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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)

"No 25 de Abril de 74 estava eu bem lançado para fazer a 4ª classe. Algo distante das questões políticas, apesar de lá em casa se falar de um tal Karl May que não era o que escrevia os meus livros de cóbois. Gostei muito da tal revolução, não houve aulas nesse dia, a minha irmã, já jovem mãe, estava esfuziante, acordou-me tarde, quase às 9 horas a dizer "hoje não há aulas, há uma revolução" e devia ser importante pois ainda me lembro dela a dizê-lo, o cunhado ainda em Serpa Pinto na santa guerra, de onde ela tinha regressado para parir a Patrícia, magnífica mas só depois o soubemos. Os manos já eram marinheiros, não sei onde andavam, o João depois contou que ainda foi arriar a bandeira em São Tomé, e então era mesmo o fim daquele império, e esquerdas deles à parte chorou quando a bandeira desceu, e eu não sei se acredite ou não porque ele é assim como eu, um bocado tanguista, mas eu gostava muito que tivesse sido assim, ficava-lhe muito bem a ele e à família. E os pais estavam em Londres num congresso daqueles do pai da engenharia, à espera de voltarem, contentíssimos, a velha Avó acho que sem perceber nada mas lembro-a a dar palmadinhas no ombro do pai quando este chegou, acho que nunca mais o vi chorar, nem quando ela morreu. A rapaziada a comemorar sem entender aquilo, mas a ribombar a felicidade lá das casas, enquanto a futebolada inesperada era cortada pelos peões de transístor (lembram-se?) no ouvido que ia dizendo novas sobre uns tipos que eram Faxistas, e depois que o Marcelo se rendeu, e os Mesquitas do prédio ao lado, que jogavam bem à bola, sem estarem muito contentes (talvez os pais não estivessem) e passaram logo a Faxistas, coitados."
- Está bem menino, mas diz lá, o 25 de Abril foi Revolução? Ou Evolução?
- Não sei, senhor. Para mim o 25 de Abril foi o meu pai António.
(roubado ao Bota Acima)