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A Praça da Coca-Cola

por jpt, em 30.04.04

 

Foi na minha primeira vez na Beira. Numa praça bem central como monumento a estátua da Coca-Cola, ali permitida em troca do restauro efectuado.

 

Magnífica simbologia. Derrubada a iconografia colonial, então em stand-by os símbolos nacionais, com o abandono do comunismo e o advento do multipartidarismo. E assim o Estado a hesitar nos caminhos rituais, a assumir como seus os símbolos ícones do consumo: a praça da Coca-Cola.

 

A imagem aqui valendo um ensaio todo.

publicado às 13:00

Nestes últimos meses em Portugal falou-se de descolonização. Também no bloguismo isso soou. Cada vez menos acredito em sínteses. Cada vez mais acredito em complicações. Ainda mais em matérias como estas, onde tantas "certezas" existem. Ainda para mais em matérias como estas, que para muitos de nada valem a não ser como barro para moldar o presente.

 

Então, e face a tantas "certezas" e tão pouca importância do assunto, para quê continuar a falar, para quê procurar "complicar", desvendar?

 

Não há dúvida, há que simplificar, abreviar. Mas como se de tão difícil síntese? Opte-se. Opte-se por uma versão.

 

aqui, e se quiser consulte ainda aqui. Depois passe por aqui.

 

É certo que não estão a falar dos mesmos factos, das mesmas épocas históricas. Nem do mesmo mundo, diria. E também que não escrevem na mesma língua.

 

Mas acredito que o leitor consiga fazer uma analogia e, ainda, seja minimamente poliglota.Leia e opte. Porque não há conciliação possível.

 

Estou a falar de qué? Descolonização? Não, isso já era. Agora é coisa séria...estou mesmo a falar da minha ética. E de Razão.Opte, porque não há ponte possível. E saiba, que é em momentos como estes, até pequeninos, que sabemos, que provamos, que o universalismo é impossível.

 

Pois "eles" (sejam lá quem forem) não nos (e nós quem somos?) querem compreender. E nós (idem) também não os (aspas) compreendemos.

 

Vale-me às vezes ser "nós" às vezes ser "eles"! Mas há limites: bem burgueses os meus, os da decência. E, neste caso como noutros, são "eles" apenas e radicalmente indecentes.

 

Nada mais, tudo isso. E cansam. Enjoam, até. Mas atenção, "estes eles" nunca se enjoam. Mascam...

 

Adenda: um posteiro veio à liça chamando-me eliptico, querendo chave. Então lá vai, qual antropólogo:Era uma vez um antropólogo conhecido que escreveu algo como (e vai de memória): "bárbaros são aqueles que acreditam na existência de bárbaros".

 

Eu sou um bárbaro. Desses.

publicado às 12:59

As Estradas do Niassa

por jpt, em 30.04.04

Entre Congerenge e Mandimba são 40 kms a subir via oeste, todos entre milho, mato e tabaco, tendo pela frente, intrometidas no caminho para o sol, essas montanhas Malawi. Mas se se estiver a fugir do norte, rumo a oeste também, é ainda mais bela a rota, coisas de descer para as montanhas. Venha-se de onde vier é sempre má a estrada, boa para cautelas e vagares, os quais vão demorando o entranhar desse horizonte azul acastanhado. Convém viajar cansado, pois ali quanto maior for a exaustão mais cada um vai acreditando nos seus deuses, se os tiver, ou pelo menos na felicidade, se daqueles estiver privado. Como se algo fosse existir lá em Mandimba.

 

Mas não, talvez alguns ídolos quanto muito. Água nos canos, a surpresa por a haver onde é, e electricidade. Abençoada, que ainda refresca as cervejas, e que vai deixando a roufenha discoteca a céu aberto, as ténues luzes chamando milhentos mosquitos, "pagas uma bebida, tio?", putas de fronteira neste ermo, "claro, mana", "pagas também à minha prima?", "vá lá, uma rodada", Castles que são aqui um elixir de velhice, meninas pesadas, tão cansadas já andam elas nestas noites, "vieste viver aqui, tio?", e eu envelhecendo com elas, "vá lá, bebe a cerveja", até que algum assimilado venha dizer para não incomodarem o senhor doutor, que raio sempre são putas de ermo, sem ver que já são fronteiras do meu carinho. "Que andamos a fazer às sobrinhas?" pergunto a um velho chefe de aldeia, e ele a lamentar-se, essas mulheres que não respeitam os ensinamentos, fogem da machamba, vão-se vender nos mercados, os homens que compram, e todos aceitam, "é a democracia", conclui desiludido. "Não será a machamba?", não lho pergunto eu, ou não será tudo a mesma coisa?, respondo-me agora que já ouvi esses jovens, secos, "os nossos estudos acabam no capim!".

 

Num coito da estrada um colega gringo, quatro anos bem mais a sul em programas de luta contra a doença, resmungando que é uma batalha perdida, que ninguém se protege, são os velhos hábitos e a pobreza, e agora tudo isso reforçado pelo brotar destas igrejas cristãs, elas próprias crescendo também pelo pavor da praga, uma nova morte toda-poderosa, pastores pastoreando contra o fumo, o álcool e as camisinhas, o pacote de pecados. Nem interessa se as estatísticas são exactas ou exageradas, seja como for passeamo-nos por aqui dizendo-nos a desenvolver este mundo, por ora feito de mortos-vivos. É ele mesmo que fala, não o alcool da desilusão, uma mera coca-cola na mão, nega que qualquer campanha valha como prevenção, nada disso está a funcionar e, súbito, desgringa-se todo, que o que resta fazer é distribuir esses novos medicamentos por toda África, é a única forma de aguentar isto até se chegar à cura. "E há dinheiro?", provoca o cínico, e ele de filho-da-puta para cima sobre os gajos do Banco Mundial, a insistirem na prevenção porque isso dos medicamentos lhes sairia caro, mesmo que os indianos se ofereçam para os fazer três vezes mais baratos do que as nossas (dele) indústrias. "Caro?, tanto como uma guerrazinha no Afeganistão", vai acabando ele e o nosso tempo. Que tenha cuidado, se continua com este tralálá ainda o expulsam lá do midwest dele.

