Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Trecho do apassarado

por jpt, em 12.04.04

O Eduardo White deixou este bocado nos comentários. Vem para aqui, para o pé da janela. A mostrar como é todos os dias, lá no Apassarado dele.Abraço Eduardo, obrigado

 

HOJE É AZUL

 

Ao Zé Flávio, obrigado pelos desejos.

 

Hoje acordei um pouco mais feliz. E por isso o azul das calças e da camisa e da gravata e das meias. Um pouco dele por dentro, também. Lá fora, um ténue Sol faz da manhã um milagre divino. Que bom, num País tão escuro há um tranquilizador azul. Dia bom para andar de avião, entre as nuvens, entre as micoses de Deus. Eu moro alto. Num décimo primeiro andar da capital. Tem janelas largas, tem o frémito constante dos chapas pela avenida, tem mulheres negras esbeltas, lavadas e matinais na sua beleza. Ha, e a chata da vendedora de cigarros da qual me esquecia. Quero aquela minha parte, ameaçou-me logo pela manhã. A mulher no banho e eu a tremer no intercomunicador. Eu que nunca fui de putas onde é que me fiquei a dever? Mas há o azul dentro e fora da flat e a calma que ele transmite. Quem é? Disse com a voz armada de um Eduardo que não tenho. A senhora dos cigarros. Patrão está-me dever noventa mil meticais. Descansa-me o coração. Ok, ok. Só logo à tarde, digo como se falasse do Clube de Paris. E parto novamente rumo ao quarto. O desodorizante de almíscar e uma água de colónia barata ajudam a compor o meu poeta fardado de empregado bancário. A Guta veste-se e a casa fica mais azul ainda. Cheia de estrelas espalhadas pelo chão. Está bonito o Mundo, está tranquilo e mágico como uma mulher que se veste. Respiro o poeta na cor achocolatada da Guta. Aveludada mulher que me atura. Sinto que há gente dentro de mim, gente, muita gente feliz. Aceno a todos eles um bom dia. É imperioso que o faça. Quando estamos azul por dentro além de vermos o País assim, também temos um dentro de nós. Que bom que é este o meu, todo verde, igualmente. Arborizadamente limpo. A dona Francisca é que não está azul, apesar de eu a ver dessa maneira. Lá terá as suas razões. Noto pelo rosto carrancudo e pela maneira como me pergunta: Patrão vai tomar o café? Eu recuso-me, não quero tornar mais cinzento o dentro da dona Francisca. Poupo-o à obrigação de me servir. Um homem que é azul não precisa de ninguém a servi-lo. E ainda bem, porque senão não era azul. Descemos o elevador, eu e a minha bela esposa. Ela menos azul porque lhe dói uma costela, resquícios que não deixam o azul impor-se. Mas, mesmo assim, a cor achocolatada da pele empresta o azul ao dia todo. E os olhos grandes e quase fugitivos que tem. E os dentes brancos e acertadinhos com que sorri. E o cabelo crespo e dourado como uma coroa sobre tudo isso. E ela, meu Deus, e ela toda, ali, como uma dádiva do azul ao lado de mim. Rumamos ao emprego pelo País rasteiro que agora divisamos. Os carros das mordomias que nos ultrapassam em tudo, os carros do desenrasca que se parecem com a gente, as motas magras dos trabalhadores suburbanos, as mamanas sem o banho pelas bancas, os buracos lunares das estradas, os estudantes coloridos a caminho das escolas, as crianças enrameladas, que lindas, que maravilhosas, que fábulas elas são. E o Sol, amarelo e forte a brilhar para nós. A Guta deixa a sua cândida voz soltar-se, tilintar pelo espaço exíguo do carro, emudecer o motor: Já não tem combustível a viatura. Olhamo-nos. Afinal a realidade não é tão azul como parece. Não temos dinheiro no bolso, nem no banco, nem em lado nenhum. Não faz mal, arranjar-se-á. Digo eu ainda azul. É preciso que não morra tão cedo esta cor que tenho, pelo menos enquanto a Guta aqui estiver. E ela tranquiliza-se, elegante, conduzindo o seu dourado coche. Até os cavalos brancos eu vejo. Imponentes no trote.

