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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Vocês conhecem o Vicente Pereira? Está em Maputo há uns anos, veio como delegado da A.J. Costa Construções e depois passou para administrador da Construtora Mafrense e nessa altura, já com melhores condições, lá conseguiu convencer a mulher, a Piedade, a vir juntar-se-lhe acompanhada das duas filhas. Vivem aqui na Polana, ali à Rua da Argélia, numa vivenda geminada com um bonito jardim, aquele com a mafurreira na esquina, lindissima. É uma bela casa, aliás isso era condição para a mulher vir, que lá em Pero Pinheiro a família não está nada mal instalada, no género deles é certo. O Pereira é um tipo decente, certo que algo casca grossa quando bebe o seu copo a mais, tem boa fama na empresa apesar de ser do género insulto seguido da palmada nas costas, mas sabem-no um gajo justo, nunca ninguém disse que roubasse, e o trabalho vai sendo feito a contento. A apontar-lhe só mesmo o ser exaltado, um sanguíneo com o coração na boca, espero que não se venha a prejudicar por isso, este mundo não está nem para fraquezas nem para franquezas.
Conheci-o há uns tempos, num desses almoços de domingo em que por aqui se juntam os casais e desde então encontramo-nos para beber um copo ou visito-o quanto estou sozinho, e é melhor assim pois a Piedade fica mais à vontade no tu que partilho com o marido, ela finge que não mas faz cerimónia com a Inês, atrapalha-a a doutora. Gosto de lhes frequentar a casa, conversa simples em mesa farta, a rapaziada das construtoras tem sempre os nossos vinhos, o pior ainda são as bagaceiras lá da terra que se têm de beber senão é uma ofensa. É um bom ambiente, solto, uma família simpática que gosta de receber, mas não qualquer um, pois são gente arguta, aliás a mulher ainda o é mais, acho eu. As miúdas estão bem educadas e dão cor à casa, rondam os quinze anos e já devem andar por aí a partir uns corações. Não há dúvida, o Pereira é um tipo de família, vê-se no seu orgulho com os rebentos e no carinho bigodudo com que trata todo aquele harém. Terá a sua gaja de quando em vez mas isso não o distrai dos seus.
Na sexta-feira passada apanhou-me solteiro, a Inês tinha ido ao Chokwe nas cooperações, e muita questão fez em que eu fosse jantar lá a casa, um bacalhau trazido de Malelane, insistência à qual não me fiz rogado. Como convidados esperava o Vitorino, também sozinho pois a mulher está em Lisboa, o pai mal de saúde, e ainda o Abreu, sempre só ao jantar, este deixou a família em Lourosa e é por cá mouro de trabalho e de putas.
Chegámos todos antes do dono da casa, o que não nos atrapalhou pois ali estamos todos à vontade, a Piedade lá serviu o meu gin e as cervejas deles, e encetou a sua conversa de mãe, desfilando os progressos do filho mais velho que ficou em Lisboa entregue aos avós e ao Técnico e o rosário de preocupações com os crimes que vão acontecendo na cidade, que a assustam mais por causa das suas raparigas, agora numa idade em que as não consegue reter em casa, aliás nessa mesma noite tinham ido para uma festa em casa de uma amiga, a filha dos Borges, os quais confesso que não conheço, ele é mais um desses bancários ao que parece.
Nós a sossegá-la nos elogios aos filhos e lá chegou o Pereira, a desculpar-se, mas eram as complicações de última hora, nem tempo havia para um banho, ainda insistimos que o fosse tomar, ninguém estava com pressas, mas nem pensar nisso, "lavo antes a alma com um whiskizito e pronto". E bem precisada de alguns afagos lhe estava ela, via-se nesse cansaço de sexta-feira feito exaustão em quem trabalha aos sábados, pois os prazos das construtoras não estão para grandes repousos. Era óbvio, não estava nos dias dele, logo começou por protestar a ausência das filhas, em surdina defendida pela mãe, e não tardou a despejar os problemas, esta nova lei de obras públicas que ensarilhou ainda mais a vida das empresas estrangeiras, mais as complicações no hotel que estão a construir e bem atrasado está, mas isto não acompanhei com detalhe porque estava na sala de jantar com a Piedade que me fica sempre bem fingir que ajudo as donas da casa, e era ainda uma série de material urgentissimo que primeiro se atrasou em Durban e agora nunca mais se conseguia desalfandegar. Aproveitando um breve silêncio ainda tentei mudar a disposição, a puxar a conversa para a bola, mas ali diante de três benfiquistas tão sofredores a conversa não pegou.
