Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Por águas diplomáticas

por jpt, em 04.03.04
Sobre este assunto deixei passar uns dias, até de propósito à espera de reacções - irónicas que fossem -, mas também pelo corropio que o final das férias académicas me causou.

Há cerca de duas semanas despediu-se de Moçambique o embaixador chinês. A ter cumprido o natural período que as missões diplomáticas demoram Sexa. Embaixador terá acompanhado (e quiçá impulsionado) o muito saudável e visível incremento da presença chinesa neste país, ao nível empresarial e também de cooperação - é voz corrente que a APD chinesa é absolutamente ligada, ou seja os seus projectos implicam associação a empresas chinesas. Não sei se é absoluta esta afirmação, não acompanho a matéria, mas o tangível (e audível) afigura-o.

Mas não é isso que me leva a este escrevinhanço. Apenas a despedida do senhor embaixador. Pois por essa ocasião deu Sexa uma entrevista ao jornal Notícias, na qual se debruçou sobre a vida machambeira.

Aí referiu serem as mulheres moçambicanas as obreiras de todo o trabalho agrícola, enquanto que os seus pares homens se limitam a pequenos trabalhos iniciais (o desmatar), e pouco ou nada mais fazem, preguiçando e bebendo no restante tempo. E dizia ainda, no rescaldo da sua missão, que se por cá os homens trabalhassem como as mulheres o país se desenvolveria a contento.

Nem me atrevo a questionar da justeza das conhecimentos agrícolas de Sexa Embaixador, ainda que talvez um pouco urbanos. Mas quando amigos se aprestaram a narrar-me estas espantosas (e até pouco diplomáticas) afirmações, o esconjuro da preguiça moçambicana, não pude deixar de me interrogar: e se tivesse sido o embaixador de um outro país a sair-se com esta? O sueco, o argelino, o brasileiro (e já nem digo o português)?

Não cairia o Pott e a Fortaleza???

publicado às 08:25

O Senhor Pine Ataca de Novo

por jpt, em 04.03.04

O amigo Pine, exilado na apertada faixa entre estremadura e alentejo, enviou esta missiva. Após partilhar esta ma-schamba para exorcisar o luso estado surge, até poético, apelando ao por aqui...e transpirando essas saudades. Ocorre-me, ò das musas, que a vida não é um sonho. E apesar de tudo o importante é que se vá colimando. Daí que nada de desilusões...nem de ilusões. Grande abraço, e aqui segue transcrição:

 

Caro Ele,

 

Que alegria reler a Macaneta, recordar o Inkomati, regressar à Ma-schamba. Que alegria recordar os amigos de lá longe, de onde saímos com saudade . Que bom é saber que a Ma-schamba ainda tem uma Macaneta onde chegamos, comemos, torramos e banhamos. Um destes dias em que o sonho esteve comigo, sonhei com a Ma-schamba, com a imensa Ma-schamba de Pemba à Ponta do Ouro, com todas as Macanetas, Inhambanes, Quissicos, Ilha de Moçambique, tudo o que de bom vivi, sonhei que a estava a viver com a minha Ela, que ainda não conhece essa imensa Ma-schamba e que já a respira um pouco como eu. Mas sonhei mais, sonhei com uma Ma-schamba em que uma mulher chamada Luísa fazia a diferença, porque a governava, com calças, como alguns dizem, mas também com paixão e com saber, sonhei que essa Luísa estava a fazer a diferença e que as ruas da Ma-schamba, todas as ruas dessa imensa Ma-schamba, estavam diferentes, mais bonitas, mais floridas, mais arranjadas, com mais pessoas, com menos crianças abandonadas à sua sorte. Sonhei que essa imensa Ma-schamba renascia, com amor e muita justiça, que essa imensa Ma-schamba não pedia ajuda, oferecia trabalho, crescia por si só, mostrava a alma de uma nação. Sonhei que essa mulher de calças, que essa Luísa, fazia uma nova Ma-schamba, mais igual, mais rica, mais solidária, mais diferenciada. Sonhei que na capital da Ma-schamba existiam árvores que floresciam porque a Ma-schamba estava bem tratada e não porque a natureza assim o ordenava. Sonhei que na capital da Ma-schamba, como em cada uma das cidades e cidadezinhas da Ma-schamba, a minha Ela me dizia "que bonito, que povo sorridente, que povo bonito" e que eu lhe respondia que tinha sido uma Luísa, de calças, mas também de saia, porque uma Ma-schamba precisa de calças, mas precisa muito de umas saias que a tornem mais bonita e mais solidária. Sonhei. E no dia seguinte acordei com a tristeza de ver que não são as calças que fazem uma Ma-schamba, que essa Ma-schamba talvez tenha calças a mais e conteúdo a menos. Estou longe da Ma-schamba e por isso não sei se ouvi boatos ou se ouvi verdades, mas sei que, infelizmente, uma vez mais a culpa vai morrer sozinha, como morreram algumas crianças, como morreu uma freira. E são estes boatos ou verdades que fazem com que a Ma-schamba não seja a do meu sonho, que fazem com que as árvores floresçam só porque a natureza manda e não porque a Ma-schamba está mais bonita e mais solidária.

 

Um abraço, ainda não completamente desiludido do Pine.

publicado às 00:16


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos