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Homossexuais e Adopção 1

por jpt, em 19.02.04

O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa, Luís Villas-Boas considera "o carinho transmitido por homossexuais ... um carinho falso. Não é carinho organizado, estruturante - gostam deles próprios através da criança".

 

Concorde-se ou não com o direito dos homossexuais à adopção, este tipo de afirmação é complicado e grave. Villas-Boas faz uma imputação de intenções "um carinho falso...gostam deles próprios através da criança". Das práticas sexuais dos indivíduos retira-lhes uma inferioridade. Sentimental (porque incapazes de carinho) e/ou ética (porque puros egoístas). É uma afirmação discriminatória? É-o. Mas de discriminações está o mundo cheio. Neste caso o que me choca fundamentalmente é o seu cúmulo, a sua justificação, a tal imputação de intenções egoísticas aos indivíduos homossexuais. Baseado em que argumentos? Em que realidade?

 

Criticável no cidadão? Sim, apesar de me irritar o "politicamente correcto". Mas inadmissível em quem ocupa um lugar de nomeação na administração pública. E aí estou com os tempos que correm. Rua ...

 

E rua até porque imbecil. Pois desloca a discussão para factores individuais. Quando esta é uma discussão sobre a organização social, sobre a família, o modelo familiar. Que não pode debater-se no plano individual, mas sim no domínio dos modelos colectivos. Que modelos colectivos desejamos. Porque comportamentos individuais (carinho ou não, amor ou não, egoísmo ou não, etcs e não etcs) não os podemos deduzir, tamanha a sua multiplicidade: entre as pessoas e intra-pessoas.

 

E esta questão também não pode ser legitimada, como o querem em sentido contrário, só pelo facto de existir. "Dizer" que "no presente já existem dezenas de crianças criadas por casais homossexuais, a situação já existe" não implica a sua aceitação. Uma modalidade de organização não é legítima e desejável apenas porque é real. Isto é uma afirmação tão redutora como as acima abordadas. E tão imbecil.

 

Ao leitor que ainda aqui está esclareço. Sou contra o direito dos homossexuais adoptarem. Ainda que confesse alguma oscilação interna. Então e se os pais das crianças forem homossexuais? Retirar-lhas? Eu não...era o que faltava. Que ideia mais absurda.

 

Mais uma vez. Esta é uma discussão sobre modelos colectivos de organização, sobre opções realizadas e/ou a realizar colectivamente. Não é uma discussão sobre as qualidades e defeitos do senhor a, da senhora b.

 

É um pouco como o aborto [que aqui surge porque também estruturante das modalidades de reprodução]. Sou radicalmente contra (excepto nos tais casos, de violação, de más-formações, de perigo para a mãe). E não me venham com o "direito ao meu corpo" porque se é assim então não me venham depois pedir dos meus impostos para a operaçãozinha ou para os medicamentos (e já nem falo do subsídio de funeral, aí será um caso de saúde pública). Pois então, e já que o corpo é seu, desenrasque-se...[pareço ultra-liberal? Não sou. Medicina pública, sff]

 

Um dia, há anos, uma jovem familiar minha, já adulta, engravidou. Lá fui ter com ela, a fazer de voz avisada. Primeira pergunta minha: "então porque raio engravidaste?". Segunda pergunta: "precisas de dinheiro para abortar?".

 

Dogmas? Isso são puras caganças. Opiniões? Claro. Carregadas dos meus conceitos. E dos meus preconceitos.

 

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publicado às 19:19


1 comentário

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De No Index dos Homofóbicos | ma-schamba a 08.06.2010 às 14:55

[...] Acompanhamento da Lei da Adopção, tiveram grande repercussão. Aqui escrevi sobre elas, primeiro criticando-as e em seguida aqui colocando um texto antigo sobre a questão da adopção por homossexuais. Tinha-o [...]

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