Estávamos nisto e ei-lo estancado, a protestar com os vizinhos, que barulheira aquela! Realmente à chegada eu também tinha reparado na algazarra que ia na casa ao lado, mas nem comentei o assunto, poderia parecer indelicado, nunca se sabe. Ora ele é que não se calou, "mas que raio", começou, "o que é que se passa?". A mulher foi-o acalmando, que deixasse, ainda nem nove horas eram, e numa sexta-feira, era só preciso um pouco de paciência. Mas paciência não é o forte do nosso amigo, em especial naquele dia, e aquela também me pareceu questão antiga da casa. Entretanto lá se compôs a coisa, aliás foi aqui a influência do doutor, eu próprio, pus a Dulce Pontes a cantar um bocadito mais alto que o normal, e para escorropichar o aperitivo brindei aos nossos sucessos e à boa converseta à mesa, que os vizinhos já se calariam e tanto os camarões como o vinho verde fresquinho nos esperavam: "vá lá, Vicente, para a mesa, ou queres matar à fome os convidados?", sabendo bem que quando lhe chego ao nome próprio ele se desvanece.
Mas à mesa, e apesar da competência do cozinheiro, logo voltou à baila o assunto vizinhança, o Abreu, imprudente, foi perguntar quem eram. Ao lado vive uma família moçambicana, o tipo é Director Nacional, parece que das estradas ou coisa assim, ninguém tinha confirmado, casado com a D. Felismina, senhora simpática e prestável, afiançou a Piedade. Nem são maus vizinhos, defendia ela temendo alguma tempestade, gente educada, o problema é o barulho que por vezes fazem, as portas que sempre batem, conversas mais noctívagas, a música nas noites de fim de semana, mas nada de muito grave. "E a barulheira nas manhãs de domingo", frisava o Pereira, isso sim grave, as únicas em que ele pode não madrugar. O pior é serem imensos, nem se sabe bem quantos, estas famílias enormes, "coisas desta gente que só um antropólogo é que compreende, não é assim ó doutor?", ainda lhe saíu uma ironia o que na altura até pareceu bom sinal, e nem se percebe como é que lá cabem todos, é o Director, mais os filhos e os seus velhos pais, mais dois ou três irmãos e cunhados e respectivas proles, e as visitas que vão e vêm. Enfim, uma confusão, e ainda por cima não é nada seguro, dificulta o controle, os guardas da casa confundidos com tanto movimento sem saberem quem é quem.
Bem, o Abreu redimiu-se e teve artes de mudar de conversa, umas maledicências de patrícios, histórias mais ou menos picantes sobre um alentejano que por aí apareceu, essas cenas de import-export e quejandas, coisas de matrecos já dizemos nós, como se tivessemos gerações de África, incomodados com os recém-chegados. Mas súbito a gritaria aumentou, percebia-se "ai, ai, pai não nos faças isso", e pedidos parecidos. Acho que a dúvida foi de todos "querem ver que o Director está a dar porrada nas filhas?", "ou na mulher?". E aquilo continuava, "ai que eu morro, ai, ai", e então a Piedade afiançou que era a voz da D. Felismina, a esposa do Director. E surpresa ficou, pois o homem não é desses, pessoa tão calma, afável, nunca ela tinha ouvido tais histórias nas conversas de vizinhas ou de cozinha, mas também "hoje é sexta-feira, dia dos homens, querem ver que o gajo já está bêbado a estas horas?", e o Pereira então não estava a ser ilógico apesar dos desmentidos da mulher. Deu-me para apaziguador, ainda fui dizendo para se esquecer o assunto, a comida não estava nada má, e em breve os vizinhos se calariam até porque se havia discussão em família tão extensa alguém havia de por água na fervura, no que concordou o Vitorino com um "éh pá, eles que são pretos que se entendam".
Acho que foi isso que rebentou o Pereira, "nem pensar nisso, estou farto disto, estes pretos não respeitam nada!". A Piedade, algo enfastiada com o tom, levantou-se para ver como estava o bacalhau "e peço ao Lucas para ir saber o que se passa", e foi o pior, que era o que faltava "estou em minha casa, e agora mando o cozinheiro resolver-me os problemas", e enquanto a mulher foi à cozinha ficou ele para ali a resfolegar, "foda-se que não aguento mais, estes gajos lixam-nos a vida, e nem em casa descanso....não, não vou jantar com esta barulheira, estou em minha casa, vou lá calá-los" e, súbito, arrancou danado em direcção aos vizinhos. A Piedade voltava da cozinha, com o Lucas cozinheiro atrás com o bacalhau entre mãos, ainda o chamou mas só ouviu um ameaçador "tá calada, não te metas nisto que é coisa de homem", e lá foi ele com a mulher no encalço num "ai meu Deus, espera ... que te desgraças" e nós, claro, abandonámos a mesa e seguimo-los, meio hesitantes, cá fora ainda vimos o Pereira, enérgico, a tirar o apito ao guarda enquando voava pela porta aberta dos vizinhos, seguido pela mulher. "Vai fazer merda" murmurou o Vitorino que o conhece bem melhor do que nós, de outras aventuras ainda em Portugal.