 

Quero surpreendê-lo com novidades aqui do Niassa sobre o assunto, onde a população crê que a doença se apanha mesmo é através das camisinhas, vem nesse líquido que as lubrifica. Bem racional é esta visão, o empirismo do agricultor, pois se antes delas chegarem não havia doença como não lhes atribuir a praga? Encolhe os ombros, lá mais a sul também há a mesma crença, e todos as evitam. O que fazer?, ele vai pagando os novos medicamentos, caros de mil dolares/ano, a dois amigos moçambicanos, outros colegas dele também o fazem: antes as más consciências tinham o seu pobrezinho privativo, agora passaremos a ter o nosso doentezito só nosso. Mas poderemos fazer algo mais do que trocar alguns anos de vida alheia pelo lugar num céu qualquer?

 

Avanço, saio da terra batida nacional e logo, logo, começam os verdadeiros problemas, como andar por aqui? No Maputo todos, changanas ou expatriados, aconselham cuidados vários com as doenças do Niassa, evitar a água, fugir aos pântanos e rios, às noites e canaviais, que trazem malárias e bilharziose, e outras maleitas. Mas quem assim avisa terá por aqui passado?, como seguir os conselhos se de imediato nos atolamos, e este ano ainda mal começou a chover? E são horas dentro de pântanos, riachos, da lama, e todos a empurrar, sorte que sempre vai chegando o povo, e assim se juntam as dezenas de homens necessários para que se possa avançar mais um pouco, gente tão isolada que ainda de ajuda fácil. Por aqui não há carros a passar, não é apenas o estado das estradas que o diz, são mesmo os condutores, é óbvio que não andam por aqui, tão desabituados que atolam em sítios onde nem mesmo eu me ficaria.

 

Numa aldeia peço água para lavar toda esta lama. Acorre o intérprete "não vá ao poço", e eu ofendido "claro que não", "achas que sou parvo ou quê?", mas isso já não lho digo. Que raio de ideia, um estranho a ir para o poço local é mesmo pedir problemas. Mas logo ele se desculpa. Que o ano passado por aqui houve uma epidemia de cólera, "sim, eu sei, foi terrível". E claro, logo vieram os prestáveis socorristas, prontos a sensibilizar a população para cuidados variados. Então, ali em Marrupa, um patrício meu, "decerto cooperante", resmungarei, se de ong se de Estado não sabiam, mal chegou onde os aldeões morriam de borrados correu a fotografar o poço, para pôr no relatório ou mostrar à mulherzinha nunca saberei. Claro está que, envenenador, foi bem batido, directo para o hospital. Mas quem manda estes idiotas?

 

Paro, devagar, numa aldeia Yao, coisas de antropólogo e dos seus velhos livros, lembrando um tipo que andou por aqui há muito tempo a ver e a escrever bem, esse Clyde Mitchell. E há bem menos anos também passaram uns evangelistas ambulantes a projectar filmes sobre a bíblia, como se a imagem em movimento fosse mais forte que o islão local. Enquanto os meus parceiros tratam dos seus afazeres encosto a uma sombra, logo rodeado de dezenas de crianças como por aqui sempre acontece, curiosos que a gente da minha cor não tem aparecido. Olhos bem abertos vão eles murmurando e, de repente, sai uma gargalhada entre os meus acompanhantes, "que foi?", pergunto, e eles com sorrisos do tamanho do mundo a dizerem-me que ali julgam que pareço "iesso", "o quê?", que os miúdos me acham igual a Jesus. Nem preciso do espelho para saber que o meu riso de ateu sai estúpido de ternura.

 

Se já a cidadezinha é recôndita o que não dizer destas perdidas aldeias, tudo isto longe do mundo que mexe, dos seus andares e conflitos, este um outro mundo parecendo desprovido de informação e saberes. Em cada sítio logo visito os pobres mercados, o piscar do olho à economia local, a sentir como se é por ali. Por todo o lado à minha passagem raros são os apelos ao negócio que pouco há para vender, e sempre me seguem os mesmos rumores, a mesma ironia espantando o espanto da minha presença, e a qual deixo correr nas minhas costas, o que dizer? Só na noite me confrontam ostensivamente com ela, entrando em casa soa no escuro o grito provocador: "Bin Laden, Áfinal,... você está aqui!?". A globalização?

 

Uma sede administrativa, mais de trinta casas de alvenaria, quase todas abandonadas porque propriedade dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que prefere arruiná-las a cedê-las. Uma delas é a cantina, vazia, de Saíde Jonasse, avantajado machambeiro em região de gente esquálida, mais gordo até do que eu, um barbudo muçulmano de olho em todos estes meticais que me dou ao trabalho de transportar. Entro para almoçar, pôs-nos a melhor toalha, um plástico com uma fotomontagem berrante de colorida. Encimada pelo horizonte de Manhattan está uma praia tropical, coral e palmeiras, uma estranheza made in Japan, "calamidade" decerto, e da qual desconhece o conteúdo. Divertido, pelo absurdo do estampado, e por ver o ignorante orgulho com que me põe a rija galinha sobre as falecidas "Torres Gémeas", digo-lho e sai em alvoroço, lá na cidade já tinha ouvido falar do assunto. Ainda duvida, mas depois pede-me uma fotografia, não lha posso negar, sentado, o cotovelo pousado no coral tropical, a mão nas torres que já não o são.

 

A galinha do dia seguinte já a como no tampo de madeira.

