[Penso que é quase universal e quase obrigatório. Quando conhecemos algo e surge um jornalista a escrever sobre isso desgostamo-nos, a análise parece sempre superficial ou falha. Não apenas devido a diferenças de pontos de vista ou afectos. Será também devido à visão do jornalista-generalista, sempre mudando de contextos e temáticas. Somos críticos, mas face ao corropio que é a vida deles não podemos ser impiedosos. Há que ser crítico mas atentar nisso, reconhecer melhor e pior.]
Ontem, inauguração da exposição de Malangatana (maldito scanner) e lançamento do seu livro. O que nos rimos, quase até às lágrimas, quando alguém narrou o último artigo sobre o tráfico de orgãos em Nampula. Eu já nem tinha lido. A jornalista foi até junto da "praia de Caetano Veloso" onde "Os pescadores não falam em barcos supeitos, apontam a linha férrea, o sentido Maputo, África do Sul".
Repito, o que nos rimos, compungidos até. Para quem não sabe, porque nunca lá foi, a praia é Fernão Veloso. Dirão "ok, um pequeno erro, acontece, nem é importante..." e eu até concordaria. Mas a linha férrea não vai para Sul, em direcção a Maputo. Vai para Oeste, em direcção ao Malawi. O que é uma característica crucial de toda a vida da província. O que é uma característica crucial do Moçambique colonial e nacional, os corredores ferroviários atravessam transversalmente o país, da costa ao Malawi no Norte, da costa ao Zimbabwe no Centro, da Costa à África do Sul no Sul. O caminho-de-ferro não conecta sul a norte. É das primeiras coisas que se aprendem quando se chega aqui. Pela sua importância e pelo que demonstra das articulações existentes, a todos os níveis.
E também porque se vê. Basta olhar para o sol.
Não há dúvida, a jornalista perdeu os pontos cardeais. Ou seja, perdeu o norte. Literalmente. Não se diga que há má vontade nas críticas ao seu trabalho. Só piedade.
Ah, o seu a seu dono. Chama-se a jornalista Ana Cristina Pereira. E o fotógrafo, que decerto se preocupou com a luz do Sol, também não lhe disse onde estava o norte. É ele Fernando Veludo.
E, já agora, o dono de tão especiosa prosa chama-se Público.