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As cartas anónimas

por jpt, em 06.01.04
Aqui longe vejo o meu país indignado, remoendo cartas anónimas e discutindo-lhe o estatuto, como se não fossem lixo. Até arma política as imaginam, arremessada contra a actual oposição. Com a sageza que lhe é natural Francisco José Viegas encerra no Aviz qualquer discussão sobre a matéria.

Mas antes vi uma perspicaz abordagem histórica de Helena Matos, nada do agrado de Vital Moreira no Causa Nossa, colocando o cerne na recepção das cartas e seu tratamento: “A questão do destinatário é crucial quando se trata de cartas anónimas. É o destinatário e não o remetente quem define a fronteira entre a dignidade e o aviltamento quando se trata de cartas anónimas...É [nele] que muda a natureza das cartas anónimas quando se trata de ditaduras ou democracias. É no destinatário que se inicia o processo de separação entre o que é apenas um reflexo do ódio e da maldade e o que é a expressão de um problema...”

Já que se apelou à história então surjo com a etnografia. Um episódio recente, tempos em que a oposição era poder, a querer-se prova de que estas tralhas e seus agentes não têm partidos. Mas têm outras coisas.

Há alguns anos trabalhei em Moçambique com um grupo de professores portugueses. Por razões várias, talvez mais logísticas que outras, neles grassava a inimizade. Fui de antemão avisado da regular emissão de cartas anónimas vituperando personalidades e comportamentos, e cujos detalhes denotavam uma autoria interna ao contingente. Logo recebi a primeira carta, e depois outras. Algumas fingindo um português básico de quasi-iletrado local, outras nem tanto. Comunicava-as aos visados, num quase jocoso “olhe, lá veio mais uma carta” que se cria e queria apaziguador de uma gente sempre receosa de que uma má imagem assim construída significasse a não renovação de contratos, esta sempre decidida com a tradicional subjectividade lisboeta, tão tortuosa é ela. Se os visados as queriam ler faziam-no. E depois cloaca abaixo.

Entretanto uma nova direcção da tutela surgiu. Emanação pura de segmentos intra-partidários, praxis socialista oblige. E foi então que recebi uma comunicação oficial, o célebre "telegrama", contendo cópia de duas páginas elaborando sobre a vida pessoal de uma das professoras, entre as quais lembro ser denunciada a sua frequência da esplanada do Hotel Polana.

Carta anónima assim tornada elemento de arquivo, no seu dossier pessoal. E espalhada pelos diferentes serviços do ministério da tutela (e quem se nega a ler uma tralha destas?), assim aspergindo a senhora da universal dúvida, pois é radical o mandamento de que “não há fumo sem fogo” e as mais inócuas afirmações feitas acusações são sempre catalizadoras das imaginações.

Espantosa era ainda a instrução que acompanhava a cópia: “Queira comentar afirmações”. Lembro ainda a minha sucessão de pragas acompanhando a questão muda “mas porque raio não telefonaram?”, de modo a que se evitasse toda aquela sujidade assim tornada pública.

Hoje sei o quão enganado estava. Eram tempos em que, talvez preguiçoso, seguia o Kypling de "Prefiro pensar sempre o melhor das pessoas... é uma atitude que poupa muitos aborrecimentos", e tomei o acontecido como um erro, a inexperiência de académicos recém-chegados à gestão da coisa pública, ao comando de pessoas.

Sei hoje que não é assim, é algo muito mais profundo, que essa manipulação das anónimas atoardas é uma estratégia de gestão. Que uma carta anónima é apenas o cume da utilização da delação e da maledicência como mecanismos de controle e de avaliação profissional em instituições desprovidas de veras estratégias formais (burocráticas) para os realizar. Porque lhes faltam as competências e os objectivos. E assim, nessa total irracionalidade por vezes surda por vezes gritada, legitimando as práticas nepotistas no seio da administração. Por isso quando Helena Matos diz “É no destinatário que muda a natureza das cartas anónimas quando se trata de ditaduras ou democracias.” é fundamental lembrar que não são estes dois pólos, que vivemos numa democracia polvilhada de ditaduras parcelares, gânglios que acoitam e reproduzem as lógicas patrimonialistas e até étnicas (aí chamam-lhe regionalismo) que vão suportando o exercício do(s) poder(es).

A carta anónima é um corolário. Arma não de partidos mas sim de um processo de ademocratização. Amoral. E como tal muito mais perigosas, profundas, estruturais, do que este triste episódio aparenta. Pois agora explodem no reino da justiça. Referindo até, mas não sujando, o Presidente, símbolo e cidadão estimável (e do qual sou eleitor). E alguns dos seus pares, talvez sujando alguns, injustamente.Mas não posso deixar de lembrar todos esses que assim vivem e se reproduzem. Hoje por certo muito indignados com a aleivosia que tocou os respectivos patronos. Mas firmes, convictos, das suas práticas, prontos para o regresso que ambicionam.