 

Mas pronto. Chegamos. O beijo despede-nos para os empregos. Mas ainda ssim o beijo é azul. Que bom sentir os meus lábios dormentes e escuros do baton dos da Guta. Deixo a tristeza partir pendurada à matrícula do carro. Gostava de ter ficado com ela em casa. A sentir-lhe o calor do corpo, a lisura da pele, o hálito fresco da saliva acabada de acordar, os olhos maiores do sono, os carinhos a cantarem-lhe pelos dedos. Vou rumo ao elevador do banco. Azul eu. Eu azul. Azulando todos. E subo subido pelo ascensor. Um bom dia aos colegas mais sonante. Eles notam. Eu sorrio-lhes. Mas não lhes digo mais nada. Este azul é meu. Ligo-me ao Bill Gates num coreanico computador. Os e-mails depressa. Então, um recado do Zé. Um amigo que me ajudou em tempos a publicar poemas em livro. Um gesto azul, se atendermos que foi com o dinheiro dos outros. Magnífico mecenas. Penso. O Zé a dar uso indevido ao dinheiro. É azul também. Agora o compreendo. Vou a correr até à sua Ma-Shamba. Tomar o pequeno almoço. Mandioca cozida e chá adocicado com açúcar amarelo. Numa velha lata de azeite doce. Leio-lhe o recado: Apassarado, um longo voo é o que te desejo. Sai um abraço mano, que não seja ele lastro. Fiquei mais azul ainda. Que bom um recado assim. Por isso, sigo assobiado aos e-mails. Aos jornais por fax . E pumba. Explodiu-me o azul. Todo fragmentado em mim, pelo open space onde trabalho. O azul explodido só por causa disto: governo vai cortar mordomias dos administradores das empresas públicas. Tudo isto desta maneira, escrito, a abrir a primeira página do jornal. O meu azul fugiu. Explodiu. Fragmentou-se. Eu ainda lhe disse: AZUL, EU ACREDITO QUE EXISTES. De nada me valeu. Com uma notícia daquelas, ficou provado, para o azul, que no meu País é todos dias 1 de Abril. E face a isto, não há azul que resista.

 

publicado às 22:59

O kilo de arroz e etc

por jpt, em 12.04.04
Para quem passa por aqui encontrará os apontamentos mais de sorrisos, mais exóticos, mais desinteressantes, mais informativos, sei lá. Um mais franco para variar, como o anterior?

E face a cada apontamento quem comenta é livre de dizer o que quer. No anterior está um comentário que diz "Aqueles que dão o pouco que tem não merecem esta desconsideração".

Escrevi exactamente sobre quem acha que a caridadezinha se chama solidariedade, quem acha que "tem pouco" e "que o dá" - fosse eu cristão e gritaria o "pecado" que é pensar-se que se tem pouco no meio deste mundo: soma de gula e de soberba. Ou será mera hipocrisia?. E enquanto tudo fazem (mesmo que encerrados no não-fazer) para se manterem nos seus privilégios, que não são nada pequenos. São exactamente esses que merecem toda a desconsideração.

E não me falem dos excluídos sociais. Pois não são esses que fazem o folclore de que falo. E não merecem ser biombo do umbiguismo geral.

Já agora olhar em volta, nem que seja para tentar perceber quantas décadas é que podem restar disto assim, não vá algo mudar apanhando-nos ainda nos lares de depósito. Será uma maçada, alguém terá que pagar o meu subsídio de funeral, e o resto que se lixe.

"Já agora, Zé Flávio, que tens feito para melhorar tudo isso?", pergunta o Abstracto Comentador. Hesito, até reflicto, e digo francamente "mas quem te disse que me estou a considerar?"

publicado às 22:09

Indígenas

por jpt, em 12.04.04

Dizem-me (e até eu, em alguns dias) a caminhar para a direita. Mas nego-o. Pois não é de direita ficar com os cabelos em pé quando se lê o que aqui transcrevo, via Mar Salgado: Fausto Bertinotti, convidado ... do 5º aniversário do Bloco de Esquerda: "...para enfrentar o novo capitalismo é preciso uma nova língua que incorpore o apelo dos indígenas, dos homossexuais, das lésbicas, dos presos, dos palestinianos".

E ele que me desculpe, se aqui algum dia chegar, mas lembro-me de imediato de um bom amigo moçambicano a contar-me um episódio de uma das suas deslocações (militantes, frise-se) ao Forum Social Mundial de Porto Alegre: desfilavam várias organizações e tudo ia gritando "Viva o Movimento X", "Vivam os ...Ys" quando passou uma organização lésbica e todos avançaram num "Viva as lésbicas!" e ele, claro, também mas a interromper-se, caído em si no resmungo "porra, vivam as lésbicas? qu'é que estou para aqui a fazer a gritar isto?".

