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Uma década de ma-schamba

por jpt, em 03.12.13

(Fotografia do MVF)

 

Hoje, 3 de Dezembro, o ma-schamba faz dez anos. A ver se o colectivo, meio em pousio meio em pós-bloguismo, se juntará para um simpósio lisboeta na próxima época natalícia, no qual se comemore esta vetustez. Que o convívio ("estamos juntos") é o que mais conta.

 

Durante anos bloguei-o sozinho, depois acompanhado. Já me foi vício, já foi rotina. Já não é assim, mas ainda me é identitário, aquilo do jpt bloguista. Nisto correu uma década de verborreia, agora cada vez mais escassa. Neste longo tempo muita coisa mudou na internet e assim no in-blog. Mudaram, e muito, os visitantes. E surgiram outros meios de publicação (e de reprodução/"partilha") individual, muito mais interactivos e rápidos no manuseamento. Mas também de acesso a informação, sua recolecção e colecção. De facto, hoje, tendo contas de academia.edu, de instapaper, de pinterest, de vimeo, de goodreads, de paper.li, de youtube, de facebook, de twitter, do imdb e do flixster e do deezer, e sei lá mais de quê, os blogs parecem-me uma plataforma flinstoniana. Esses outros meios não são só lestos e fáceis de utilizar, como se mera vantagem tecnológica, até a desvalorizar. São mesmo preciosos. E não implicam, como se o obrigando, o abandono da leitura, o domínio da incessante partilha de slogans ou pobres imagens (o "memeísmo") , um mundo de superficialidade, como resmungam(os) alguns velhos bloguistas - talvez muito impressionados por aquele fenómeno do facebooking histriónico, o qual, já agora, também me parece em regressão.

 

Bem pelo contrário, são divertidíssimos (qualquer antigo coleccionador de cromos se delicia com o pinterest; um amante de livros mergulha no clube goodreads; os melómanos têm suportes espectaculares para se alimentarem; os imdb e flixster servirão os mais cinéfilos ou televisófilos). E são utilíssimos: o paper.li dá a cada um o seu jornal, sem perda de tempo ou subserviência aos publicitários e aos mandarins; os facebook e twitter acompanham as urgências (as catástrofes, as agitações políticas, os eventos desportivos) e os veros amigos distantes. E, também profissionalmente, o youtube e o vimeo são um manancial de palestras e documentários, o academia.edu uma excelente e vibrante biblioteca em rede, e também uma plataforma de publicação extremamente democrática. Para além do instapaper, que leva o troféu entre esta parafernália, pois é um magnífico mecanismo de leitura .

 

Com tudo isto é evidente que o (meu) bloguismo fenece. Mas não será só o meu. Nos dois contextos blogais que acompanhei a evolução foi diversa: em Moçambique a breve era blogal implicou uma mudança na palavra pública, que se tornou mais descomprometida, liberta, quebrando os monopólios editoriais e os hábitos (e temores) da auto-contenção. E também pontapeando as retóricas acacianas, que em finais de XX encontrei ainda acampadas nos jornais locais. Nos últimos anos quase tudo isso transitou, e cresceu, para um agitadíssimo facebuquismo nacional, feito verdadeiro rossio de discussão pública. Em Portugal a multiplicidade blogal foi muito maior, por óbvias razões socioeconómicas, mas os seus efeitos parecem-me ter sido menores, pois existente numa sociedade mais aberta. Ali, com o passar dos anos e a migração de muitos para outras diversões (e de alguns para a comunicação social) o tom blogal foi-se enquadrando, acinzentando por um lado, sujeitando-se por outro. Nisso tudo os blogs perderam fulgor e principalmente foi desaparecendo o tom de tertúlia, algo que muito me agradava. E também se desvaneceu aquilo que mais me atraía, o tom "punk" da escrita e da sua afixação: esse acabou, em parte também devido à ideia (e ao desejo) de qu'isto é uma sequela dos órgãos de comunicação social (não é, ponto final parágrafo).

 

Da minha década aqui fiz três colecções, daquilo que mais me interessou: a ma-schamba, que é a mais parecida com o blog, variada, sem rumo nem agenda; a Ao Balcão da Cantina e a A Oeste do Canal, com textos mais associáveis pois dedicados a Moçambique. E arrumei-as na minha conta na rede Academia (para quem as quiser ver; para a minha filha num dia futuro, se tiver paciência). Mas ainda acho piada a isto de blogar, qual catarse do fel, o apreço à escrita descuidada, Amadora, (quase) irresponsável. E assim a gente (mais eu e o camarada MVF nestes tempos) vamos aguentando as courelas.

 

Nostálgico (mas não saudosista) deixo uma memória de como se blogava há alguns anos, os "bons velhos tempos" como sempre dizem os velhos:

 

 

publicado às 00:00


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