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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Efeméride. O horroroso Benfica faz cem anos, o século! Trejeito meu. Encolher de ombros. E olho para o meu antes: que sensaboria teria sido sem esse Benfica. Então, e afinal, parabéns.

Na Paixão de Mel Gibson a Monica Bellucci protagoniza. E como se pode polemizar quando a Belucci está? Quando tal acontece haverá algo mais sob o firmamento?
Há alguns meses Gilberto Gil esteve aqui com o presidente Lula. Esteve, totalmente informal, no Café com Letras onde Naguib e Stewart Sukuma organizaram uma bela noite para ele (e para nós todos).
Nessa noite Eduardo White leu um extraordinário poema escrito para ali, nada encomiástico. E orgulhou! Nessa noite Cabaço, Salimo, Stewart, Chitzondzo (?, olhem, não estou certo) e outros cantaram um pouco, ali para mostrar. Nós todos gostámos. No fim Gilberto Gil cantou umas quatro músicas, e aqueceu. E todos nós gostámos. Depois prometeu que viria cá "com mais tempo" em Março. Cantar mais.
Não mais se ouviu falar disso. Está-se à espera. Se vier talvez chegue mais triste ou desencantado dessas coisas de ministro. Não terá razões para tal.
Pois não há nada de novo neste mundo. "Same old scene" era uma música romântica quando eu era novo.
1. Conceder o direito à adopção aos homossexuais? E à reprodução assistida? Uma questão de cidadania. E que confronta o nosso modelo de família como núcleo legítimo de reprodução. Modelo cujas características, direitos e deveres estão codificados juridicamente e/ou expressos na ética, com mais ou menos fluidez.
Crente na igualdade de direitos de cidadania como recusar esses direitos? A ética democrática impele à simpatia por este novo capítulo da nossa organização familiar.
Subjacente a esta aceitação está a noção de uma inferioridade ética do actual modelo de família conjugal. Porque é ele deficitário quanto à igualdade dos cidadãos face à lei, distinguindo-os e discriminando-os segundo as suas práticas afectivas e sexuais.
Aliada a estas posições defende-se também uma educação sexual não orientada, não "heterossexista" de molde a evitar a continuidade de preconceitos, ao valorizar determinadas práticas em detrimento de outras, estas assim "demonizadas" bem como os hipotéticos núcleos reprodutivos que as assumem.
2. Outras sociedades organizam de modo diferente a sua família e reprodução. Isso demonstra que o nosso modelo vigente de família é específico, "um caso particular do possível"e não deve ser visto como absoluto, sagrado, inamovível.
Mas, e pela mesma razão, também não é puro atavismo, portanto desprovido de validade. Pois se o seu carácter contextual permite questiná-lo e, desse modo, modificá-lo, essa mesma historicidade di-lo produto de opções históricas, contingentes mas também significativas, estratégicas.
Sem grande rigor vejo-o como fruto e dominante de um contexto "euro-cristão", do qual será mesmo um dos traços comuns fundamentais. E nele se poderá dizer central a figura da unidade conjugal, com três propriedades básicas e indissociáveis: o casal é heterossexual, monogâmico e não-incestuoso.
3. Na comparação com outros modelos conhecidos de família e de reprodução é universal a condição heterossexual. Mas isso não é obstáculo à proposta em causa. Porque não inovar, não é a história uma mescla de constâncias e inovações?
As novas tecnologias de reprodução talvez tornem obsoleta a exigência heterossexual. A extensão dos direitos de adopção também. Mas não será esse um corolário tecnocrático, subordinando a discussão sobre o valor social "família" à técnica (tecnologia de reprodução e tecnologia jurídica) tal como se tudo o que é possível seja bom?
Ora, aqui como sempre, é aconselhável que as potencialidades da tecnologia se subordinem a uma hierarquia de valores colectivamente assumida.
De qualquer forma o proposto abandono do carácter heterossexual do modelo de família legítimo, entendendo este como contigência histórica e deficit ético, permite inquirir sobre as suas outras dimensões centrais, as proibições do incesto e da poligamia.
4. A monogamia, consagrada na lei e veículada por poderosos mecanismos de produção de valores (p.ex o ideal amoroso romântico ou o da união única indissolúvel), é também característica particular de alguns sistemas históricos e, portanto, questionável na sua necessidade e/ou superioridade.
Não há dúvida que a codificação jurídica da monogamia reprime a liberdade das práticas sociais polígamas. E também essa produção de valores monogâmicos modelam (abusivamente?) as práticas individuais, confinando-as à correcção moral monogâmica.
Não haverá aqui o mesmo deficit ético? Assumindo iguais princípios de igualdade de cidadania e dignidade das práticas sociais, como não fazer a crítica (política) da monogamia prescritiva? Como ser solidário com as reclamações dos homossexuais e esquecer os que desejariam assumir com todos os direitos a condição polígama, nas suas múltiplas formas?
5. É universal a prescrição do incesto. Mas também os conteúdos legais e morais que lhe estão associados são diversos, social e historicamente. Assim as proibições à conjugalidade entre parentes são também contextuais, e portanto questionáveis. E nunca naturais/necessárias.
É certo que sobre esta matéria é constante o recurso à (mítica) questão dos perigos da consanguinidade. Mas ela nem deve ser debatida no terreno do biológico, pois a questão é sobre um modelo de relações socialmente legítimas entre seres racionais, donde cognoscentes. Mas também porque aqui também se trata do direito à adopção, algo não-biológico. E ainda pelo recurso à reprodução assistida e a toda a parafernália de controle de possíveis deficiências fetais.
Nesta linha de pensamento, como não reconhecer o mesmo deficit ético desta dimensão do modelo familiar (a proibição do incesto), repressor de práticas sexuais e afectivas? E como não exigir o final da produção de valores que a-sexuam as relações entre determinados parentes e que demonizam aqueles que os transgridem?
Ou seja, como ser solidário com as reclamações dos homossexuais sem que haja uma crítica (política) da repressão à cidadania daqueles que torneam (ou o desejariam) esta específica codificação do incesto?
6. Analisando o modelo de família vigente não parece que haja qualquer privilégio ético das reclamações expressas na causa homossexual sobre hipotéticas reclamações polígamas ou incestuosas, por ora mudas face à extrarordinária perseguição social e jurídica que as suas práticas convocam, e ao complexo (culpabilizado?) dos seus agentes.
Talvez que os defensores da causa homossexual afirmem serem estes diferentes fenómenos, alguns até negativizando as outras práticas. Mas assim não estarão apenas a reproduzir preconceitos? Poderão afirmar que não têm obrigação de defender outros excluídos da reprodução social legítima. Um egoísmo identitário, apenas surpreendente porque sediado em movimento de uma esquerda libertária que se afirma solidária. E também porque sendo hoje os homossexuais (e suas causas) menos ostracizados moralmente que os incestuosos e juridicamente que os polígamos, poderiam expressar de modo coerente (no comparativismo relativista) e solidário o cerne da sua reivindicação: a mudança do modelo vigente de familia reprodutiva.
Talvez que esse restringir do questionamento procure não assustar a sociedade com propostas que, aos olhos de hoje, seriam escatológicas. Estratégia política, e talvez certeira. Mas indigna na sua vertente libertária. E incoerente na ausência de uma verdadeira reflexão sobre o assunto, eximindo-se à aplicação de uma crítica relativista alargada aos valores e questões sociais, ou seja restringindo-a ao que seja benéfico para causas políticas próprias.
7. Questionar este importante modelo social não deve assentar na força conjuntural de um movimento socio-político mas sim numa avaliação fundamentada do carácter contingente desse modelo. Para isso que se utilize a mesma metodologia analítica para todos os seus vectores.
Mas não deverá esta proposta ser acompanhada de uma reflexão sobre o modelo de família a propôr, entre as suas plurais possibilidades (que práticas sociais reprimir? que limites impôr? e, crucial, com que fundamentos?), no fundo que modelo de futuro se propõe face às radicais transformações que se defendem (ou se implicam)? Não é isso a acção política?
Não é de práticas individuais (tão múltiplas) que aqui se trata, mas sim de opções sobre normas constitutivas de modelos sociais, sobre valores organizativos da vida em comum. E essas opções sempre implicam o privilegiar de determinados valores e práticas sobre outros, sempre cerceando comportamentos e aspirações individuais. Ou seja são opções que constituem normas de cuja ontologia deriva necessariamente o seu carácter repressivo e exclusivo.
Normas contingentes essas que se devem subordinar a uma crítica dos seus fundamentos. Mas a sua subsistência, necessária para a continuidade social, implica uma adesão que não é apenas racional, que remete para a história dos valores que as suportam e enquadram, assim cimentando as sociedades.