Optima memória esta, porque me acalenta a ideia de que independentemente de onde se estiver nem todos estarão loucos por ali.

[nota para quem me achar homófobo: sê-lo-ei, comerei o meu chapéu até, se algum iluminado me conseguir provar que um palestiniano não é um indígena. Ou até mesmo se me mostrar uma lésbica ou homossexual (perdão, repito-me...) que não o seja também, indígena digo. Quanto aos presos nem digo nada, coitados, como se não lhes bastasse estarem presos e ainda aparece um blog a chamar-lhes coisas]

publicado às 20:50

Memórias 2

por jpt, em 12.04.04

A referência anterior à escassez da produção de memórias escritas é mais do que sublinhável aqui em Moçambique. Que me lembre, e sem grande pesquisa, só retenho as memórias do pai Honwana, de Simeão Cuambe e de Hélder Martins.

É natural que tal aconteça. Uma sociedade menos letrada implica obrigatoriamente um menor uso da leitura e portanto da escrita (la palisse não estaria melhor).

E uma sociedade de maiores silêncios também, onde as obrigatórias diferentes versões, pois cada um não só tem os seus olhos como as suas lembranças, são ainda olhadas com tamanhas desconfianças que mais vale o calar.

Seria pois interessante o recolher oral dos testemunhos dos vultos da história moçambicana. Os célebres e os incélebres. Organizados de modo sistemático. Alguma coisa tem sido feita no domínio dos antigos combatentes. Pequenas entrevistas biográficas no domínio dos escritores (Saúte, Laban, Chabal publicaram livros nesse sentido). Mas muito haveria para fazer - linhas de financiamento (escasso) e de orientação não estarão disponíveis?

Há alguns anos soube da ideia de desenvolver um projecto de pesquisa sobre biografias de membros do MPLA, que uma ong portuguesa acalentava. Não terá sido desenvolvido. Há meses Agualusa esteve em Maputo e em conferência na Associação de Escritores (hei-de voltar a esta, tamanha a minha irritação nesse dia) partilhou deste anseio de história oral e anunciou integrar um projecto nesta área em Angola. Se com sucesso talvez origine efeitos noutros países, nunca se sabe.

Mas urge fazer esta recolha, há uma geração a desaparecer todos os dias.

publicado às 16:06

Memórias 1

por jpt, em 12.04.04
Uma característica da bibliografia portuguesa é a reduzida tradição memorialista. Basta entrever a loja de algum modesto alfarrabista em país anglo-saxónico para cobiçar as pilhas de memórias ou livros de viagens, monos tantos deles. Mas em Portugal não. E tantos anos de viajantes, colonos, emigrantes não cimentaram essa corrente, que nestes casos até poderia ter sido alimentada por esses exotismos biográficos.Não se pede a estas obras grandes relevos literários ou extraordinário rigor histórico. Acima de tudo poderiam dar-nos esclarecedores ambientes de época ou factos da "pequena história" interessantes, esclarecedores, aqui e ali pepitas desgarradas a dourarem as "grandes narrativas" que sempre surgem.Este é um dos campos onde este bloguismo poderá ser bem interessante. Pois permite a composição fragmentada das memórias avulsas e sua divulgação (e até comentários recompositores). Sem a preocupação do calhamaço à hora da morte, sem a demanda do editor de quase óbvio futuro mono.Hoje Vital Moreira dá um pequeno exemplo disso. Mas não é ele um bom exemplo do que quero afirmar, pois sobre figuras da sua nomeada são recorrentes biografias autorizadas ou auto-biografias (ou começam a ser recorrentes, pequena diferença).Nesta nota, neste reparo de ausência, eu refiro-me em particular às memórias dos cidadãos incélebres* os quais, em especial se de excêntricas (em sentido literal) biografias, nos podem trazer contributos tão mais interessantes à ilustração e compreensão das épocas.É também por isso (e lá vem o elogio semanal) que tanto aprecio e recomendo o Bota Acima. Não só pela sua simpatia, pelo aparente desalinhado do autor (um meu "mais velho") e pela elegância do teclado. Mas também porque lá se intervala o humor caústico sobre o presente com trechos bem ricos de memórias, que botadura a botadura ali vão constituindo tomo que se quer não mono.Refiro ainda a galáxia de blogs em torno do Abre Latas, com os seus múltiplos sovietblogs, onde o autor revisita a sua experiência como estudante na URSS nos anos 80. Onde o objectivo memorialista se cruza com uma espécie de monografia de época.Enfim, caminhos que acho exemplares, não como obrigatórios mas sim como real e literalmente exemplares.[Se alguém conhecer outros blogs que tenham esta dimensão avise, sff][* não é uma miacoutada, é mesmo ignorância: como definir alguém não célebre sem o desvalorizar de "desconhecido", "mediano", "incógnito" ou algo similar? avisem, sff]

