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Voto livre

por jpt, em 12.03.04
Li ontem num blog (e não o registei, é pena) um pequeno apontamento que me ficou a germinar. Questionava o autor se será constitucional obrigar à disciplina de voto dos deputados à Assembleia da República portuguesa.

Não sou jurista donde, silogismo, não sou constitucionalista. Mas realmente a questão parece ter algum fundamento: como é que em democracia as pessoas podem ser obrigadas a votar de determinado modo? Sob pena de serem sancionadas, explícita ou implicitamente? Não haverá anti-constitucionalidade na prática da Assembleia? - o que não seria novo, há dois anos foram apanhados a aprovar leis com menos que o número de deputados constitucionalmente requeridos. Que me lembre era uma prática de décadas, e denunciada a propósito das importantissimas leis de programação militar e eleitoral, salvo erro.

(Diga-se que então ninguém foi punido. Repito, não sou jurista, pouco ou nada percebo de leis e da sua aplicação. Mas se a violação de uma lei pressupõe julgamento e hipotética punição porque é isso diferente aquando da violação da lei fundamental?).

E se o Tribunal Constitucional entendeu preocupar-se com o voto de braço no ar no PCP porque considerado anti-democrático, implicitamente constrangedor da liberdade individual dos votantes, não se deveria também preocupar com esta explícita coerção sobre os votantes na Assembleia da República? Parece-me lógico, mas enfim, repito-me leigo.

Já agora uma última questão, um pouco lateral. Sempre estranhei que os deputados dos partidos reclamassem liberdade de voto para questões especiais, eu chamar-lhe-ia as grandes questões. Como a recente votação sobre a IVG.

Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.

Assim sendo seria natural que nessas "grandes" votações todos votassem em massa, sem se apelar a qualquer "liberdade de voto" [diga-se que esta deveria ser constante, mas enfim]. E que no dia a dia pudessem votar diferentemente segundo as distintas percepções da acuidade ou legitimidade das propostas em causa.
Em suma, nunca percebi porque não exigem a liberdade de voto relativa à qualidade de um OGE, de uma qualquer lei sobre sardinhas ou reformas, para depois a virem reclamar quando têm que legislar sobre aquilo que, efectivamente, os deveria unir como um bloco partidário, ideológico e sensitivo.

publicado às 14:34

Cabo Verde

por jpt, em 12.03.04
Email amigo faz-me chegar um artigo de Barata-Feyo sobre Cabo Verde, publicado na última Grande Reportagem.

Nele se aflora um total e radical paradoxo: como Cabo Verde teve sucesso na sua gestão política atingiu um patamar de desenvolvimento (escolaridade generalizada, cerca de 70 anos de esperança de vida, 1500 USD ano/per capita) que o integra num grupo de "países de desenvolvimento médio".

O que sublinha a competência e seriedade do seu processo independente. Mas também algo que arrisca impedir a continuação das ajudas multilaterais e dos juros bonificados nos empréstimos internacionais. Bem vindos ao mundo real, parece ser o mote, "desenrasquem-se" na global competição: a um país pobre de recursos naturais, onde a riqueza é (como se bem vê) a humana.

Em suma, punidos por terem sucesso. Punidos por competência e seriedade. Claro que não se pode ajudar tudo e todos. Tem que haver limites. É pois natural que UE, OSCE, ONU e outros, multilaterais ou bilaterais, prefiram apoiar aqueles governos/Estados realmente pobres: Angola, Congo, Sudão e desse género. Dificilmente exemplos de aplicação das ajudas internacionais, mas absolutamente integrados nos critérios de medição do subdesenvolvimento.

Esta notícia, a concretizar-se, será um paradoxo absoluto. Vamos ver se há ainda alguma racionalidade nisto tudo do "desenvolvimento", e se alguma dela está sediada nos organismos internacionais. E se assim se introduzem mecanismos correctores desta situação.

Muito honestamente creio que sim, seria um absurdo tão grande que deslegitimaria as próprias instituições doadoras. Mas mais vale estar atento.

publicado às 07:00


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