Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Li algures que alguns músicos cubanos foram impedidos entrar nos EUA para assistirem à entrega dos Grammys, para os quais estavam nomeados. Recusa de visto por estarem sob a alçada de suspeita de terrorismo.
Logo me lembrei de algo que escrevi há cerca de um ano, quando à falta de blog chateava os amigos invadindo-lhe as caixas de email com tralhas variadas. Vem muito a propósito, digo eu, imerso no dejá vu:
RY COODER E JOHN WAYNE
Já que anda tudo a entrefalar-se, entreescrever-se e entrefwdar-se sobre as aventuras do Jonh Wayne na Arábia também quero. E daí que segue opinião!
Mesmo que porventura elas sejam pouco legítimas ou necessárias confesso que até agora não me têm chocado muito. Talvez por serem já hábito antigo, o que há de novo neste mundo?
E também por não simpatizar lá muito com o outro tipo, aquele do deserto. E porque razão ou moral hei-de eu optar entre filhos da mãe só porque um é (bastante) mais fraco do que o outro?
E irritaram-me aqueles franceses tipo campeões da paz. Assim fugi aos antiusa, ali a aproveitarem, candidatos a vassalo “europeísta”, com frémitos dos atrevimentos do chiraque das bombas atómicas, e esse a sonhar-se magno no triunfo de Argel (terá havido algum assessor a sussurrar-lhe que era apenas humano?) e a reinventar-se imperador, na recepção à francofonia alargada, dezenas de gabirús ali a fingirem-lhe o beija-mão, mas com esses não se importam os pacifistas europeus , claro que desde que fiquem eles quietinhos a sul de Ceuta ou lá para o leste dos Urais.
(ah, estou velho, aqui a lembrar-me do avô Giscard, aquele que agora faz a constituição europeia, que era o tal que recebia prendas privadas, diamantes entenda-se, do velho Bokassa. Enfim, tudo napoleónico, n’est-ce pas?).
Mas o que me irritou mais ainda foi aí por casa, tantos tão felizes a reviverem timor enquanto davam cor às velhas bandeiras dos velhos estalinistas (que delícia, aquela aia a dizer-nos que o Iraque é uma democracia, e o outro, um soares adepto da coreia do norte. E são deputados, pagam-lhes ordenado?) e às novas bandeiras dos velhos estalinistas (esse louçã, peremptório à altura “o koweit é uma província do Iraque”, um artista português!). Marchar com eles? Caramba! A Razão me livre!
Com tudo isto fiquei-me, aqui a achar que com tanto traste à solta é mas é de deixar o tio fazer o que lhe apetece, que o Diabo já veio e já escolheu.
Entretanto lá foram e hoje, daqui, adivinho os meus patrícios entretidos, a distrairem o congelado das refeições e os amores que já nem têm, defronte à TV, os mortos em directo, replay com zoom nos corpos esburacados, record os cadáveres para mais tarde recordar, tudo como se fosse a etapa da Volta, meta volante em Bassorá, reabastecimento em Al Fallujah, prémio da montanha em Umm Qasr, descida trepidante para Manda, fuga do camisola amarela já em Ba’qubah, sprint para Bagdad, vitória final, claro está, de Lance Armstrong. É a beleza do ciclismo!
(e, tv desligada à hora do jantar, fico-me a resmungar que de todos os trastes acima lembrados o mais filho da puta é, evidentemente, o “senhor telespectador”).
Súbito, cá no Maputo, li (terá chegado aí?, nos jornais liberais não vi) que “Ry Cooder foi proibido de viajar para Havana e de trabalhar com músicos cubanos...também foi multado pelo Governo dos EUA em mais de 100 000 euros por não respeitar uma emenda legislativa do país, a America’s Trading With the Enemy, que estabelece restrições a relações comerciais com Cuba...” [“Notícias”, Maputo, 25.03.03]
Bolas, no meio disto tudo cada um tem o seu quê. Eis o meu! Talvez seja nestes pequenos pormaiores que melhor se veja a taradice alheia, ou será miopia minha?
E de repente fico-me para aqui a lembrar de um tipo que mais ou menos inventou o próprio John Wayne, o qual quando um dia o foram chatear com coisas destas (até a ele!) lhes disse que se chamava John Ford e fazia filmes de cóbois, e com isto os foi mandando aquela parte. E devia ter razão.
Ok, aliás, Certo, isto tudo saiu meio confuso. Mas até é natural, esta é das difíceis, que era para dizer que depois desta estou pronto para desfilar com o Louçã.
Porra, ao que desce um homem!
Questiúnculas em Lisboa sobre a descolonização [meros reflexos de outras coisas, parece-me].
Mas mantenho-me fiel ao lema, que há poucos apontamentos me obriguei a relembrar: não me irritar. Ainda assim surpreende-me que se possa discutir a (des)colonização sem se discutir a colonização - parece-me um erro de lógica.
Mas com tanto lugar-comum apregoado é nítido que falam de si próprios e não tanto das realidades que invocam. Para falar delas bem que podiam ler [nota pessoal: ao escrever isto ando décadas para trás, estou igualzinho ao meu pai]. E, já agora, mergulhar no Companhia de Moçambique, coisa tão séria, e nada utilizável para pressas tonitruantes. Depois sim, podiam vir botar os discursos que quisessem, talvez mais informadosMas apesar do lema, não resisto a botar opinião sobre a descolonização:
e porque não tê-la feito uns dez ou quinze anos antes?
e, afinal, quem é que fez a descolonização? Não, não, não estou a perguntar se foi o sr. dr. a ou o sr. dr. b. É mais tipo se foi por aí ou por aqui que se fez.
[desabafo: que raio de país é o meu, entalado entre ultramontanos bolorentos e patrimonialistas fundamentalistas]