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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Há uns (largos) anos passámos uns dias na Ilha e encontrámos um puto porreiro imerso no voluntariado o qual, ao fim de um ano por ali, já estava um bocado cacimbado e totalmente falido. Cá em casa lembramo-nos que com ele partilhámos algumas boas refeições, o cozinheiro da casa era óptimo e ficaram no nosso pedestal doméstico uns filetes de peixe-papagaio absolutamente inolvidáveis.
Agora ele tem a idade que eu tinha na altura e também bloga, lá em Lisboa. Com simpatia escreveu sobre estas machambas, afirmando-me "moçambicanizado". Não pude deixar de sorrir. Ainda que discordando, quanto mais passa o tempo de imigrante mais me sinto português. E não por reacção contra nada, bem pelo contrário. Apenas porque me é normal (o senso comum diz "natural", mas isso é coisa fisiológica).
E para demonstrar a diferença que quero realçar narro de seguida um episódio das memórias de Moçambique que ainda esta semana lembrei durante um lauto jantar em que estavam presentes alguns dos protagonistas. Ei-lo:
Lá pelos anos de 1998/9 veio a Maputo uma famosa jornalista portuguesa. O seu objectivo era escrever sobre o "regresso dos portugueses", então propagandeado em Portugal e vituperado por cá. E, claro, exagerado em ambos os sítios. O objectivo foi cumprido, o artigo foi feito, resultando numa série de pequenos perfis sobre portugueses de apelidos relativamente sonantes então residentes em Maputo. Enfim, opções...
Durante a sua visita fui convidado para um jantar com a jornalista e algumas individualidades moçambicanas, jornalistas, médicos, romancistas, professores, líderes de movimentos sociais. O fito era que ouvisse ela desses "representantes" da sociedade moçambicana o que achava esta de tal regresso.
Correu mal o encontro. Esperava o anfitrião que o diálogo fosse aprazível e as conclusões positivas. Mas a presença de tão famosa jornalista, ainda para mais de tão importante jornal, foi uma espécie de Caixa de Pandora aberta. Sobre os portugueses se um dos convidados dizia "matem-nos" o outro logo gritava "esfolem-nos" e de imediato alguém urrava "queimem-nos". Foi uma catarse e também uma provocação - tantos anos depois todos concordamos com isso. Pois aquele momento foi também entendido como uma oportunidade para reafirmar uma série de coisas a Portugal. Reafirmação porventura desnecessária, achei eu durante o jantar, ainda que algo distraído ali debaixo da mesa a cavar o buraco onde me tentava esconder.
Até que a senhora, famosa, culta, respeitadíssima, se afligiu com tanta opinião negativa. E perguntou, estupefacta, aflita, enfática: "mas não gostam de nós...?", "depois de tudo o que fizemos por vocês!?!?".
Não me lembro de mais nada, com esta mergulhei para o buraco e tapei-o!
Fim. E que raio tem a historieta a ver com o princípio da arenga? Qual o moral da história? Pois aqui quero dizer(-te) que não se trata de estar moçambicanizado. É apenas o tentar não pensar e dizer estas barbaridades. (Talvez outras, talvez outras). Que são tão generalizadas. E que se neste caso até se escondiam atrás da educação irrepreensível e do brilho, tal não acontece no outro amiude.