 

O Chitengue, breve afluente do Lugenda, uma pequena picada que o bordeja, estreito caminho de andarilho ou, quanto muito, de bicicleta. Entre o canavial e o bananal um sol de tarde moribunda inunda o amarelo dos frutos enquanto faísca nos charcos. No caminho, barrada pelo carro, surge uma muito bela mulher, chapéu de sol arco-íris como é aqui usual, capulanas garridas ocres e amarelas. Não resisto a roubar-lhe a beleza exótica, todas aquelas cores enroladas em bananas luzidias, mas mal abro a porta logo ela foge, corre desabrida até que a percamos de vista, aos gritos "é a morte, é a morte!!", traduzem rindo os meus companheiros. Serei assim tão feio? que espelho fui aqui encontrar, do físico ou da alma não me apercebi. Um pouco à frente encontramo-la já acompanhada por um homem, e todos a sossegam, desfaço-me em desculpas. Aí, diante dos elogios à sua beldade, digna-se a pousar agora fazendo-se sedutora e eu, nu de tontos pruridos, saio contente com o estereótipo apanhado, como se meu antepassado fosse.

 

Marchamos para a aldeia Namicoyo, ladeando um riacho, o capim abraçando a picada, e como sempre que se trata de andar vou ficando para trás. Lá à frente, escondidos por uma curva, os meus acompanhantes cruzam um grupo vindo das machambas, percebo-o pelos inúmeros "salaama" que se trocam. Quando avisto o velho que marcha à frente da sua gente saúdo-o, mas ele estanca sem aceitar este meu "salaama", que "aqui não há salaama", e eu sem perceber, "aqui há fome, ouviu", diz-me em português, "agora há fome!". Eu, institivamente, abro os braços algo aparvalhado pela investida, como que reclamando a minha inocência, desculpando-me da fome, tal como se tivesse quaisquer divinos poderes sobre essa chuva que chegou meio tarde para o milho, e ele insiste, "há fome, vá dizer isso", e eu a ver-me, estúpido, de braços e olhos abertos. Nem lho respondo, mas que tenho eu a ver com o clima?, o "fazedor de chuva" quanto muito é ele ou o seu chefe, nunca eu. Dá-me as costas, e lá vai com a família, deixando-me a resmungar a minha óbvia impotência, mas que raio, maior do que a dele.

 

Nas estradas campos e campos de tabaco, é aqui que se faz o que me vai matando. Para obterem um pouco de dinheiro os camponeses cultivam-no e descuram o milho, que o trabalho não é elástico e tem limite. Depois, lá mais para a frente, logo antes da época da colheita, gastam esse pouco dinheiro para comprarem, então bem caro, o milho que precisam para comer. Custa gerir o equilíbrio das culturas, o das reservas e ainda mais o das expectativas. Ah, e é aqui impossível gerir o equilíbrio dos preços pagos pelas companhias, ditados por uns tais de mercados mundiais. Enfim, lá vão eles, quase sempre a perder, dir-se-ia, se não parecesse cinismo.

 

Portanto há que organizar e trabalhar melhor, e para isso lá se chamam os tipos do Desenvolvimento, e eis-me aqui aos dolares. Hoje acompanho um regente agrícola, gente do sul, estudos no estrangeiro, saberes complexos. Jovem ainda, barriguinha quase tanta como a minha, mas um rabo maior, assim sendo um S de cintura mais vincado que o meu. Caminhamos uma manhã pelas machambas a par dos seus cultivadores. Contente, frenético, vai protestando com a falta de qualidade das culturas, o mau trabalho, a fita métrica saindo-lhe amíude do bolso de trás, quase tão rápida como as suas palavras, medindo a incorrecta separação entre as plantas, invectivando a uma melhor organização, e os camponeses sempre aceitando as suas opiniões, ele sorridente, rápido, pedagógico, o seu S mexendo-se mais rápido do que todos nós.

 

Simpático, partilhamos um cigarro, enquanto lamenta a incapacidade dos camponeses, que este sistema não funciona, nem conseguem articular as produções nem aumentar a produtividade. E para isso é necessário investir, resumindo, há que privatizar a terra para que haja investimento, crescimento. Ainda lhe pergunto se esta gente terá capacidade de o fazer e de o gerir, e ele sorri, veterano já, "Nada, estes não conseguem", e enquanto eu procuro saber o que lhes acontecerá nesses privatizados dias, logo feitos os sem-terra daqui, ele nada diz pois já partiu, a fita métrica de novo aberta entre o feijão-boer, provando numérica e metricamente o erro feito por este homem, o qual com ele vai concordando, acenando a sua anuência, em outra língua é certo: ali, face às colinas, lembro-me da velha expressão "tá bem, abelha!", mas como traduzi-la se nem eu mesmo a compreendo bem.

 

Por falar em Desenvolvimento alguém passou por Mezito e ofereceu uma moageira a um outro alguém a quem chamou "comunidade". Entretanto houve alguns problemas e a aldeia decidiu afastar os dois moleiros. Fez-se reunião da população e indignados ficaram os acusados, ainda para mais porque o guarda não seria despedido. E do afastamento deste seu colega não prescindiam, como se a vergonha do castigo fosse maior se não fosse este universal. Mas não foi esse o entendimento colectivo e, vingativo, logo ali um moleiro ameaçou publicamente o guarda de que "não passas deste ano, hás-de morrer em breve".

 

Mas João Bitong não se cuidou do feitiço, ficou no seu posto, que ainda lhe rende algum e será menos pesado do que o dia-a-dia de machamba, e desta se ocuparia a sua mulher. Pois em breve, no regresso a casa, foi atacado por bicho estranho, ouvi dizer que leão-homem, mas ele nega, era antes uma mistura de leopardo e lobo, este último animal por aqui inexistente. Sorte dele, conseguiu lutar com esta fera encomendada e fugir-lhe para a sua aldeia, mas agora desfeado já sem nariz e boca, tal como o vim encontrar meses depois. Grave a situação, logo sete homens o transportaram até ao régulo, de onde seguiu para o hospital onde ficaria vários meses, entre vida e morte. Mas logo nessa noite o bicho, vingativo, assaltou e feriu todos esses sete homens, só sendo apanhado quando sorrateiro penetrava em casa do chefe, aí sendo morto pela população e logo queimado.