Uma pequena nota final: a tal professora não viu o seu contrato renovado. Outros, em similares circunstâncias, ficaram.

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publicado às 20:02

Biografia de Mário Coluna

por jpt, em 06.01.04

Renato Caldeira, Coluna. O Monstro Sagrado, Maputo, Edisport, 2003

 

O jornalista Renato Caldeira escreveu e publicou a biografia de Mário Coluna, o Monstro Sagrado. Uma desilusão. Num livro com tamanha documentação fotográfica exigir-se-ia muito mais cuidado (e até bom gosto) na impressão e na paginação do livro, bastante descuidadas. E já nem falo no recurso a cores, decerto que o preto e branco é uma opção devida aos custos. Mas com tanto benfiquista (e não só) por esse mundo não deveria o livro ter sido pensado para exportação? Neste estado duvido que ultrapasse o universo dos indefectíveis.Não há dúvida, Coluna merece melhor.

 

O texto é superficial, um registo de entrevista suave entrecortada por breves declarações de algumas personagens que contracenaram com Coluna. Alguns episódios desgarrados (ainda haverá paciência para o jogo da Coreia?) e uma série de elogios, decerto que merecidos mas que surgem circunstanciais. Ficamos com uma ideia sobre o que fez Coluna, mas muito pouco sobre quem é Coluna, o que representou, de onde saíu e onde viveu, e acima de tudo, quase nada sobre o que pensa.

 

Não se pediria uma obra académica. Mas fica um enorme vazio. Da juventude, do filho de cantineiro português e camponesa changana, afastado da mãe com quatro anos, criado para o desporto naquela malha de clubes de LM que tanto representaram a estratificação da sociedade colonial, nada de substancial. Do jovem em Portugal tão pouco. Do mulato capitão do Benfica (aquele que era uma Nação, a dos “bons pais de família”) e da selecção dos anos 60 passa-se a correr. É um quase nada, à excepção do episódio do inspector da PIDE a torná-lo “branco”, ali a demonstrar o como a cor é apenas é estatuto, mas sem que o texto seja consciente.

 

E do homem que logo regressou a Moçambique, que o percorreu trabalhando, e onde é um Senhor. Que acha ele do seu país, da sua história?

 

Pela biografia Coluna é mais do que o Monstro Sagrado. Surge também como personagem-charneira do fim do império [e, caso alguém leia isto, charneira não significa duplicidade, que isto de más-vontades abundam]. Talvez mais do que qualquer outro vulto, pela importância simbólica que teve no Portugal de Salazar, pelo seu imediato papel em Moçambique. Daí a importância do seu olhar, o qual aqui não sobressai.

 

Enfim muito ficou para dizer, e acima de tudo, muito para perguntar. Não há dúvida. Os admiradores merecem melhor.

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publicado às 15:18

Luandino Vieira

por jpt, em 06.01.04

Uma noite de leitura rápida de autor que nunca tinha lido. Luandino Vieira em “Vidas Novas”, - comprar em 2003 no Maputo um livro impresso em Havana, 1984, 10 000 exemplares (!), ah o socialismo real - e “A Verdadeira Vida de Domingos Xavier”. É certo que o autor escrevia na prisão, revoltado e sofrido, mas diante daqueles anónimos heróis e quasi-heróis, simples e populares, prenhes de futuro e justiça, fica-me a sensação que o tempo lhes passou por cima. Aos livros, entenda-se. Mas anda(va) bem de escrita, muito bem mesmo.

 

Uma frase deliciosa, que tantas vezes senti, mas que nunca consegui encontrar: “Bebiana saiu. Vestia vestido leve e, descalça, dava ao corpo o mexer do mar” (42).

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publicado às 15:17

Autores de Moçambique

por jpt, em 06.01.04
Em Portugal José Moreira tem sido um constante divulgador do que se produz em Moçambique, para isso bem usando o Expresso. Só agora me chega um exemplar velho de um mês (e como envelhecem os jornais, encerrados em tão urgentes e fundamentais factos) onde refere, e elogia, “As Duas Sombras do Rio” de JPBC, que bem o merece. Mas não lhe deixo de detectar, ainda que ali subreptícia, a queda para a dicotomia, que não só nele grassa, a vertigem em opôr os dois escritores moçambicanos, brancos, beirenses, quarentões, uns “ai, eu gosto mais do...do que do..”. Pensamento bipolar, que empobrece.E já agora, tanto nele como noutros, porquê tanta angústia com quem escreve “desconseguir”, numa língua que se desdobra em “desfazer”, “desmontar”, “desenraizar”, “desenrolar”? Que “desprazer” é esse? Será desconsideração? Ou desprezo? Ou apenas desafecto? Ou, afinal, desatenção? Goste-se ou não dos livros que não seja pelo “desconseguir” entender o que não é assim tanto “forçado exotismo linguístico” (Moreira dixit, friso).

Chega por agora, vou ler, Aquilino Ribeiro hoje, que estou em maré de exotismos.

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publicado às 15:16


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