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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Deve ser óbvio para quem frequenta este e outros blogs. Irrita-me o blog Barnabé, deixei até de visitar, irrita-me a esquerdalhada pueril. Tanto como a direitada arrivista. Ou vice-versa. Estou no meio, virtuoso? Nada disso, apenas idade, o cansaço com tantas certezas moldadas na ignorância. Estou no meio, sábio? Nada disso, apenas idade, o cansaço com tantas certezas moldadas em nada. Ou se calhar é a inveja, eles tão sábios e eu ignorante, aceito a hipótese ainda que com angústia.
Mas acaba-me de chegar um mail, enviado por insuspeito amigo. Uma maravilha de humor Barnabesco. Vénia, e elo mais que merecido a algo desnudando grossa borregada.
O Niassa é deslumbrante. Esta afirmação é-me dogma. E digo-o sem sequer ter chegado à reserva natural, uma verdadeira reserva com pouquíssimo turismo, em área inóspita. A única vez que estive realmente próximo, com tempo e dinheiro para me chegar até lá precisava de dois dias de estrada, que a chuva tinha caído. E mais dois para sair. Era-me então quase impossível e prescindi: ainda hoje estou arrependido. Metade do tamanho de Portugal. Enorme população de elefantes, já agora. Fauna e flora única. Enfim, estou a falar de uma área realmente selvagem.
Vem isto a propósito do que se discute neste momento. O desenvolvimento do turismo local, como forma de preservação da região. Assim seja. Entretanto foi elaborado um relatório que preconiza como solução ideal o reassentamento da população ali residente - uma solução não dogmática, pois propõe alternativas. Cerca de 20 000 pessoas ao que consta.
Num país que conheceu tão traumáticas experiências de reassentamento forçado ou induzido (os aldeamentos coloniais, as aldeias comunais, e os campos de refugiados da guerra) causa sempre algum desconforto este tipo de proposta.
Mas como conciliar a vida selvagem com a população? Por um lado a depradação causada pela agricultura itinerante e pela recolha de lenha combustível. Por outro lado a caça (e pesca) artesanal - ainda que esta tenha efeitos muito reduzidos face à caça furtiva com armas de fogo. Questão crucial levantada na transformação do Kruger em transfronteiriço e ainda mais neste território intocado do Niassa.
Em abstracto defenderia um reassentamento que fosse economicamente positivo para esta população. Mas é um abstracto, pois duvido da capacidade actual em tal realizar. A ver vamos. Mas a preservação desta região natural deveria constituir uma prioridade internacional/nacional, atendendo à escassez de ecossistemas similares.
Quanto à complexa questão da convivência da população com a vida selvagem não resisto a transcrever aqui uma história verídica, que me foi narrada por um ex-amigo que a presenciou:
Há uns quatro ou cinco anos o então governador provincial visitou a área da reserva e fez um discurso á população, apelando à preservação do meio ambiente, da vida animal, chamando a atenção para a riqueza que isso significava e para os proventos que poderiam advir do turismo se tal fosse cumprido.
Eis que se levantou um velho, pedindo licença para intervir, queria colocar uma pergunta. E assim questionou ele, sábio:
"Excelência, quer ser governador de gente, ou governador de leão?".
Dizer mais?