Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
O amigo Pine, exilado na apertada faixa entre estremadura e alentejo, enviou esta missiva. Após partilhar esta ma-schamba para exorcisar o luso estado surge, até poético, apelando ao por aqui...e transpirando essas saudades. Ocorre-me, ò das musas, que a vida não é um sonho. E apesar de tudo o importante é que se vá colimando. Daí que nada de desilusões...nem de ilusões. Grande abraço, e aqui segue transcrição:
Caro Ele,
Que alegria reler a Macaneta, recordar o Inkomati, regressar à Ma-schamba. Que alegria recordar os amigos de lá longe, de onde saímos com saudade . Que bom é saber que a Ma-schamba ainda tem uma Macaneta onde chegamos, comemos, torramos e banhamos. Um destes dias em que o sonho esteve comigo, sonhei com a Ma-schamba, com a imensa Ma-schamba de Pemba à Ponta do Ouro, com todas as Macanetas, Inhambanes, Quissicos, Ilha de Moçambique, tudo o que de bom vivi, sonhei que a estava a viver com a minha Ela, que ainda não conhece essa imensa Ma-schamba e que já a respira um pouco como eu. Mas sonhei mais, sonhei com uma Ma-schamba em que uma mulher chamada Luísa fazia a diferença, porque a governava, com calças, como alguns dizem, mas também com paixão e com saber, sonhei que essa Luísa estava a fazer a diferença e que as ruas da Ma-schamba, todas as ruas dessa imensa Ma-schamba, estavam diferentes, mais bonitas, mais floridas, mais arranjadas, com mais pessoas, com menos crianças abandonadas à sua sorte. Sonhei que essa imensa Ma-schamba renascia, com amor e muita justiça, que essa imensa Ma-schamba não pedia ajuda, oferecia trabalho, crescia por si só, mostrava a alma de uma nação. Sonhei que essa mulher de calças, que essa Luísa, fazia uma nova Ma-schamba, mais igual, mais rica, mais solidária, mais diferenciada. Sonhei que na capital da Ma-schamba existiam árvores que floresciam porque a Ma-schamba estava bem tratada e não porque a natureza assim o ordenava. Sonhei que na capital da Ma-schamba, como em cada uma das cidades e cidadezinhas da Ma-schamba, a minha Ela me dizia "que bonito, que povo sorridente, que povo bonito" e que eu lhe respondia que tinha sido uma Luísa, de calças, mas também de saia, porque uma Ma-schamba precisa de calças, mas precisa muito de umas saias que a tornem mais bonita e mais solidária. Sonhei. E no dia seguinte acordei com a tristeza de ver que não são as calças que fazem uma Ma-schamba, que essa Ma-schamba talvez tenha calças a mais e conteúdo a menos. Estou longe da Ma-schamba e por isso não sei se ouvi boatos ou se ouvi verdades, mas sei que, infelizmente, uma vez mais a culpa vai morrer sozinha, como morreram algumas crianças, como morreu uma freira. E são estes boatos ou verdades que fazem com que a Ma-schamba não seja a do meu sonho, que fazem com que as árvores floresçam só porque a natureza manda e não porque a Ma-schamba está mais bonita e mais solidária.
Um abraço, ainda não completamente desiludido do Pine.