 

Vou falar com Bitong e os outros, que me contam a história, pormenores lancinantes de terror e sofrimento. Fotografo as feridas, ouço os vários intervenientes, como negar a homologia das versões? Prova provada do feitiço, não chega a observação? Ou arvorar o racionalismo contra a empiria? E então regresso, detectivesco, ao moleiro "o que lhe aconteceu"? Pois foi decidido nada fazer, esperar o regresso de Bitong, meses lá na distante Lichinga, sarando uma cara agora irreconhecível. Mas no entretanto alguém, não se sabe quem, não se conteve em vingar a beleza e saúde de sinistrado, e logo o dito moleiro morreu na machamba, ele a desmatar e de uma árvore que abatia caiu-lhe na cabeça um forte ramo, fulminando-o. Espantoso, por aqui nunca nada de semelhante tinha acontecido, nunca se tinha ouvido. Fico-me com esta prova de feitiço, para mim chega, para lá da teoria.

 

Mas também me hei-de lembrar, que raio de projecto de desenvolvimento que no seu mau desenho criou um monstro, provocando mortos e feridos entre quem tanto queria ajudar. Metáfora?

 

Passo pelas aldeias, peço para falar, marca-se o dia e a hora, hei-de regressar sempre atrasado, devido às conversas arrastadas e às tais estradas que demoram. Mas as gentes esperam, esperam, prontos para falar, para assistir ao meu rápido voo para depois ir dizer como se organizam eles. Certo que estão prontos para dizer o que querem dizer, e lá vamos para o jogo de os levar a dizer o pouco mais, xadrez puro. Mas jogando com quem esperou horas, paciência de agricultor, apenas para falar comigo.

 

Por vezes sou esperado por dezenas de pessoas, como se entrevistam 150 pessoas todas juntas, à espera de uma "brigada" do qual sou brigadeiro e soldado? Não há dúvida, escondido por esta cor, engano à chegada, criam-se expectativas, quantas vezes não esperam que apenas venha perguntar, mas sim que chegue com instruções, benesses, convocatórias para trabalho ou, mais do que tudo, distribuir as sementes que faltam, que faltam sementes aos agricultores. Sinto-me não um investigador, mas mais um desiludidor. Enfim, não há dúvida que para estes trabalhos é fácil ser antropólogo em África, eles esperam. Mas homem, ser homem, é fodido.

 

Lá mais para a cidade outros falam, os das actuais ou antigas administrações, alguns transitados para as ongs ou empresas, outros nos seus negócios, gente arrastada para aqui e que ficou, por escolha e mulheres, vinte anos e mais numa terra onde se sentem livres e em casa. Parvo, pergunto a um manhambane "o que faz você tão longe da sua terra?", e levo por medida grande, "ora, bolas, e você?", e calo-me rindo. São estes que contam histórias mais antigas, de quando tinham sido jovens, tempos em que chegavam cheios os aviões e camiões, largando as pessoas nas empresas agrícolas, nas aldeias, porque por alguma razão decididas como improdutivas, e toca a transformar esses citadinos em machambeiros, custe o que custar. Mas às vezes, porque não havia sítio planeado para os deixar, ou apenas por fastio, deixavam-nos no meio do mato, grupos de gente lá da cidade, perdidos, depois desaparecidos sem rasto, "pasto de leões". "Porque não contam essas histórias?", digo, entre goles, "para quê?, ninguém quer ouvi-las...", abandonam-nas eles.

 

E bebemos mais um whisky, bebamo-lo, que chega de neo-realismo.

 

Março, 2002

publicado às 12:00

A idade e a ignorância

por jpt, em 27.04.04

A Idade e a Ignorância. A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa idade a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado a mostrarem-me. Implacáveis...

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Com a idade deixei de ler as introduções dos livros, passo directo ao autor. Para resumos faço os meus. Erro, mais um dos vários.

Mostra-mo o Jaime Santos, a partilhar o whisky comigo, rouba-me o Gellner que trouxe a passear e lê a primeira frase do "Prefácio do Editor". "Porra" arrasta ele, "grande frase", "hum" digo eu, envergonhado de descobertas alheias nas minhas coisas. Pois cita ele, diseur ainda para mais, o tal Moore a abrir a cena: "A ignorância tem muitas formas e todas elas perigosas".

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Hum, atendendo a muito do que se bloglê é bem adequado para época de efemérides.

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A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa idade a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado a mostrarem-me. Implacáveis...

publicado às 10:18

Uma visão de Portugal

por jpt, em 26.04.04
[Se não tiver tempo/paciência para ler este texto, que é tentativa de contextualização, siga sff directo à transcrição de parcela de carta de leitor do jornal “Notícias”, “Historieta portuguesa”. Uma pérola, garanto. Hilariante]

Uma das componentes mais interessantes do diário "Notícias" é sua secção "Cartas dos Leitores". Vários assuntos são aí abordados, em especial sociais e políticos. A secção é um belo barómetro da situação política do país, acho-a um universo documental riquissimo para a análise da história recente. Mas a sua interpretação exigirá a análise das estratégias de autoria.

Surgem cartas assinadas pelos leitores, como é óbvio. Muitas outras sob pseudónimos. Alguns recorrentes e até reconhecíveis. Outros incógnitos (ou seja, anónimos). Dizem-me que por vezes esses pseudónimos desconhecidos são utilizados por elementos da própria redacção, ou por colaboradores muito próximos. Não o posso garantir, apenas transcrever uma opinião corrente no público leitor e até no meio profissional jornalístico.

Esta questão da autoria liga-se com os objectivos finais das comunicações. O não assumir público dos escritos prender-se-á com dois factores: o cuidado do cidadão que quer opinar ou denunciar mas que não se quer ver envolvido em questiúnculas; e, bem mais subtil, o possibilitar ao jornal “Notícias” veicular factos e opiniões algo distintas da linha editorial que quer explícita.

Entre outros há dois aspectos que quero aqui realçar:

1. a recorrência com que textos sobre questões políticas surgem assinados por pseudónimos (reconhecíveis ou não) radicalmente bantus. [a questão dos nomes nunca poderá ser entendida se não se considerar a prática de atribuição forçada de nomes “cristãos” por parte da administração colonial]

Não posso deixar de associar esta prática à tentativa de criação de uma autoria especificamente africana, isenta das influências portuguesas-coloniais, insuspeita de qualquer “assimilação” colonial ou pós-colonial. Ou seja, a imagem de uma voz absolutamente africana, uma visão essencial, não contaminada. Em suma, uma africanidade não corrompida pela modernidade “assimilacionista”, de teor colonial ou globalizada. A voz de África, a voz de um Moçambique puro e, portanto, legítima nas suas opiniões.

Entenda-se, ainda que prefira ver os textos identificados acho este recurso retórico legítimo. Mesmo que critique, intelectualmente, a visão essencialista que lhe está na origem.

Mas não posso deixar de notar um facto paradoxal. Alguns destes escritos implicam ainda uma estratégia de simplificação. Não tanto da escrita, mas sim um empobrecimento do conteúdo, algo que o calão moçambicano poderia chamar de “confusionismo”. Ou seja, há uma construída ligação de ignorância e da tal “pureza africana”, que se produz através da diminuição do saber do próprio autor. Que põe o pseudónimo a escrever sob uma espécie de “pretoguês” intelectual, como se o tal “essencial” autor local fosse incapaz de um efectivo conhecimento da realidade global, que ultrapasse os seus limites empíricos.

Involuntariamente decerto, temos nestes textos um dramático exemplo de (auto)racismo, um racismo de classe evidente, no qual os autores, letrados moçambicanos, desvalorizam as potencialidades cognitivas do seu próprio povo, se rural, se não-assimilado.

2. a recorrente presença do tema “Portugal”, com o ex-colono surgindo como objecto de polémica. Quanto à História colonial, quanto à actual presença aqui de interesses e cidadãos portugueses. É normal, a relação colonial deixou uma difícil herança, estranho seria o contrário.

Mas o tema “Portugal” serve ainda para a discussão política, é por vezes matéria-prima para a argumentação da vida política interna, e amíude com notório exagero da actual influência portuguesa em Moçambique.

Muito francamente duvido da efectiva eficiência deste tipo de argumentação, o da afirmação de laços particulares de alguns grupos sociais, políticos, religiosos moçambicanos com interesses portugueses. Nem que seja pelo facto da maioria da população moçambicana já não ter como referência existencial o colonialismo. E até pelas dificuldades do quotidiano, este já tão distante dessa realidade histórica.

Vem isto a propósito de uma deliciosa e paradigmática carta de leitor (sob pseudónimo) publicada em duas partes (17 e 19 de Abril de 2004), carta de apoio a um dos partidos políticos e crítica de um outro. Mas também crítica da presença portuguesa e das relações havidas com forças políticas locais. E, também, crítica dos assimilados, considerados como tendencialmente próximos do partido adversário.

Abaixo transcrevo a sua parte introdutória, “Historieta Portuguesa”. Por ela se afirma a raíz das dificuldades moçambicanas, a mediocridade do colonialismo português. E também a dos assimilados. Ambos passíveis de apoiar o partido adversário.

Paradigmática carta pois ao ler a deliciosa prosa é óbvio que o seu autor domina a história de Portugal e que a aprendeu pela cartilha do Estado Novo, percebe-se pelos factos invocados e pela linguagem utilizada. Será portanto, na linguagem local, um “assimilado”. Mas deliberadamente tudo confunde para se livrar desse epíteto, assim ainda legitimando a crítica a essa hoje já abstracta entidade “assimilado”.

[Esta minha conclusão após ler e fruir a carta foi-me confirmada por várias pessoas que identificam o autor. Aliás frequentador habitual da esplanada da Associação de Escritores, pelo que muito provavelmente já partilhámos mesa e até bebidas]

Finalmente não posso deixar de sublinhar um ponto espantoso: a carta, um verdadeiro texto pós-moderno como afirmava uma amiga minha, apresenta uma concepção original da expansão portuguesa (e ibérica, já agora). Tudo derivou da busca de afrodisíacos. Freud não diria melhor.

Façam favor, leiam "Historieta Portuguesa" (minha transcrição, todos os erros que não estejam assinalados com sic são da minha responsabilidade)

Atitudes e Comportamentos Ridículos
Kandayane Wa Matuva Kandiya
Notícias, 17 de Abril de 2004

1. Historieta Portuguesa

Uma das piores senão a pior desgraça que há cinco séculos abateu o Povo Moçambicano, foi o de ter sido colonizado por portugueses.

Oriundos de um pequenino país da Europa, produto da fusão de vários povos, acabaram sendo conhecidos por Lusitanos.

Encravado no extremo sudeste [sic] da Península Ibérica, Portugal foi várias vezes feito colónia ou província Castelhana, depois de ter sido sucessivamente esgravatado por Iberos, Celtas, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, e por fim ainda hoje se podem encontrar naquele país, vestígios dos seus últimos colonizadores, os Muçulmanos, também conhecidos nessa época por Sarracenos, Árabes, Maometanos e Mouros.

Trazendo consigo recalcamentos de vários sofrimentos não podiam ter encontrado melhor campo para descarregar e semear as suas mágoas, as desilusões e enfim a sua fúria senão no pobre Povo Moçambicano.

Mal se tornou independente da Espanha pelo tratado de Zamora assinado entre D. Afonso Henriques e o Rei de Espanha lá para os anos 1149 por aí, e apercebendo-se da sua pequenez no tamanho e na forma, Portugal decidiu desde logo tornar-se grande à custa de conquistar, subjugar e dividir para reinar outros povos, imitando os seus anteriores suseranos romanos e, pedaço a pedaço, os "Tugas" como hoje são apelidados formaram um "grande império português" que, partindo da praia do Restelo iniciou uma marcha longa cujo destino seria a Índia, contornando e conquistando quase todos os povos da parte ocidental do Continente Africano, desembocando depois em Moçambique.