Assim, e sem a frescura da novidade e o encanto do libertário, voto na actual família monogâmica, não-incestuosa e heterossexual, como enquadramento valorativo da sociedade. Sem aplicar ao limite a crítica aos meus valores, talvez ficando no seio de pre-conceitos a que aderi, homem do meu mundo. Mas como não? E aqui decerto a par dos adeptos da homoparentalidade, eles excluindo incestuosos e/ou polígamos (porque sexualmente incorrectos?), eu apenas crente que esta família tem vindo a ordenar satisfatoriamente o correr da sociedade. Apesar de tudo...
No fim todos aderimos a alguns valores. Sem razão, talvez. Mas com razões e emoções. E que nestas assentam os direitos da maioria viver segundo os valores pelos quais opta. Mais que não seja...
Finalmente, ouçamos, com o menor preconceito possível, os mestres do pensar sobre nós próprios:
"Sócrates: Não és da opinião de Homero para quem a idade mais encantadora é a do despontar da barba, precisamente a idade de Alcibíades?"
(Platão, Protágoras)
"Sócrates: "Diz lá se tens alguma coisa contra aquelas leis de entre nós que regulam os casamentos. Achas que elas são más?" Não tenho nada contra elas, responderei. "E contra as que presidem à criação da criança e à sua educação, educação que recebeste como qualquer outro?" (...) Elas tinham razão, direi eu."
(Platão, Críton)
O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa, Luís Villas-Boas considera "o carinho transmitido por homossexuais ... um carinho falso. Não é carinho organizado, estruturante - gostam deles próprios através da criança".
Concorde-se ou não com o direito dos homossexuais à adopção, este tipo de afirmação é complicado e grave. Villas-Boas faz uma imputação de intenções "um carinho falso...gostam deles próprios através da criança". Das práticas sexuais dos indivíduos retira-lhes uma inferioridade. Sentimental (porque incapazes de carinho) e/ou ética (porque puros egoístas). É uma afirmação discriminatória? É-o. Mas de discriminações está o mundo cheio. Neste caso o que me choca fundamentalmente é o seu cúmulo, a sua justificação, a tal imputação de intenções egoísticas aos indivíduos homossexuais. Baseado em que argumentos? Em que realidade?
Criticável no cidadão? Sim, apesar de me irritar o "politicamente correcto". Mas inadmissível em quem ocupa um lugar de nomeação na administração pública. E aí estou com os tempos que correm. Rua ...
E rua até porque imbecil. Pois desloca a discussão para factores individuais. Quando esta é uma discussão sobre a organização social, sobre a família, o modelo familiar. Que não pode debater-se no plano individual, mas sim no domínio dos modelos colectivos. Que modelos colectivos desejamos. Porque comportamentos individuais (carinho ou não, amor ou não, egoísmo ou não, etcs e não etcs) não os podemos deduzir, tamanha a sua multiplicidade: entre as pessoas e intra-pessoas.
E esta questão também não pode ser legitimada, como o querem em sentido contrário, só pelo facto de existir. "Dizer" que "no presente já existem dezenas de crianças criadas por casais homossexuais, a situação já existe" não implica a sua aceitação. Uma modalidade de organização não é legítima e desejável apenas porque é real. Isto é uma afirmação tão redutora como as acima abordadas. E tão imbecil.
Ao leitor que ainda aqui está esclareço. Sou contra o direito dos homossexuais adoptarem. Ainda que confesse alguma oscilação interna. Então e se os pais das crianças forem homossexuais? Retirar-lhas? Eu não...era o que faltava. Que ideia mais absurda.
Mais uma vez. Esta é uma discussão sobre modelos colectivos de organização, sobre opções realizadas e/ou a realizar colectivamente. Não é uma discussão sobre as qualidades e defeitos do senhor a, da senhora b.
É um pouco como o aborto [que aqui surge porque também estruturante das modalidades de reprodução]. Sou radicalmente contra (excepto nos tais casos, de violação, de más-formações, de perigo para a mãe). E não me venham com o "direito ao meu corpo" porque se é assim então não me venham depois pedir dos meus impostos para a operaçãozinha ou para os medicamentos (e já nem falo do subsídio de funeral, aí será um caso de saúde pública). Pois então, e já que o corpo é seu, desenrasque-se...[pareço ultra-liberal? Não sou. Medicina pública, sff]
Um dia, há anos, uma jovem familiar minha, já adulta, engravidou. Lá fui ter com ela, a fazer de voz avisada. Primeira pergunta minha: "então porque raio engravidaste?". Segunda pergunta: "precisas de dinheiro para abortar?".
Dogmas? Isso são puras caganças. Opiniões? Claro. Carregadas dos meus conceitos. E dos meus preconceitos.
