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Segue-se abordagem a alguns dos episódios mais hilariantes que vivi em Moçambique, deles tentando retirar explicação de teor antropológico. Para alguns poderá parecer de mau-gosto fazê-lo hoje. Mas não, não procuro qualquer sarcasmo, apenas entender um fenómeno que sendo cómico não se restringe a isso. Escrevo-o aqui por respeito, não por desrespeito. Respeito por nós todos, aqui e acolá. (E em linguagem o mais curta possível, dado que blog). O respeito de tentar compreender o inusitado.

 

 

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Em 1997 o Presidente da República Jorge Sampaio visitou Moçambique em visita de Estado e ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Em 1998 o Primeiro-Ministro António Guterres visitou Moçambique em visita de Estado e também ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Tive o privilégio de comparecer a ambas. Bonitos eventos, sentidos e elegantes, momentos até rituais de congregação dos nacionais aqui residentes, os quais não constituem uma comunidade, faltando-lhes para isso qualquer organicidade. Facto que será explicável pelas diferentes origens sociais, geográficas e culturais dos patrícios aqui residentes, bem como pelas acentuadas diferenças biográficas, muitas fruto da conturbada história nas últimas décadas dos portugueses em Moçambique.

 

Mas voltemos às recepções. Ambas assumiram o mesmo molde, com cerca de 3 mil convidados presentes numa tenda gigante colocada nas instalações do Hotel Polana. Foram então servidos vinhos portugueses e queijos da serra, um agradabilissimo menu, ainda para mais com tais produtos dos quais aqui se têm tantas saudades.

 

Nessas ocasiões surpreendeu-me a quantidade de compatriotas que, quando assim o entendiam, se retiravam acompanhados de queijos da serra debaixo do(s) braço(s), alguns já encetados, outros ainda por inaugurar. A posteriori, entre o embaraçado e o indignado, alguns convivas de outras extracções afirmavam que tais práticas seriam dos portugueses de origem indiana, aqui bastante numerosos, não esquecer que Goa foi um alfobre do império. Mas posso afiançar que não é isso verdade. E não há nada de ideológico nesta minha negação. É pura empiria, observação directa, até atenta (e divertida?). Este costume, o da " apropriação ritual dos queijos da serra" cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais.

 

Em 2001 o Presidente da República e o Primeiro-Ministro visitaram Moçambique por ocasião da cimeira de chefes de estado da CPLP. Nessa altura foi ofertada uma idêntica recepção, decorrida no complexo Mini-Golf. Algo diferente pois os queijos da serra foram então acompanhados de presuntos. Estes apresentavam-se laminados nos pratos, e com abundância, mas também no seu formato tradicional, pendurados sobre as mesas, servindo de decoração.Após as conversas breves e os múltiplos cumprimentos típicos destes eventos encostei-me a uma mesa conversando com a dona do estabelecimento, minha conhecida desde os tempos em que aqui cheguei. Estava ela controlando os acontecimentos, ainda que o espaço tivesse sido alugado e, portanto, a sua responsabilidade executiva diminuta.

 

Enquanto conversávamos pude comprovar ao espanto, até terror, dos seus empregados, várias vezes dirigindo-se-lhe em pânico "D., o que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos!", perigando até a decoração. A senhora, estupefacta, ainda procurou o meu conselho, "o que é que eu faço?", e eu só me ria, "que fazer?", e ela "ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço?", até aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções. Lá lhe fui passando a minha modesta opinião, de experiência feita, que nada, que se ficasse ela quieta. Então não tinha alugado o espaço? Aquilo era oferecido na recepção, e no entender dos convivas era para levar, não tinha nada a ver com o assunto. Ela que se deixasse ficar. Assim mais sossegados bem se riram, ela e os empregados.

 

Estes episódios são já tradição. Surgem recorrentemente nas conversas. Narram-me ainda que aquando da visita do Presidente Mário Soares também os convidados saíram de mala cheia. E quando o Presidente Eanes visitou Maputo, em 1981, até pancada houve à porta da recepção. De todos estes episódios pode-se pois retirar um padrão comportamental. Que ultrapasse o jocoso. Em meu entender este é já um comportamento tradicional, aquilo que a velha etnografia chamava de "usos e costumes", presente entre alguns extractos da comunidade portuguesa. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas.

 

Trata-se dquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como "a apropriação ritual dos queijos da serra" (e em calhando dos presuntos). Presumo que isto possa ser interpretado desta forma: largos extractos dos portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, sentem-se abandonados ou desprezados pela sociedade ou pelo seu Estado. Fruto da história complexa deste país, da descolonização. E também das levas de migrantes colonos desfavorecidos, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando algum apoio estatal. E não esquecendo o estigma do "português de segunda". E também de gente que por cá está e sente uma lassidão nos laços com o Portugal de origem, sempre desejáveis de reafirmar.

 

Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de (extremo) apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns extractos sociais, e neste caso explicitamente naqueles que não eram os mais favorecidos, nem nisso se tornaram.

 

Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.
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Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Mas de olhar antropológico atento, procurando comprovar se o ritual se repete. Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão.

publicado às 23:28

Aprendi o hino nacional na escola primária. Trinta anos depois ainda me lembro das invectivas da professora sempre repisando que não se devia gritar no verso "às armas" mas sim no final "marchar, marchar". Desde então cantei o hino meia dúzia de vezes, sempre a plenos pulmões. E sempre no futebol. Não sei a letra de cor, só a consigo reviver em grupo. E muito possivelmente será essa a sua missão, ser cantada, revivida em grupo.Sei que é ela uma sobrevivência. Algo muito datado e quixotesco, ainda que se tenha (avisadamente) substítuido os "bretões" inimigos por idênticos "canhões". Há anos Alçada Baptista propôs a sua substituição, o que lhe causou a perda da tença estatutária. Tinha ele toda a razão objectiva. E nenhuma razão subjectiva.No hino nacional não interessa verdadeiramente o que se está a cantar. Interessa sim cantar. Um símbolo aglutinador. que vale outra coisa do que é. (Um caso em que o real, a canção, é mera aparência).[Lembro-me de ser adolescente rebelde e desrespeitador de tudo o que me impingiam. Um imbecil, em suma, ainda que carregado de acne e medos. Certo dia fui à festa do jornal Avante, não me lembro se isto se passou no ano do Chico Buarque ou dos Dexys Midnight Runners. Mas lembro-me que apesar de ser tão atrevido ter ficado completamente escandalizado: houve um discurso antes do espectáculo e cantaram o hino. E os assistentes cantavam-no de punho no ar, uma violação clara do sentido que julgava (e julgo) devida à infausta canção mas orgulhoso hino.]A propósito de quê, esta conversa? Pois hoje a TV5 transmitiu em diferido o França-Inglaterra do torneio das 6 nações (raguebi, claro). Eu, e desde que Gales não esteja em campo, torço pela Inglaterra: Gales, pois lembro-me do Barry Jones (mal, é certo), mas muito bem do seu sucessor Phil Bennet; do Gareth Edwards; do John Williams, do JJ Williams, do Gerald Davies, do Fenwick. É óbvio, era miúdo demais para perceber o jogo dos avançados, não me lembro deles. Mas todos eles fizeram-me um bocadinho galês, durante essa década de 70.Mas se eles não estiverem é a Inglaterra. (O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...).Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lamento-me eu, desalentado.Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.

publicado às 23:00


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