Quer dizer, o conceito de poder e grandeza para os portugueses de então, não era em termos de possuir ou armazenar riqueza, tal como ouro, carvão ou gás de Moçambique que sempre jazeram no subsolo inexploráveis (sic), muito menos o petróleo ou os diamantes angolanos que também sempre existiram, mas apenas e só apenas descobrir o caminho marítimo para a Índia, para de lá carregar para Europa piri-piri e outras especiarias culinárias, tais como gegimbre (sic), açafrão, colorau servindo apenas de entreposto comercial! Ridículo não é?

Mas foi assim mesmo: a noção de riqueza e grandeza para os portugueses de então, não consistia na busca e/ou descoberta e estar sobre o seu domínio as areias pesadas de Angoche, Moebase e Chibuto em Moçambique, Mancarra, olém de dedém ou borracha da Guiné, cacau em São Tomé e Príncipe, ou pelo menos algumas palancas em Angola que fariam delirar de encanto aos (sic) visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa, não senhor!

Apenas e só apenas espezinhar outros povos e levar para Portugal, pimenta, cravo e títulos honoríficos para os seus reis. Por exemplo, um dos seus reis o Rei D. João II, quiçá o mais sanguinário dos reis portugueses, teve a alcunha ou o cognome de "Princípe Perfeito", após ter ordenado o abate de muitos dos seus adversários, mandando igualmente ao cadafalso o Duque de Bragança e apunhalado com as suas próprias mãos o Duque de Viseu e assim ficou Rei e Senhor absoluto de tudo, passando depois a usar pomposamente os títulos de "Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e Navegação, da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia".

Assim, El-Rei, ficava sumptuoso e altivamente arrogante gabaroso e amalham (sic) ao ponto de "chutar" alguns poderes para os seus "vice-reis" lá para as Índias, após ter descoberto o tão almejado caminho marítimo e levar a Lisboa, malaguetas e outros afrodisíacos!

Com este tipo de colonizadores, outra sorte não podia nos calhar senão a pior.

publicado às 07:21

Colónias Balneares

por jpt, em 25.04.04

"Da Ilha regressam amigos, mais do que agradados." e narrando o seu passeio. Pelo meio não esquecem de referir, e com entusiasmo apesar de serem gente entendida, o por lá terem encontrado as Férias em Português, montadas pelo Instituto Camões.

 

Surpreendem-se com o meu esgar, nem o entendem. "Os miúdos estavam todos contentes" afirma-me o meu amigo, cuja presença da mulher, ali a anuir, obviamente torna menos cáustico. Efeitos que elas têm, e ainda bem.

 

Eu a resmungar, tanta coisa estruturante e tanta coisa festiva a pedirem para serem feitas para articular culturas entre-países, visões assim mútuas, abrir as cabeças. E disso tudo que pensa, que conceptualiza, que executa o meu Estado? Junta as criancinhas, coitadinhas, pobrezinhas, leva-as para as actividades lúdicas ali junto à praia, elas divertem-se, uma comida extra claro está, até leite presumo.

 

[Colónia Balnear "Um Lugar ao Sol", sito na Costa de Caparica. Pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]

 

"Férias em Português", há-de haver fotos várias, hão-de sair nos suplementos institucionais, os pretinhos felizes, e tão agradecidos estão eles. Provando também o quanto se faz pelo ensino da língua pelo mundo fora, claro está, vejam-nos tão bem, fruindo no português apesar das tantas dificuldades que vivem no dia-a-dia, tão apetitosos do saber são eles.

 

Mas não se lhes dá apenas o jogo, o brincar, que eles tanto desconhecem, também têm "formação" em coisas sérias e boas, valores para o pensar e agir, para que venham eles a ser melhores adultos. Para que prossigam mais.

[Colónia Balnear Marechal Carmona, na Foz do Arelho, pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]

 

Não há tino? Não há cabeças? As perguntas são inúteis, os anos passam e também as caras. Mas não as ideias.Pois nada mais conseguem pensar que montar filial da Colónia Balnear "O Século". E pior, bem pior, é que até estão convictos. E continuam.

publicado às 13:26

Ilha de Moçambique

por jpt, em 24.04.04

Da Ilha regressam amigos, mais do que agradados. E dizendo que está ela melhor, casas recuperadas, algum turismo. É isso, desde os últimos quatro ou cinco anos que a Ilha vem recuperando, devagarinho, das mazelas do tempo e dos homens. Sem grande plano, sem grande intervenção, acima de tudo pelo investimento e trabalho dos particulares. Talvez assim seja melhor, que aos Grandes Projectos - assim Unesco e quejandos - que se querem demiúrgicos Grandes Arquitectos depois lhe falta apoio para continuar, o apoio do dinheiro e das vontades. E, quantas vezes, nada têm a ver com os reais anseios de quem por lá vive ou quer viver, a imporem utopias degenerativas.

 

[Lembro-me de que em 1999 ouvi um português, um tal dr. Teixeira, anunciar publicamente na conferência organizada pela UNESCO em Maputo, que Portugal iria oferecer 1,5 milhões de contos portugueses para a recuperação das infraestruturas sanitárias da Ilha: o dinheiro viria do ministério do ambiente. Não sei se o homem acreditava ou não no que dizia, mas parecia convicto. Se algum dos leitores o conhecer diga-lhe que o desprezo: nem um desses contos veio, nem uma comunicação sobre a matéria. Mais uma das pérolas vergonhosas dos "socialistas em África". Ricardo Magalhães chamava-se o secretário de Estado que tinha prometido o dinheiro, e que talvez fosse o chefe desse sipaio].

 

Mas vai indo a Ilha. Talvez que algum apoio no restauro de algum do património dificilmente assumível por pequeno investidor fosse fundamental. Em vez de grandes ideias talvez algum bom senso seja de encetar. Enterradas as grandes manias. A protecção do espólio museológico e arqueológico (subaquático), da flora e fauna marinha. E as infraestruturas sanitárias.