Terra de bilingues. Terra de multilingues. Aos que enfrento, em cima desse estrado invisível que insistem em sublinhar, inquiro-lhes qual a sua primeira, aquela em que são mesmo. E quando ali oscilam, agarrados ao português de status, nem hesito no "em que língua é V. sonha"? para tantas vezes ver o "áfinal!" entre-sorrisos semicerrados "sonho em ...". Que os torna mais ricos.
Hoje, em dia de efeméride pessoal, muito me lembro disto. Associando-o a um "Atlas", o de Borges:
"O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado ou no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o hábito de ser Borges, emerjo invariavelmente de um sonho que acontece em Buenos Aires.....Nunca sonho com o presente mas sim com uma Buenos Aires passada e com as galerias e clarabóias da Biblioteca Nacional na Rua do México."
Um pequeno livro de Bill Bryson, narrando a sua visita aos projectos da CARE no Quénia. Uma delícia, polvilhado de um humor inteligente, forma de falar de coisas sérias (e tristes) sem afugentar a esperança.E os lucros destinam-se a projectos de ajuda.
Desde anteontem que Ricardo Rangel é octogenário. E quão bem ele em tal se tornou. Aqui antepassado e sempre mestre da fotografia. E também amante, divulgador e organizador do jazz em Moçambique, nunca esquecer. E a embrulhar um rumo que lhe tem sido cheio e belo vem a sua muito especial fineza e aquele humor irónico que tanto tem de implacável como de gentil. Face a ele um misto de encanto e de inveja, é o que sempre me ocorre.
Para além de tudo isso ainda a memória de ter sido ele um daqueles que inventaram a moçambicanidade, ali em remoínhos de jovem com outros poetas, Noémia de Sousa, José Craveirinha, similitudes tantas que ainda chamam quem as sublinhe. Como tão bem o fez o José Luís Cabaço, durante a bonita, jazzy e porreira festa de domingo na AMF, a lembrar que nas fotos de Rangel se tinha transformado de laurentino em moçambicano.
As fotografias, a indignação, a ironia. E assim uma incessante e inteligente luta, ainda hoje. E sempre bela.
Depois, e sem surpresa, noto que quando lhe vejo as fotos é o meu povo aquele que ele transporta.
Repetido abraço de parabéns e mais um beijo à Beatrice.
[Fotos roubadas ao "Iluminando Vidas"]
Ao fim de alguns anos por aqui à rapaziada acabam-se-lhes os contratos, as missões, e tantas delas nem tão bem sucedidas como isso, que isto se foi enchendo de planos e projectos mal-desenhados do optimistas que eram, quiméricos e tudo, e depois as culpas "hão-de ser" de quem para cá veio e não soube fazer o que estava estipulado. E é claro que não vão elas sobrar para administradores ou consultores, que aqui em em breves e ambiciosas deslocações traçaram o como Deveria Ser, num cheios deles próprios a julgarem isso ideias. E por tantas dessas com patrícios a esta terra já me aconteceu chamá-la "Um Cemitério de Quadros", e sei do que falo, que as minhas ossadas também se dispersaram por aí.
Mas outros partem apenas ao dar-lhes as saudades do rincão, ou fazendo contas às carreiras e aos comboios que temem perdidos, ou aos riscos do cardíaco quase fulminante ("mas que se tivesse sido apanhado a tempo...maldita falta de ambulâncias..."). Enfim, por razão ou outra, lá vão andando de volta à santa terrinha, uns até aliviados, outros entristecidos, isso depende de cada coração... - e também da atitude, que ainda há muita gente que cospe na sopa.
Depois os contactos com os amigos que por cá se fizeram e ficaram vão, e naturalmente, espaçando. Mas passados meses lá nos chegam os conselhos, por lá à mesa nos jantares dos (neo)retornados, ou nos emails que hoje escasseiam ou até nos telefonemas de dias de festa ou de bola. E vêm mesmo dos que daqui saíram roídos de zangas ou saudades: "deixem-se ficar, não voltem, isto está impossível, é uma vida desgraçada..." e quejandos etcs.
Por cá sorrimos a essas lamúrias, que julgamos cúmplices. Pois dão-nos elas alento contra as saudades, aquelas sem tréguas como bem se sabe. Mas adivinhamo-las algo aumentadas, pela amizade de quem nos sabe fora a custo e também pelas saudades de uma luz e de um espaçado tempo que por lá não há.
Mas que dizer quando de amigos nada radicais, daqui saídos por cima e que por lá chegados, nos fazem chegar tamanhos desalentos? Deixar-me ficar, "amais os meus" está claro. Juntando um pouco de caril à xima, enquanto o houver.
