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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Olhando o livro de João Mosca, "A Experiência Socialista em Moçambique (1975-1986)", Instituto Piaget, uma das melhores referências publicadas em Portugal sobre Moçambique contemporâneo.
A este propósito refiro a escassez da publicação de ensaios em Portugal sobre Moçambique (vá lá excluamos um pouco a História, em especial aquela que José Capela vem tecendo há décadas), o que até contrasta com o interesse na literatura. E ainda o facto, lamentável, de aí não existir distribuição dos livros aqui editados. Estranho pois mercado, universitário e outro, haverá. E estando cá a Escolar Editora, a Texto, a Porto recém-chegada e parece que com força, a Caminho já ancorada, porque não se conseguirá articular alguma dessas editoras com o propósito da distribuição em Portugal das edições moçambicanas?
Difícil não será. Talvez não intensamente lucrativo. E talvez aqui sim passível de conjugar com os esforços estatais de "cooperação", via Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento ou outra instituição da área do livro e/ou língua. Alguns problemas de somenos que atrapalham este objectivo estão (há anos) identificados. Pessoalmente considero que o que realmente falta é de alguém [por "alguém" entendo mesmo um indivíduo, um quadro de uma instituição que se ocupe disto e seja por tal avaliado] que se encarregue da acção, com prazos e objectivos. Até facilitados, dada a exiguidade de editoras moçambicanas, e a especialização dos mercados a atingir.
E já agora, para hipotéticos interessados, a referência a uma edição recente em Portugal (a editora não lembro) da obra de Alcinda Honwana "Espíritos Vivos, Tradições Modernas. Possessão de Espíritos e Reintegração Social no Pós-Guerra no Sul de Moçambique". O livro merece toda a atenção.
Há uns (largos) anos passámos uns dias na Ilha e encontrámos um puto porreiro imerso no voluntariado o qual, ao fim de um ano por ali, já estava um bocado cacimbado e totalmente falido. Cá em casa lembramo-nos que com ele partilhámos algumas boas refeições, o cozinheiro da casa era óptimo e ficaram no nosso pedestal doméstico uns filetes de peixe-papagaio absolutamente inolvidáveis.
Agora ele tem a idade que eu tinha na altura e também bloga, lá em Lisboa. Com simpatia escreveu sobre estas machambas, afirmando-me "moçambicanizado". Não pude deixar de sorrir. Ainda que discordando, quanto mais passa o tempo de imigrante mais me sinto português. E não por reacção contra nada, bem pelo contrário. Apenas porque me é normal (o senso comum diz "natural", mas isso é coisa fisiológica).
E para demonstrar a diferença que quero realçar narro de seguida um episódio das memórias de Moçambique que ainda esta semana lembrei durante um lauto jantar em que estavam presentes alguns dos protagonistas. Ei-lo:
Lá pelos anos de 1998/9 veio a Maputo uma famosa jornalista portuguesa. O seu objectivo era escrever sobre o "regresso dos portugueses", então propagandeado em Portugal e vituperado por cá. E, claro, exagerado em ambos os sítios. O objectivo foi cumprido, o artigo foi feito, resultando numa série de pequenos perfis sobre portugueses de apelidos relativamente sonantes então residentes em Maputo. Enfim, opções...
Durante a sua visita fui convidado para um jantar com a jornalista e algumas individualidades moçambicanas, jornalistas, médicos, romancistas, professores, líderes de movimentos sociais. O fito era que ouvisse ela desses "representantes" da sociedade moçambicana o que achava esta de tal regresso.
Correu mal o encontro. Esperava o anfitrião que o diálogo fosse aprazível e as conclusões positivas. Mas a presença de tão famosa jornalista, ainda para mais de tão importante jornal, foi uma espécie de Caixa de Pandora aberta. Sobre os portugueses se um dos convidados dizia "matem-nos" o outro logo gritava "esfolem-nos" e de imediato alguém urrava "queimem-nos". Foi uma catarse e também uma provocação - tantos anos depois todos concordamos com isso. Pois aquele momento foi também entendido como uma oportunidade para reafirmar uma série de coisas a Portugal. Reafirmação porventura desnecessária, achei eu durante o jantar, ainda que algo distraído ali debaixo da mesa a cavar o buraco onde me tentava esconder.
Até que a senhora, famosa, culta, respeitadíssima, se afligiu com tanta opinião negativa. E perguntou, estupefacta, aflita, enfática: "mas não gostam de nós...?", "depois de tudo o que fizemos por vocês!?!?".
Não me lembro de mais nada, com esta mergulhei para o buraco e tapei-o!
Fim. E que raio tem a historieta a ver com o princípio da arenga? Qual o moral da história? Pois aqui quero dizer(-te) que não se trata de estar moçambicanizado. É apenas o tentar não pensar e dizer estas barbaridades. (Talvez outras, talvez outras). Que são tão generalizadas. E que se neste caso até se escondiam atrás da educação irrepreensível e do brilho, tal não acontece no outro amiude.
Nada a ver com nada, mas como se sente o emigrante quando à noitinha vem à internet ler os jornais da santa terrinha? Que dia ...
1. A ministra do ensino superior (ou alguém lá no estaminé) pede a lista nominal dos grevistas - isto ultrapassa todo o imaginável, tudo...;
2. A ministra da justiça (ou alguém lá no estaminé) viola a lei e incorre (em abstracto) em pena de prisão - isto já é imaginável, até muito;
3. O ex-presidente da câmara da Guarda parece que sempre vai preso - isto é que é totalmente inimaginável;
Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.
Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.
Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.
É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.
Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.
A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...
Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.
Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.
A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.
Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...
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Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.
Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.
Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!
Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.
[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]
Macia. (para o hipotético leitor moçambicano ausente do país).Ontem alguns amigos trouxeram-nos um presente da Macia: um cesto com mel, bananas, maracujás, limões, mangas, cajus, castanha de caju (claro) e cocos (e até abacaxis, já me esquecia).
Ontem pela enésima vez a TCM (re)transmitiu-o. Aqui entre nós, apesar de tudo continuo a achá-lo irresistível.
Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe que eterno. O mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo, e assim procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía.
Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas são só minhas pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.
E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora vermelhas, belas ainda que também depósitos do lixo sempre esquecido. E salvo-me da solidariedade exigida num mero, e até cansado, “sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me num “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha para o lixo” que se quer, e torna, definitivo.
E cada um foi ao seu almoço.
Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.
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Acabo de mudar de casa (daí ter andado ausente deste maxamba, entretido a arrumar o estaminé). Vivi aqui anos numa rua de nome verdadeiramente comunista. Agora estou numa rua cujo nome é de um obscuro rei português. Via email enviei aos amigos a nova morada. Logo recebi de colega/amigo um grande abraço, que fosse eu bem-regressado a Portugal, como se fosse um "até que enfim, que já por lá andavas há muitos anos"
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Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.