 

Depois esperar que Nampula e Nacala continuem a crescer. E que o aeroporto internacional de Nacala brote mesmo. Que aí, quem tem Ilha, Mossuril e Cabaceiras não pode temer o futuro. Desde que sem prédios e sem piratas.

 

Tenho saudades. Da Ilha, claro.

publicado às 21:30

Sudão.

por jpt, em 24.04.04

Roubo ao excelente Ecletico. E aproveito para chamar a atenção para o texto Mercenários (I, II, III) que a sua autora tem vindo a publicar.


No livro de pedra estudo a língua intemporal.

Entre duas mós esbracejo, no turbilhão da pedra,

já as duas dimensões até ao pescoço me sorveram,

minha coluna triturada no moínho da morte e da vida.


Que fazer, bordão de Isaías, da tua rectidão?

É mais fina que cabelo, a casca do grão sem tempo,

sem alto, nem baixo. No deserto o povo entre as pedras

reunia-se; real casula de esteira, refrescava-me, na canícula.


- Arseny Tarkovsky

publicado às 13:32

Representação ou apropriação?

por jpt, em 23.04.04

São até das mais institucionais as vozes que se espantam: veja aqui e aqui os últimos moicanos. Índios envelhecidos que julgam que isto ainda se trata lá na tenda a fumar umas cachimbadas e a falar bem. Gente do passado, ultrapassada. E até um pouco senil.

Pois o silêncio que envolveu esta revisão é tonitruante e significa uma coisa: morreu a ideia de democracia representativa em Portugal. Morreu de doença, dessa maleita de desprezo que os parlamentares têm por quem os vota.

O senhor eleitor, entretido com a bola e a bola, mais a bola e as bolas, merece evidentemente o desprezo. Também doente é certo, mas não de alienação como se pensou em tempos, confirma-se que é imbecilidade mesmo.

publicado às 22:05

Luísa Diogo

por jpt, em 21.04.04

Time. Entre os alunos correu célere a notícia e logo ma transmitiram. A primeira-ministra Luísa Diogo como uma das cem personalidades mundiais mais influentes.

Estas listas valem o que valem, e não sei se não haverá outros moçambicanos mais influentes. Mas que foi aqui registado foi. E assim de repente também não me lembro de muitas mais africanas que tenham chegado a tão elevado cargo. S. Tomé logo, e porventura um ou outro caso. Talvez um pouco de "gender" mas porque não?

publicado às 15:08

Um anónimo

por jpt, em 20.04.04

Um leitor deixou aí um comentário dizendo-me hipócrita. Acho que sim, sou-o ciclicamente. Não sempre, não todos os dias, todo o dia. Mas de quando em quando, depende do contexto.

E sou tão hipócrita que nem apago o lixo hipócrita de quem deixa um comentário crítico de modo anónimo: como posso eu contra-argumentar com alguém que aqui se abandona com o nome de "gay" e com o endereço de "bichano69"? Como posso chegar à fala directa com ele?

É isso mesmo, sou tão hipócrita que nem apago o comentário, assim a armar-me em tipo elevado, que aceita as críticas qualquer que seja o teor ou o tom. Não haja dúvida, sou um "Ganda hipócrita"!

publicado às 05:11

Regras

por jpt, em 20.04.04

No penúltimo Savana Machado da Graça [que faz o favor de ser leitor do Ma-schamba, e que lhe deu um filão em breve a ser explorado] narrava um encontro em que esteve, nos arredores de Maputo. Incomodado.

 

Tinha chegado à reunião, a sala ainda não estava cheia, cadeiras várias por ocupar, mulheres e homens à espera do início. À medida que se aproximava a sessão mais participantes iam chegando, as mulheres levantando-se para ceder o lugar aos homens e indo-se sentar no chão. Incomodado, e lamentando a situação, um seu parceiro logo comentou que se fosse nalgum país europeu o contrário seria a regra, os homens oferecendo as cadeiras às mulheres. A retórica do texto dá-nos esta como a situação correcta. E a sua conclusão também, utilizando o evento para uma defesa das mulheres.

 

Não pude deixar passar. Porque será positivo que os homens cedam o bom lugar às mulheres, porque será negativo o inverso? Não há absolutamente razão nenhuma para dizer isso. Apenas o costume burguês europeu...nem em tanto campo isso acontece(ia). Costume diferente do que ali se encontra. O incómodo, que é recorrente, não passa de puro preconceito. Sem razão, ainda que nós nos levantemos, claro está.

 

Ah, quantas vezes fui mal-criado, fazendo questão que as mulheres passem à minha frente...que rudeza, a fazer hesitações, a desfazer em sorrisos desculpabilizadores.

 

Em Roma sê romano. Veja-se lá onde se está e sentemo-nos ou levantemo-nos consoante...que não é por isso que as coisas mudam para melhor.

 

Adenda: pois o Machado da Graça veio até cá. E deixou assim,

 

"Ao contrário do que deduzes da minha retórica, a minha posição não é a que citei no meu artigo. Para te dizer a verdade nem sei se é a da pessoa que fez o comentário, em termos mais factuais e menos opinativos.

 

Não tenho por hábito levantar-me para dar lugar a senhoras só pelo facto de serem do sexo feminino. Acho que têm tão boas pernas como eu. Levanto-me quando é para dar o lugar a alguém que, por qualquer razão, está diminuido na sua capacidade para estar em pé. Acho que a igualdade entre os sexos passa também por aí.

 

Uma das minhas passadas companheiras de vida achava, com toda a razão, que eu devia partilhar das tarefas domésticas. O que passei a fazer. Isto ficou prejudicado no dia em que ela chegou a casa e me informou que o carro tinha um pneu furado e estava na praça X onde eu deveria ir trocar o pneu e trazer o carro para casa.Mas que fazer?"