E aí corremos também nós, entrámos casa adentro, o guarda atrás, o Lucas também mas já sem o bacalhau, e ali deparámos com o Pereira bem plantado no meio da sala apinhada, dobrado sobre o apito, estridente, afogueado, com tudo o que tinha dentro dele a sair-se pelo silvo, impondo o silêncio alheio, e toda aquela família, ainda maior do que o imaginado, estupefacta a olhar para ele. E após aqueles longos segundos de apito, uma autêntica eternidade, saíu um silêncio compacto sobre a casa, e aí ouvimos a Piedade, ali de costas para nós, já dentro da sala, falando serenamente rodeada de dezenas de olhares petrificados: "D. Felismina, o meu marido está a apitar contra os maus espíritos. Sabe?, na nossa terra quando morre alguém apitamos sempre para os afastar", e aí lá se levantou com custo a dita, mamana mesmo, interrompendo o pranto com "ai, vizinha, muito obrigado, muito obrigado, vizinho", e o Pereira esgotado, hirto no meio da sala, olhando abismado para a Piedade, lívido, silencioso, apito na mão desmaiada, e a recém-viúva "não pare, não pare, continue, por favor, apite", ao que a Piedade, heróica, a sossegou pois "já não é preciso mais, minha amiga, já se apitou o suficiente, eles já partiram", "acha, acha mesmo?", ainda duvidou a boa senhora e a nossa comadre que pronto, "os nossos sentimentos, logo que soubemos viemos com estes amigos só para saudar", e que estávamos todos à disposição para o que fosse necessário, e a mão dela conduzindo as costas do marido para a saída, para onde seguimos acompanhados pela D. Felismina atravessando aquela cortina de gente espantada, e antes que a incredulidade se levantasse já estávamos na rua, no portão, a entrar em casa, e só aí a Piedade conseguiu articular, "vê se te acalmas homem, nem sempre hei-de estar atrás de ti", "mas porque raio é que não me avisaste antes" ainda foi ele resmungar, e nós nada, que não era connosco, "pois estava o Lucas, a acabar de me dizer que o Director morreu esta tarde, e tu a sair que nem o Diabo". Caramba, "foste apitar na sala do defunto"...
Ainda levou um tempo para que eu me lembrasse de fumar um cigarro e depois, sangue-frio do Lucas, passámos ao bacalhau já requentado, comido mas não saboreado ao som do carpir vizinho.
O meu camarada Crespo, migrante constante e daqueles que nos abrilhanta lá (cá) fora, e que ainda por cima também é olivalense, acaba de regressar a Portugal vindo de longínquas paragens que não destas. E a anunciar-se escreve (também) isto.
"Cá estou de volta à terra...A missão correu bem ... mas nada que se compare com Africa na saudade. Gostei de ver que não te esqueceste dos Olivais...Gostei de te ouvir falar dos sítios e das pessoas. O café Modesto era paragem obrigatória cá para o careta. Ainda hoje quando vou almoçar a casa dos meus pais e lá que vou tomar café com o meu Cota. Por vezes vou com a Sofia. Gosto sempre de me sentar 5 minutos nas escadinhas a olhar para a praça e a relembrar o tumulto de motas e janados aos Sábados depois de almoço para rumar ao Rock Rendevouz. Tanto que custava arranjar os cento e cinquenta paus da entrada.
Enfim ler o teu texto fez-me lembrar velhos tempos e um punhado de desaparecidos, que cedo se afirmaram como predestinados a foderem-se cedo.
Um dos últimos foi o Pedro R.., rapaz do teu lado (Sul) e que encontrei em Angola. Numa das ultimas saídas pela Noite Lisboeta encontrei o C... que me disse que o Pedro R... havia morrido em Angola."
Tenho saudades tuas pá. E não há dúvida, nestas distâncias todas que fomos arranjando envelhecemos como o caraças. Então bebamos uma ao R..., que ainda me apareceu lá por S. Martinho do Porto, em tempos que lhe eram melhores.
E já agora, regista, não te souberam substituir por cá. E fica-te com Abraços!!