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Craveirinha póstumo

por jpt, em 21.01.04
Pompa e cerimónia, como aqui nunca tinha visto para lançamento de livro. A sede do "private" do banco patrocinador, lugar de gente bem, e naquele dia dela tão cheio. [E eu, gin na mão, a lembrar os diferentes - e mais vazios - dias do Babalaze das Hienas e do Contacto, mas enfim, morto é morto, mais fácil de homenagear]. O velho haveria de ter exercido a acidez, se por ali estivesse. Ele que ironizava de "urna" o mercedes que o transportava e até de "coveiro" o respectivo motorista, parece que adivinhava o adivinhável. Mas, vaidoso e cobrador de um reconhecimento que nunca lhe era excessivo, haveria de ter gostado. E também do livro, até capadura, ainda que depois fosse para casa protestar aquelas gralhas de prefácio.

Estou a falar do social. Que lá de dentro se calhar...poemas fechados na gaveta quarenta anos, e ele que até publicou poemas de prisão: Cela 1. Optou? Se calhar não, pois estes textos não o acom panharam durante muito tempo. Mas isso são as eternas questões do baú. Publica-se os restos ou não? Há muita tralha que sai por causa disso, mas há sempre o Kafka e o Brod para legitimar rapar os fundos do tacho.

Muito do que aqui surge tem interesse histórico. O que poderá não ser o melhor para poesias. Mas não lhe vem particular mal por isso. Ainda que o tempo seja impiedoso para algumas coisas, talvez mais próprias lá para os 70s: "Pergunta a Ernest Hemingway" serve de exemplo. Mas estou aqui para a minha garimpa. Então lá vai: para aqueles que se tanto se incomodam com os requebros da língua, arranca-se aqui um "Já me desapetece a poesia"....

E, já agora, para tantos racialistas de Maputo (até para os meus amigos que me fazem sentir uma espécie de negativo do Sidney Poitier): "Que nesta mulher que passa/também há um ventre de mãe/ e não é branco nem é negro/ o ovário na gestação" - mas esses hão-de protestar o velho, agora que morto, e por razões várias.

E, ainda, para todos, a verdadeira grandeza de homem, corajoso para escrever "Era não!mas o tabacoé um vício/E o vício/fumado nas omoplatas/põe-nos sobre a língua a nicotina/e descerra os lábios/para o sim".

Porra, bem mais homem do que todos esses que se dizem Homens.

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publicado às 15:24

Toponímia

por jpt, em 21.01.04

Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.

 

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Acabo de mudar de casa (daí ter andado ausente deste maxamba, entretido a arrumar o estaminé). Vivi aqui anos numa rua de nome verdadeiramente comunista. Agora estou numa rua cujo nome é de um obscuro rei português. Via email enviei aos amigos a nova morada. Logo recebi de colega/amigo um grande abraço, que fosse eu bem-regressado a Portugal, como se fosse um "até que enfim, que já por lá andavas há muitos anos"

 

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Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.

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publicado às 15:23

E a propósito da Casa da Catembe

por jpt, em 21.01.04
O arquitecto da casa da Catembe será José Forjaz, aqui figura relevante. A seu propósito lembro um artigo na Visão (e aqui reproduzido no Savana) do prestigiado sociólogo Boaventura Sousa Santos, que se debruçava há alguns meses sobre personalidades de relevo em Moçambique. Entre outros louvava Forjaz, pois tinha sido escolhido para construir a casa de Kofi Annan. E dele dizia mais ou menos isto: que era capaz de reproduzir como ninguém os valores africanos.

Eu pus-me a resmungar, e ainda estou. Será que alguém me poderá elucidar, o que é isso de "valores africanos"?

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publicado às 15:22

A casa da Catembe

por jpt, em 21.01.04
Em Lisboa o "Publico" ecoa a construção de uma residência oficial destinada ao futuro ex-presidente Joaquim Chissano. Diante da habitual parcimónia de notícias sobre Moçambique este interesse não deixa de indiciar uma crítica implícita, tipo "um país tão pobre e a gastarem dinheiro desta maneira".

Incompreensão radical. Goste-se ou não Chissano é um estadista de renome, e importante em África. E o Estado deve garantir-lhe a continuidade da dignidade "presidencial" para o futuro. Até para o utilizar como património político internacional. E, formalmente, deve assegurar essas condições.

Desenvolvo este raciocínio e dizem-me que este meu relativismo é perigoso. Aí irrito-me, e mesmo. Não é relativismo, é comparativismo, coisas totalmente diversas.

Pois esses moralistas doadores não têm, tantos deles, a inacreditável instituição monárquica, toda aquela gente vivendo e habitando os erários públicos? "Ah, mas os povos vivem muito melhor". Talvez, mas não o viviam quando os respectivos casarões foram construídos.

E, o que é realmente importante, está-se no domínio das instituições políticas e das personagens que as vivem. E por mais que não se queira gostar de Chissano é bem mais importante nesta História do que qualquer rei burguês desses nortes gélidos. Então que seja assim simbolicamente tratado.

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publicado às 15:21


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