Pois pede-me o meu amigo Ele que polua o seu blog com alguma da minha verve. Tarefa difícil para quem já há muito se encontra arredado das lides Moçambicanas e que cada vez menos tem paciência para as "coisinhas" deste jardim à beira mar plantado.
Tenho lido atentamente as notícias, os comentários e o sarcasmo com que Ele nos tem lido, a nós portugueses não expatriados e não imigrantes e, por muito que ser Português seja algo que nasce connosco e connosco morrerá, confesso que por vezes desejaria que o mundo não soubesse que nasci, vivo e morrerei Português.
Vem tudo isto a propósito da desvergonha que comanda a vida Portuguesa, desvergonha essa que, quando lemos que existe em África, nos leva a esboçar um sorriso sarcástico e a comentar "coitados nunca hão-de saír da merda".
Pois é, nós somos um País do 1º Mundo, onde morrem crianças em hospitais por falta de assistência médica, onde se convocam para cirurgias doentes que já morreram há 5/10/15 anos, onde uma ministra "rouba" os descontos para a segurança social dos funcionários públicos, onde um 1º ministro ignora olimpicamente a gravidade das actuações dos seus ministros, onde professores são colocados em escolas com base em "cunhas" ultrapassando outros com melhores classificações, onde presidentes da câmara roubam (sim, sem aspas) descaradamente os municipes e o Estado, onde os estrangeiros são maltratados e explorados, onde ministros se dão ao luxo de dizer que os trabalhadores estrangeiros são um problema e não os deveríamos aceitar, onde o ensino básico cria ignorantes e iletrados, onde as televisões potenciam essa ignorância e essa iletracia, onde o sistema judicial e o segredo de justiça são um remake do pior que nos países mais subdesenvolvidos se faz, onde todos nós andamos alegremente, como uns tontos, a pensar que somos civilizadíssimos.
Comparo tudo isto com a velha Albion do amigo Blair do nosso primeiro-ministro e recordo como há bem pouco tempo o senhor Blair punha a hipótese de se demitir se a sua lei das propinas não fosse aprovada e se o inquérito à morte de 1 cientista cujo nome não me recordo viesse a provar algum tipo de envolvimento entre o Governo de Sua Majestade e o suicídio do cientista, e como na sequência do mesmo inquérito o presidente da BBC e o jornalista se demitiram por terem sido "acusados" de falta de profissionalismo. Que inveja que eu tenho de ver países onde pessoas com carácter ocupam lugares públicos.
Meu caro Ele, força continua e que Ela também lhes dê com alguma força. Um abraço do Pine...
Péssimas notícias de Portugal onde uma gigantesca cáfila se organizou para falsificar medicamentos e (também) exportar para África produtos falsos e/ou fora-de-prazo. A caravana inclui falsificação tipográfica de embalagens e dos seus rótulos, pelo que os habituais cuidados em confirmar indicações podem de nada servir.
As Ordens, dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos, todas com gente metida nisso até às orelhas, já aí estão com os habituais discursos cândidos dos “inquéritos” e “responsabilizações” : que nojo, estas ordens zoófilas!
Outras notícias indicam que receptadores privilegiados seriam as clínicas privadas das capitais africanas. Que nojo, ao pensar em tudo aquilo que se tem consumido cá em casa.
Não há dúvida, é uma versão moderna do velho “vinho para o preto”.
Não resisti ao silêncio, retirei-me para casa até à Carolina, que até já estava no meu turno, e fiquei-me de guarda ao bichinho a remoer um whisky, aquecendo-o no tempo. Estúpido, distraí a memória, e deixei-me lembrar uma carolina preta, a filha duns tipos encontrados há anos, andava eu aos dragões. Entrei-lhes pela cabana dentro, de entrevista em punho e lá estava essa carolina preta, meia dúzia de meses pequena e já só o branco dos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e não dei dinheiro senão tudo virava irreal, e lá perdia o trabalho. Como a conversa não andava, pudera, avisei que voltaria no dia seguinte, e lá estavam eles à minha espera, eu de novo de entrevista em punho e a carolina preta, com o branco nos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e o bebé era óbvio que a morrer-se, e a mãe a agarrar-se a ela não fosse eu querer levar-lha ainda antes da hora, e eu para que tudo não virasse irreal não dei dinheiro, não os levei lá longe à Província ao hospital, e a carolina preta só inerte, os olhos revirados, e os pais apenas ali, e a cria do dragão a não medrar, e eu sem caju, sem lhes comprar caju, sem lhes dar caju…