Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Este comentário tem que vir para letra grande. Obrigado Eduardo.... [e calar os espantos e os inespantos das donas Fátimas ou Inêses, ainda que tão diferentes, é ser daqueles correctinhos. Muitos os farão, mas não o somos nós para as nossas mulheres mães filhas. Nem pensar. Saem mais abraços]
***************
Texto sobre "recepção diplomática":
Súbitos, os olhos culimam uma mashamba na Internet. Há ali, num belo retracto, algum sangue redesenhando o luzidio dos batons e as femininas línguas apalpando o quinino, o limão e o Gin. Descapulanizados, os amores, fazem corajosamente diplomacia por entre tiros e assaltos. É fresco o quintal ou a sala, apesar dos 30 e tal graus com que, descalços, uns pés rasgados em Michafutene agarram o pilão no verde da matapa.
A próxima visita do PM português a Moçambique recorda-me um pequeno episódio ocorrido aquando da vinda do PR Jorge Sampaio nos idos de 1997. Por essa ocasião a delegação portuguesa ofereceu um banquete bastante alargado, no qual não tive oportunidade de participar. Mas aqui em Maputo pude assistir à alguma azáfama que o antecedeu.
Foram então convidadas largas centenas de personalidades moçambicanas. Muitas habituais nestas situações. Mas era tal a dimensão que vários dos convivas estavam pouco rotinados a banquetes de Estado. Para mais ofertado por Estado estrangeiro.
Vivi isto um pouco como conselheiro de esplanada, a esses mais desabituados. Lá me apareciam conhecidos num apelo de ajuda: "ó teixeira, V. é que me há-de dizer o que significa isto". Chegavam agradados com o luso convite, quem não gosta de ser assim reconhecido?, ainda para mais quando dá para chegar a casa a dizer à cara-metade "prepara-te que temos banquete".
Mas aportavam também com um problema. Convites já recebidos, envelope timbrado, cartão impresso em relevo dourado, prova de "quem é quem!". Mas coisas de protocolo europeu em África. Pois lá vinha, formalissima indicação do traje de rigor. Inapelável nos homens o fato escuro. Ora para alguns fato sim senhor, agora escuro, preto, é que em terra destes calores não tinham. E lá me chegavam a pedir-me opinião, e eu a deixar-lhes ao critério próprio, que havia de fazer?Por essa altura trocavam-se os dolares numa loja de roupa na Baixa, a Milano - essa que agora está toda remodelada, modernaça, ali à Clínica Cruz Azul. Um dia passei por lá nesses intuitos e dei com a casa cheia, azáfama grande e inusitada. Encostei-me ao balcão e fiz-me desentendido na pergunta "então, muito movimento hein?", e os empregados a confirmarem, naqueles dias era um corropio de gente, todos a comprarem fatos pretos e a acertá-los. "É para o banquete", diziam até cúmplices aqui com este português.Mas mais preocupante era ainda a questão das senhoras. Pois no dito cartão-convite lá vinha especificado: vestido curto. E eu a adivinhar as inquietações lá nas casas, os maridos encarregados de me virem perguntar, entre intrigados e assustados, "vestido curto? mas curto quanto?, até onde, isto é para mostrar as pernas", até ao jocoso meio-desconfiado "mas é para se verem as pernas? querem ver as pernas das nossas mulheres?". Ainda que pouco sábio em tais matérias lá fui acalmando humores e temores, que isto eram coisas de costumes europeus, linguagem a evitar aqueles vestidos arrasta-chão. Que levassem elas saias normais ou então, caramba, os belos vestidos compridos por aqui tão usuais em dia de cerimónia.
Enfim, não houve dúvida, uma pequena distracção do nosso protocolo que veio provocar algumas fortes dores de cabeça em vários casais convidados. E até despesas.
Nos dias seguintes lá ia eu perguntando o "então correu bem?", e que sim, senhor, tudo normal. Não era nada demais, eram mesmo pouco curtos os vestidos pedidos. Não, não havia nenhuma malandrice ali. Afinal...