 

O teste do pneu, universal, é terrível. Concordo em absoluto. Bem, eu continuo a levantar-me, troco os pneus quando tem que ser. Mas, confesso, a ser um traste na cozinha.Abraço.

publicado às 03:12

Da descolonização

por jpt, em 19.04.04

Em plenos 30 anos do 25 de Abril o regresso à descolonização é normal. Sobre isso já desabafei e até (semi)botei.

 

Na semana passada Almeida Santos falou sobre a matéria, anunciando ainda um livro. Será interessante ler a sua versão, enquanto participante activo. Também Mia Couto publicou um artigo sobre o assunto [obrigado ao leitor "Mossuril" pelo pronto envio].

 

Ambos os textos têm interesse ainda que não avancem novidades ou leituras originais. Principalmente por integrarem algo que deveria ser óbvio. O final do colonialismo foi provocado, e portanto a análise da sua história tem que integrar as práticas de quem contra ele combateu.

 

Em Portugal o discurso traumático continua. A procura de culpabilização de políticas ou de individualidades não passa de uma leitura autocentrada do processo de então. Autocentrada e orfã de Império. O entendimento do final do colonialismo tem que o encarar como fruto de uma luta local e dos apoios que recebeu. Aliás também o 25 de Abril o foi, dito e redito que está o facto dos militares se terem revoltado contra a situação profissional, pessoal e política que uma guerra anacrónica lhes tinha causado, bem como ao país.

 

Não se trata de apagar as múltiplas perspectivas que havia então em Portugal sobre a questão. Trata-se de não encerrar a leitura do processo nessas dinâmicas. De certa forma é uma questão de português: Portugal não "fez" a descolonização, "aconteceu-lhe" a descolonização. Tivesse esse facto histórico inultrapassável sido planeado e discutido alguns anos antes outra formulação (linguística, refiro) seria possível.

 

Ainda hoje se fala muito de "culpa" (até Almeida Santos recupera a palavra, sacudindo-a de si próprio) e até de "traição". Sendo um bocado demagógico, reconheço, apetece perguntar:

 

- a grande vaga de povoamento colonial ocorreu nos anos 50 e 60. Após a independência das colónias europeias na Ásia, durante e após a independência das colónias europeias em África. Quem "traíu" os futuros "espoliados do Ultramar", de quem é a "culpa" dos seus destinos? Quem os convenceu que era um projecto para a vida, quando era óbvio que não o podia ser? Ou quem, à direita ou à esquerda, pró-soviético, pró-rodesiano ou pró-no meio, muito pouco podia fazer num mundo que já há muito tinha mudado?

 

Extra: em vez dessa bafienta elaboração de "culpas" e "traições" tão mais interessante estudar aprofundada e extensivamente o efeito social dos retornados no Portugal de 70. Tanto se fala do impacto da democracia, e depois da CEE/UE. E tão pouco do abanão que essa mole humana vinda de outras práticas terá tido aí no rincão.

publicado às 21:18

Blogs Ilegais

por jpt, em 19.04.04

Espanto. Ontem visitei alguns blogs para mim desconhecidos, segui a via do Abre-Latas.

Absoluto espanto. Há blogs ilegais. Não tinha noção disso.

Não me venham com as esquerdalhadas do multiculturalismo, tão do agrado de antropólogos indecisos ou artistas anacrónicos, "cada um como cada qual", "o direito à diferença". A liberdade defende-se restringindo os direitos de quem a recusa. Nesse sentido a lei portuguesa proíbe o proselitismo de nojos como Fascismo em Rede. É nojento? É. Mas acima de tudo é ilegal. Feche-se e julgue-se o autor.

Ou então mude-se a lei! E aceite-se esta escória turra, mais os islâmicos turras, mais os otelos turras. A bem dizer não há diferença entre eles, a não ser a retórica. Mas já agora, se existe este desenvolvimento legal porque retroceder e não extendê-lo?

Alguém perguntará, mas quais os limites da inibição? Honestamente, retórica vã. São quase evidentes, evidenciem-se...

Adenda: o leitor Analiticamente Incorrecto fez o favor de comentar, concordando com o desgosto mas afirmando que estes "são os custos da democracia". Agradeço a atenção mas discordo. A democracia rege-se pelo primado da lei. E tem sobre outros sistemas a vantagem de uma maior abertura à mudança das leis: se estas não servem mudam-se. Mas enquanto o são têm o primado. Repito o que disse, se há lei cumpra-se. Se não serve, assuma-se o facto e mude-se.

Pois por enquanto aquilo não é folclore, é crime! Não crime ético, que isso não existe, é crime legal. E não se venha com críticas a um hipotético "patrulhamento ideológico": há limites para o aceitável. Sempre.

publicado às 01:30

...

por jpt, em 18.04.04

Extraordinário trabalho no Público: entrevista com Omar Bakri, o fundador do "Al-Moujahiroun", uma espécie de "braço político" da Al-Qaeda no Ocidente. Uma pérola. Ligeiros excertos para alguém que não tenha por lá passado

"Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade." - nem mesmo as de alguns bloguistas lusos, tão dele compreensivo, presumo eu ...

"Antes dos atentados de 11 de Setembro, pregava livremente nas principais mesquitas de Londres, como a de Regents Park. Agora está limitado aos "púlpitos" radicais como Finnsbury Park e Tottenham."(...)"É juiz da Sharia, tem o seu próprio tribunal, em Londres, à revelia da lei britânica, que despreza por ser "feita pelo Homem". No entanto, garante que não a viola. Foi preso 16 vezes e outras tantas libertado. Só pede às autoridades que sejam coerentes com as suas próprias "leis imperfeitas: "Deixem Omar Bakri beneficiar da democracia"." - nem vale a pena comentar.

Uma bela peça. Não acredito em proselitismos, mas deveria ser obrigatória (não spam, atenção) a qualquer bloguista luso. Ele há cada asneira política por aí, armada de livre-pensamento.

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publicado às 22:32

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