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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Sempre me irritaram as lamentações de que "o Estado não é uma pessoa de bem", habituais no embrulho das palmadinhas nos ombros aos (recorrentes) lesados. Pura extensão da jurídica "pessoa colectiva", uma antropomorfização do Estado de qualidades analíticas nulas. O Estado é um emaranhado institucional povoado de indivíduos imersos em cadeias hierárquicas mais ou menos explícitas - ainda que tantas vezes pareça necessário ser detective para as destrinçar. Ou seja, o Estado não é uma pessoa mas sim um (enorme) conjunto de pessoas. Daí que quando asneiram ou aldrabam seja mais do que possível e desejável apontá-las e puni-las. Qual "pessoa colectiva" qual quê!
Vem isto a propósito da pérola chegada a esta "East Coast" via Público. Para quem não leu o ICEP lançou uma campanha publicitária, Portugal como west coast, pilhando uma ideia da agência BBDO que lhe tinha sido proposta e então recusada. Ideia que foi apresentada publicamente, até no Público de Agosto passado, pelo seu autor Pedro Bidarra. Tipo que conheço há muito, bicho grande lá nas publicidades, e que não precisa mesmo nada destas questiúnculas para que olhem para ele. Este é daqueles casos em que nem hesito para para pôr as mãos no fogo por quem se queixa.
Diz a notícia da hipótese do caso ir a tribunal. O qual decidirá justamente, creio, mas nunca antes de todos os intervenientes se terem reformado por terem atingido os respectivos limites de idade.
Para mim dever-se-iam evitar tais delongas, que minam a confiança no Estado. Numa situação destas, tão explícita, como evitar inquérito ou julgamento, indemnizações? Eu proponho uma alternativa, que passa pelo velho ordálio (o "juízo de Deus" da nossa tradição):
1. ou toda a gente do ICEP envolvida nisto (de alto a baixo) vai borda fora, como piratas que são [e falo no ICEP da tão recente, ampla e noticiada renovação, aquando da ascensão da "diplomacia comercial" e da sua subjugação parcelar ao MNE];
2. ou tudo isto é uma ignomínia, uma falsidade de publicitários despeitados, e administração e técnicos do ICEP são honestos, competentes e imaginativos. E como prova disso (e eis o tal "Juízo de Deus") terão que ser eles os autores e responsáveis pelas próximas campanhas eleitorais dos partidos do governo que os suporta.
Lá perto de Boane, naquele cruzamento sede de dumba-nengue, estanco diante de um camião em lenta inversão de marcha, na berma da estrada um velho instruindo a manobra, complicada pela abundância pobre das bancas serpenteantes. Aproveito e peço-lhe a confirmação "por favor, o caminho para a Ponta do Ouro é por aqui?", que não quero perder-me por areais desconhecidos de quem usa o avião para apressar o fim de semana.
Que "Sim", responde-me o velho, alongando o braço bem para longe "é ir sempre a direito até lá à frente e então virar à esquerda, não há que enganar, aí há-de ver que depois é só continuar sempre em frente", e havemos lá chegar. Sei também que, bem mais a sul, algures terei que acompanhar o rumo dos postes de electricidade mas isso já não lho pergunto, ainda estamos longe e decerto que por lá outrém mo indicará, de modo que eu não venha a confundir.
Agradecimento cumprido aproveito a pausa em ponto-morto para acender mais um cigarro, mas eis que o velho retorna, um passo atrás, nenhuma entoação especial, apenas para melhor esclarecimento, "filho, é seguir em frente, mas não é para virar na primeira à esquerda, é só na segunda, na estrada de alcatrão", e torna a partir, abandonando um breve aceno.
Esfumaço e sinto-me a sorrir, a reparar naquele orgulho que de tão normal que é nem se sente obrigado à ostentação, ali sorrateiro neste “filho”, tão tipo mas neutral. Sem esse “patrão” urbano ou a sua sequela “chefe”, nem tão pouco esse “branco” mais rural e que nunca percebemos se substantivo se adjectivo desqualificativo. Ou esse “pai” ou até “papá”, este mesmo como se de simulacro de carinho se tratasse, que os velhos do mato têm para oferecer, tão desajustados do invertidos que surgem. Mas agora, aqui, apenas, muito apenas, a minha idade do “filho”, que me põe no meu lugar (por enquanto, por enquanto, que o tempo está a voar), digna de natural que é.
Posso agora partir, todo atrevido, no meu fór bai fór e o velho, terminada a manobra do camião, decerto que lá irá caminhando para Boane que isso não está ali a contar entre nós. Como nunca deveria contar.
Para o meu lado comento um "reparaste?", e que sim, "tão raro, não é?", diz a Inês. Tão raro que tanto tempo passado, e já bem conhecido o caminho da praia, ainda me lembro do pequeno episódio.