Email amigo faz-me chegar um artigo de Barata-Feyo sobre Cabo Verde, publicado na última Grande Reportagem.
Nele se aflora um total e radical paradoxo: como Cabo Verde teve sucesso na sua gestão política atingiu um patamar de desenvolvimento (escolaridade generalizada, cerca de 70 anos de esperança de vida, 1500 USD ano/per capita) que o integra num grupo de "países de desenvolvimento médio".
O que sublinha a competência e seriedade do seu processo independente. Mas também algo que arrisca impedir a continuação das ajudas multilaterais e dos juros bonificados nos empréstimos internacionais. Bem vindos ao mundo real, parece ser o mote, "desenrasquem-se" na global competição: a um país pobre de recursos naturais, onde a riqueza é (como se bem vê) a humana.
Em suma, punidos por terem sucesso. Punidos por competência e seriedade. Claro que não se pode ajudar tudo e todos. Tem que haver limites. É pois natural que UE, OSCE, ONU e outros, multilaterais ou bilaterais, prefiram apoiar aqueles governos/Estados realmente pobres: Angola, Congo, Sudão e desse género. Dificilmente exemplos de aplicação das ajudas internacionais, mas absolutamente integrados nos critérios de medição do subdesenvolvimento.
Esta notícia, a concretizar-se, será um paradoxo absoluto. Vamos ver se há ainda alguma racionalidade nisto tudo do "desenvolvimento", e se alguma dela está sediada nos organismos internacionais. E se assim se introduzem mecanismos correctores desta situação.
Muito honestamente creio que sim, seria um absurdo tão grande que deslegitimaria as próprias instituições doadoras. Mas mais vale estar atento.