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Dentro de alguns meses decorrerá em Maputo a conferência dos ministros da Cultura da CPLP. Não estou particularmente expectante quanto aos seus resultados (quem o estará?), mas sempre poderá implicar algum processo positivo. Tenho as maiores reservas a estas conferências inter-ministeriais. Para mais quando tutelam áreas intangíveis, por norma secundarizadas e suborçamentadas. E, para cúmulo, quando agregam representantes de um organismo que não apresenta sinais de particular vitalidade, a esconsa CPLP. Mas, repito-me, esta conferência sempre poderá implicar algum processo positivo.

 

Há quinze dias um verdadeiro escol dos intelectuais e artistas moçambicanos esteve em Salvador a convite do ministério da cultura brasileiro para participar num encontro preparatório da citada conferência. Também os outros países africanos da CPLP estiveram representados a nível governamental (à excepção de Moçambique) e por personalidades da área.O carácter inusitado desta reunião preparatória deixa adivinhar algumas dinâmicas, ao demonstrar um novo interesse brasileiro nas relações culturais com os países africanos (e não só da CPLP):

 

a. o interesse do seu próprio ministro da cultura na dinamização das ligações com a área cultural africana (Gilberto Gil, está claro; reunião em Salvador, “sede” do sincretismo);

 

b. um sinal (mesmo que secundário) de um novo interesse do Brasil de Lula no desenvolvimento das relações Sul-Sul, o anunciado estabelecimento de laços multilaterais que o reforcem no diálogo com o Norte (o celebrado eixo Brasil-África do Sul-Índia; e para quando a Indonésia?);

 

c. e, por silogismo, uma diferente concepção do intercâmbio cultural. A procura de uma maior simetria (ainda que o “etnocentrismo” brasileiro e o seu desconhecimento das realidade africanas venha sempre ao de cima, diz quem sabe) nas relações culturais; a percepção do capital político que os laços culturais poderão vir a assumir, cimentando relações no futuro.A um outro nível o encontro de Salvador reforça a ideia da relativa ineficiência da CPLP. Pois muito do que ali foi discutido já teria sido protocolado em 2000, não tendo sido possível percorrer caminhos nesse sentido. Mas valerá a pena insistir.

 

Essencial terá sido o facto de Portugal não se ter feito representar. Nenhuma personalidade enviada. [Certo que Boaventura Sousa Santos abriu e encerrou a reunião, mas sob convite brasileiro. Ao que consta um discurso ideologizado que não dinamizou em particular as delegações africanas. Mas ao gosto do actual poder brasileiro. E, presumo, que em contracorrente do actual poder português. Assim, talvez um pouco inibidor de congregações na prática cultural que aqui se desejam. Mas enfim, será porventura um vulto incontornável.]
 
Mas por iniciativa própria nenhuma delegação portuguesa acorreu a Salvador. Nem personalidades, nem representação governamental. Ao que dizem apenas uma figura mui secundária da administração pública, que pautou a sua presença por uma total discrição.Repito, pouco haverá a esperar deste tipo de conferências. Mas a ausência portuguesa (hiper-notada, hiper-criticada) demonstra uma “ciumeira” (hiper-sic) para com o Brasil, além da evidência do desinteresse efectivo com a CPLP. Fiel ao que aparenta ser o verdadeiro rumo português: o da manutenção de laços bilaterais, reduzindo uma multilateralidade que potencie a autonomização dos países africanos. Concepção de evidente anacronismo e incompetência, pois a autonomia está aí há já muito e chama-se independência. E integração regional. E internacionalização.
 
Mas algo mais transparece. A total desvalorização de uma aposta na constituição de redes culturais institucionalizadas, ou seja de condições para intercâmbios estruturantes, que ultrapassem as cíclicas “embaixadas ao papa”. A desvalorização destas redes é um efeito de puro economicismo e politicismo, dever-se-á ainda à ignorância das possibilidades do tempo (mais) longo do cultural. Mas o abandono do desenvolvimento dessas redes indica também a incapacidade de serem elas conceptualizadas e executadas.Finalmente esta perspectiva é ainda devedora de uma inócua, porque irreflectida, valorização da língua como vector de união. Falácia que no fundo é apenas a legitimação da desistência da actuação no domínio da colaboração cultural (entre outras). Até porque desprovido o Estado português de instrumentos institucionais para a desenvolver, inexistente a política africana do Ministério da Cultura, extinta a Comissão dos Descobrimentos, transformado(pacificamente) o Instituto Camões num instituto de língua.
 
Nota de rodapé: pode ser (talvez, talvez) que a não representação portuguesa neste evento se prenda com outros factores. Que seja um torcer de nariz não isolado a algum voluntarismo de Brasília (ou Salvador). Nesse caso (que não me pareceria totalmente descabido) uma correcção diplomática, que se saúda. Mas que por si só não invalida alguns dos entristecidos desabafos lá de cima.

publicado às 06:21


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