Tags:

publicado às 16:05

O Africanidades também se cansa das missõezinhas benfazejas na africazinha dos pretinhos coitadinhos. Ele é mais boa pessoa do que eu. Dá-lhes com a ironia.

A mim só me mete nojo, o nojo que tenho dessas famílias todas a aderirem às campanhas periódicas, a entregarem lá na paróquia, a da igreja ou da associação que para o efeito é o mesmo, o kilito de arroz (até já com bicho, mas antes isso que nada não é assim?, coitadinhos, tanta fome) e mais o livro usado, aquele de capa rasgada que o que interessa mesmo é o texto, para que aprendam eles o português, coitados tanta miséria.A mim só me mete nojo. Não os grandes poderes, essa muito na moda "globalização". Estou a falar das famílias. A manta velha, o mono, o livrito. E todos de volta à vidinha, que o mundo é a minha marquise...

publicado às 10:02

Diário de Pai-Mãe 7

por jpt, em 12.04.04

Pic-nic de Páscoa, cascata da Naamacha. Assustas-me até, de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras que te dão um chão de escorregar, esse andar andar que me estoira breve breve...de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras...

publicado às 10:00

Diário de Pai-Mãe 6

por jpt, em 12.04.04

Esse "auga" "auga" "auga" repetido à exaustão, de beber, do banho, da piscina, da chuva, da "praia" "praia" "praia", da baía que te rodeia, esse "auga" que se tornou agora em pleno fim-de semana "acqua" "acqua" "acqua".

Invertes a etimologia...?

publicado às 09:15

Diário de Pai-Mãe 5

por jpt, em 12.04.04

Quem te ensinou todos esses "não..." à roupa que te escolho, no ensonado da manhã? Quem te ensinou esses risos e palminhas às jardineiras cor-de-laranja, às t-shirts rosas, e a tudo isso de adolescente?

Quem te ensinou as festinhas na minha cara enquanto te corto as unhas das mãos?

publicado às 08:16

Blog Ilustre

por jpt, em 12.04.04
Sussurrada a notícia de blog, em breve ilustre, casa nova do poeta Eduardo White. Apassarado, um longo voo é o que te desejo. Sai um abraço mano, que não seja ele lastro.Para quem venha doutros lados, e assim não saiba, Eduardo é o poeta em Moçambique.

publicado às 08:03

Arquivos Bloguísticos

por jpt, em 12.04.04

Não sei se isto do bloguismo é uma moda mais ou menos breve ou se é um meio de comunicação que veio para ficar, ainda que com progressivas transformações.

Mas quando leio existirem milhares de blogs em Portugal (para lá dos milhões!! mundiais que a technorati traça) não posso deixar de me surpreender com a sua dimensão. Não falo de importância - por vezes penso que muito exagerada: à excepção dos blogs de autores mais famosos e dos cómicos presumo que a maioria dos leitores sejam eles próprios autores de blog. Um ciclo fechado, que tenderá a esgotar-se com o tempo.

Mas a dimensão impõe-se. Assim sendo gostaria de saber como está a ser feito o arquivo de tudo isto, deste fenómeno relativamente importante do princípio do século e que virá a dizer algo sobre a sociedade de agora.Há uma política de arquivo bloguístico? Tem a instituição central de arquivos (digo a "Torre do Tombo" pois não me lembro do exacto nome) uma política, uma lei e um instrumento de arquivo - o qual presumo que só poderá ser robótico?

Ou ainda não se pensou no assunto?

E em desenhando essa vertente arquivística não deverá incluir de imediato uma cooperação com os arquivos nacionais dos países africanos da cplp? Pois começada esta logo de início não será muito mais fácil, barata e profíqua do que se só lembrada dentro de alguns anos?

publicado às 06:04


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos