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Voto em Branco?

por jpt, em 06.04.04

Não sei se para os outros. Mas para quem já se deslocou três ou quatro vezes à escola Damião de Góis (ter-lhe-ão mudado o nome entretanto?) para votar em branco é reconfortante ler este excelente artigo de Vital Moreira:

Além disso, o voto em branco é uma maneira perfeitamente democrática de exprimir descontentamento político, designadamente a rejeição das opções eleitorais em presença e a crítica dos "défices democráticos" existentes. Deste modo, ele é susceptível de uma função democraticamente virtuosa, a saber, um alerta contra o "mal-estar democrático" ou "crise da representação democrática", ideias que constituem um lugar-comum em muitas análises das democracias contemporâneas e que se traduzem na crescente taxa de abstenção, no desinteresse pelos partidos políticos, na hostilidade larvar contra os políticos, no apoio a forças populistas, etc. Ora essas análises não relevam de nenhuma posição antidemocrática, mas sim, pelo contrário, de uma preocupação em relação à qualidade da democracia e à sua redução a um ritual de selecção periódica dos dirigentes políticos, por mais importante que esta seja.

Votar em branco ainda significa utilizar instrumentos democráticos (justamente o voto) para mostrar uma posição política...

Atenção. Digo-o excelente e reconfortante. Não legitimador. Pois ilegítimos são os intérpretes que têm desvalorizado o voto branco.

Acrescento que não concordo com a desvalorização efectiva dos votos nulos. Numa população tão maioritariamente alfabetizada (iliteracia é outra coisa, como sabemos) e já com bastantes eleições no currículo não se pode considerar o nulo como falho. Até porque os eleitores mais passíveis do falhanço devem engrossar os abstencionistas, especulo. Seria interessante uma análise aos votos nulos, procurando entender se resultam de erros ou de efectiva recusa das propostas em compita. Não sei se a lei o permite, mas é uma curiosidade minha.

Ah, nos últimos largos anos tenho votado explícito. Não sei se bem, mas optei. Não estou aqui na onda literária.

Adenda: no mesmo Público o colunista José Vitor Malheiros diz que "O problema do voto em branco é a sua utilidade. O voto em branco consciente, de alguém que recusa todas as opções que lhe colocam na bandeja e que clama pela possibilidade de outra escolha é exactamente igual ao voto em branco analfabeto, ao voto em branco imbecil e ao voto em branco enfastiado.".

Sempre me irritaram os imbecis que apelam ao voto útil.

publicado às 22:19

Sobre José Saramago

por jpt, em 06.04.04

Citar para mais tarde recordar

Confesso que não li e não gostei do último livro de Saramago”.João Pereira Coutinho, Expresso 3-4-2004.

Vem isto a propósito do último Saramago. Que ainda não vi em Maputo. Que não irei ler logo que chegue. Porque não sou grande apreciador. No país do Sporting-Benfica dizer isto levanta logo interpretações políticas e pessoais. Como se o homem não fosse escritor, e de livros se tratasse, histórias contadas, visões mais ou menos parcelares do mundo.

Não é o meu caso. Como pessoa conheci-o cá, e foi-me até muito amável. Ouvi-o e muito gostei. Duas intervenções brilhantes, um improviso não escrito na Associação de Escritores em 1999 sobre várias coisas, e acima de tudo sobre Portugal e África, que achei extraordinário. Voltou a Maputo para lançar a Caverna e falou, corrosivo, do mundo que se vive. Até para meu escondido agrado aplicou, defendeu, uma expressão que muito usava eu no quotidiano do privado, o delenda Cartago est - pode parecer pedantice dizer isto, mas não é, até porque a frase é património milenar.

Aprecio-lhe ainda o mau-feitio, a irritação, que até parece constante. Pode ser atitude ou pose. Mas também pode ser genuína. Idade, se calhar. Vaidoso? Parece, mas quem não o seria se já velho chegasse onde chegou? Ok, é comunista.

Vem isto a propósito da barulheira acerca do voto em branco. Talvez seja redução do público, todos compram os 100 mil livros e depois não os lerão? Talvez seja culpa do escritor, e da Caminho, que jogam na polémica e não no livro para mais rápido o venderem. Mas não é aquilo um livro

publicado às 08:47

As perguntas de Khosa

por jpt, em 06.04.04

"Que papel terá um grão de areia na construção da duna, no uivar das areias, no tumulto que se levanta no deserto? Que papel terá a folha que cai sem amparo e é calcada impiedosamente por ignotos que passam? (...)" perguntava ele, Khosa, nas Histórias de Amor e Espanto. Perguntas de sempre e de todo o local, e de tão difícil resposta. Mas também perguntas de um sempre especial neste local, e nesse aí, nesse então, bem mais difíceis do que qualquer resposta.

Tempos locais onde quando Khosa escreveu lá no Ualalapi:"-Dizem que morreu de doença, pois há várias noites que não tirava os olhos do tecto da sua casa.

- Uma morte desumana para um nguni.- Há quem afirme que o pai morreu da mesma forma.- Não era o desejo deles, Mputa.- Conheço poucos reis que morreram em batalhas.- Mas todos afirmam que é a melhor morte.- Quando se dirigem aos guerreiros.- Pensas muito depressa.(...)"

publicado às 08:45


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