo, o Porto derrotou o Benfica, assim quase quase roubando o campeonato que parecia decidido. Parei o carro, saí, entrei no restaurante mais próximo ("Cristal", na 24 de Julho), ainda vi a repetição do golo, ri-me de alguns conhecidos benfiquistas ali, tão desamparados estavam, troquei sorrisos cúmplices com amigos sportinguistas, ali algo seráficos mas contentes. Bebi uma cerveja.

 

Ontem, durante o dia da final da Liga Europa, gozei alguns amigos e conhecidos benfiquistas, anunciei "sou do Chelsea desde a mais tenra infância" (e era, ontem). Recebi alguns sms de benfiquistas provocatórios "Carrega Benfica", "A taça é nossa". A todos respondi "vão perder nos descontos". Não vi o jogo, fui dormir cedo. Hoje na alvorada leio que sim, perderam mesmo no fim, sorrio, contente, e em particular com a crueldade (bi-crueldade) do acontecido. Até lamento não ter visto em directo.

 

Ao longo dos últimos dias tenho lido várias declarações (até de sportinguistas) invectivando esta linha de sentimento, "anti-benfiquista" dizem. Nos jogos internacionais há sempre uns patriotas patrioteiros que vêm reclamar o supremo "bem da nação", como se um jogo de futebol fosse a batalha de Navas de Tolosa, um clube de futebol seja D. Afonso Henriques sonhando Cristo antes da batalha de Ourique e o jornal "A Bola" os "Lusíadas" em versão digital. Uma colecção de tontos a perorarem. Falando sério, uma colecção de gente desnorteada quanto aos seus valores.

 

Bill Shankly, mítico treinador que comandou o Liverpool durante 15 anos, disse algo que se tornou referência: "Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Eu posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante.". É certo que haverá alguns malucos (holigões) que poderão ler isto literalmente (há gente para tudo). Mas o que está explícito aqui é que o futebol (e o clubismo) é outra coisa, não é liminar. Identidades opcionais, paixões cultivadas, formas de nos entrecruzar, de festejarmos, de cutucarmos, fazendo-nos juntos de modos não lineares.

 

E por isso surge a "rivalidade". Não somos adversários nem inimigos. Somos "rivais", vizinhos, queremos as mesmas coisas (as taças), que são super-importantes, aliás, são "muito, muito mais importantes do que a vida e a morte" (lá está, como disse Shankly), mas que, bem lá no fundo, não têm importância real.

 

Ontem ao fim da tarde bebi uma cerveja com dois amigos, ambos oriundos da Póvoa do Varzim. Benfiquistas, mas da Póvoa. Estava eu no meu chelseanismo militante, claro. E eles contaram-me da rivalidade lá da terra deles, entre o Varzim e o Rio Ave, clubes e terras vizinhas, limítrofes. Quando um dos clubes descia de divisão os adeptos do outro faziam-lhe, teatralmente, o funeral. Gozavam, até ao tutano, os adeptos rivais. Passado algum tempo seriam eles os gozados. É isso a rivalidade.

 

A gente, na antropologia, tem coisas escritas sobre o assunto, há já muito tempo. Chamamos-lhes "relações jocosas" ou "relações de gracejo" ["joking relationship" na wikipedia"]. Existem em inúmeros contextos, sob variadíssimas formas, mais ou menos institucionalizadas. São formas, só aparentemente paradoxais, de nos dizermos unos, comuns. "Rivais". Por isso mesmo a minha (verdadeira) alegria - pese embora o estado desgraçado do meu "grupo", Sporting, sobre o qual tanto tenho escrito in-blog no último ano, e mais ainda falado - com as derrotas do Benfica, do malvado Benfica, o gozo que me dá todo aquele sofrimento. Estamos "nós" mal? Sim. Mas que piada têm aqueles golos sofridos nos últimos minutos, estas dolorosíssimas derrotas, seguidas ainda para mais, do acabrunhamento em que "eles" agora vegetam. Que grande espectáculo. Que maravilha. ("E o Jesus ajoelhado no Dragão?, viram?").

 

Hoje mesmo enviarei cruéis mensagens aos amados familiares benfiquistas, aos meus queridos amigos (parentes espirituais), gozarei de viva voz com os vizinhos (concidadãos, nesta cidadania global da bola) adeptos da galinhola depenada. Porque a bola é para isto. O jogo deve ser limpo, leal (por isso a minha irritação com as aldrabices e com os adeptos da vitória a todo o custo, a toda a roubalheira). Para que o gozo seja limpo, leal. "Doloroso" para quem o sofre. Recíproco, para quando vier.

 

Quanto aos "éticos", os das grandes proclamações patrióticas, de lisura, da solidariedade? "Arranjem uma vida", como dizem os anglófonos. Ou, mais explicitamente, arranjem valores. Ou, melhor, compreendam valores.

publicado às 04:24


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