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Uma visão de Portugal

por jpt, em 26.04.04
[Se não tiver tempo/paciência para ler este texto, que é tentativa de contextualização, siga sff directo à transcrição de parcela de carta de leitor do jornal “Notícias”, “Historieta portuguesa”. Uma pérola, garanto. Hilariante]

Uma das componentes mais interessantes do diário "Notícias" é sua secção "Cartas dos Leitores". Vários assuntos são aí abordados, em especial sociais e políticos. A secção é um belo barómetro da situação política do país, acho-a um universo documental riquissimo para a análise da história recente. Mas a sua interpretação exigirá a análise das estratégias de autoria.

Surgem cartas assinadas pelos leitores, como é óbvio. Muitas outras sob pseudónimos. Alguns recorrentes e até reconhecíveis. Outros incógnitos (ou seja, anónimos). Dizem-me que por vezes esses pseudónimos desconhecidos são utilizados por elementos da própria redacção, ou por colaboradores muito próximos. Não o posso garantir, apenas transcrever uma opinião corrente no público leitor e até no meio profissional jornalístico.

Esta questão da autoria liga-se com os objectivos finais das comunicações. O não assumir público dos escritos prender-se-á com dois factores: o cuidado do cidadão que quer opinar ou denunciar mas que não se quer ver envolvido em questiúnculas; e, bem mais subtil, o possibilitar ao jornal “Notícias” veicular factos e opiniões algo distintas da linha editorial que quer explícita.

Entre outros há dois aspectos que quero aqui realçar:

1. a recorrência com que textos sobre questões políticas surgem assinados por pseudónimos (reconhecíveis ou não) radicalmente bantus. [a questão dos nomes nunca poderá ser entendida se não se considerar a prática de atribuição forçada de nomes “cristãos” por parte da administração colonial]

Não posso deixar de associar esta prática à tentativa de criação de uma autoria especificamente africana, isenta das influências portuguesas-coloniais, insuspeita de qualquer “assimilação” colonial ou pós-colonial. Ou seja, a imagem de uma voz absolutamente africana, uma visão essencial, não contaminada. Em suma, uma africanidade não corrompida pela modernidade “assimilacionista”, de teor colonial ou globalizada. A voz de África, a voz de um Moçambique puro e, portanto, legítima nas suas opiniões.

Entenda-se, ainda que prefira ver os textos identificados acho este recurso retórico legítimo. Mesmo que critique, intelectualmente, a visão essencialista que lhe está na origem.

Mas não posso deixar de notar um facto paradoxal. Alguns destes escritos implicam ainda uma estratégia de simplificação. Não tanto da escrita, mas sim um empobrecimento do conteúdo, algo que o calão moçambicano poderia chamar de “confusionismo”. Ou seja, há uma construída ligação de ignorância e da tal “pureza africana”, que se produz através da diminuição do saber do próprio autor. Que põe o pseudónimo a escrever sob uma espécie de “pretoguês” intelectual, como se o tal “essencial” autor local fosse incapaz de um efectivo conhecimento da realidade global, que ultrapasse os seus limites empíricos.

Involuntariamente decerto, temos nestes textos um dramático exemplo de (auto)racismo, um racismo de classe evidente, no qual os autores, letrados moçambicanos, desvalorizam as potencialidades cognitivas do seu próprio povo, se rural, se não-assimilado.

2. a recorrente presença do tema “Portugal”, com o ex-colono surgindo como objecto de polémica. Quanto à História colonial, quanto à actual presença aqui de interesses e cidadãos portugueses. É normal, a relação colonial deixou uma difícil herança, estranho seria o contrário.

Mas o tema “Portugal” serve ainda para a discussão política, é por vezes matéria-prima para a argumentação da vida política interna, e amíude com notório exagero da actual influência portuguesa em Moçambique.

Muito francamente duvido da efectiva eficiência deste tipo de argumentação, o da afirmação de laços particulares de alguns grupos sociais, políticos, religiosos moçambicanos com interesses portugueses. Nem que seja pelo facto da maioria da população moçambicana já não ter como referência existencial o colonialismo. E até pelas dificuldades do quotidiano, este já tão distante dessa realidade histórica.

Vem isto a propósito de uma deliciosa e paradigmática carta de leitor (sob pseudónimo) publicada em duas partes (17 e 19 de Abril de 2004), carta de apoio a um dos partidos políticos e crítica de um outro. Mas também crítica da presença portuguesa e das relações havidas com forças políticas locais. E, também, crítica dos assimilados, considerados como tendencialmente próximos do partido adversário.

Abaixo transcrevo a sua parte introdutória, “Historieta Portuguesa”. Por ela se afirma a raíz das dificuldades moçambicanas, a mediocridade do colonialismo português. E também a dos assimilados. Ambos passíveis de apoiar o partido adversário.

Paradigmática carta pois ao ler a deliciosa prosa é óbvio que o seu autor domina a história de Portugal e que a aprendeu pela cartilha do Estado Novo, percebe-se pelos factos invocados e pela linguagem utilizada. Será portanto, na linguagem local, um “assimilado”. Mas deliberadamente tudo confunde para se livrar desse epíteto, assim ainda legitimando a crítica a essa hoje já abstracta entidade “assimilado”.

[Esta minha conclusão após ler e fruir a carta foi-me confirmada por várias pessoas que identificam o autor. Aliás frequentador habitual da esplanada da Associação de Escritores, pelo que muito provavelmente já partilhámos mesa e até bebidas]

Finalmente não posso deixar de sublinhar um ponto espantoso: a carta, um verdadeiro texto pós-moderno como afirmava uma amiga minha, apresenta uma concepção original da expansão portuguesa (e ibérica, já agora). Tudo derivou da busca de afrodisíacos. Freud não diria melhor.

Façam favor, leiam "Historieta Portuguesa" (minha transcrição, todos os erros que não estejam assinalados com sic são da minha responsabilidade)

Atitudes e Comportamentos Ridículos
Kandayane Wa Matuva Kandiya
Notícias, 17 de Abril de 2004

1. Historieta Portuguesa

Uma das piores senão a pior desgraça que há cinco séculos abateu o Povo Moçambicano, foi o de ter sido colonizado por portugueses.

Oriundos de um pequenino país da Europa, produto da fusão de vários povos, acabaram sendo conhecidos por Lusitanos.

Encravado no extremo sudeste [sic] da Península Ibérica, Portugal foi várias vezes feito colónia ou província Castelhana, depois de ter sido sucessivamente esgravatado por Iberos, Celtas, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, e por fim ainda hoje se podem encontrar naquele país, vestígios dos seus últimos colonizadores, os Muçulmanos, também conhecidos nessa época por Sarracenos, Árabes, Maometanos e Mouros.

Trazendo consigo recalcamentos de vários sofrimentos não podiam ter encontrado melhor campo para descarregar e semear as suas mágoas, as desilusões e enfim a sua fúria senão no pobre Povo Moçambicano.

Mal se tornou independente da Espanha pelo tratado de Zamora assinado entre D. Afonso Henriques e o Rei de Espanha lá para os anos 1149 por aí, e apercebendo-se da sua pequenez no tamanho e na forma, Portugal decidiu desde logo tornar-se grande à custa de conquistar, subjugar e dividir para reinar outros povos, imitando os seus anteriores suseranos romanos e, pedaço a pedaço, os "Tugas" como hoje são apelidados formaram um "grande império português" que, partindo da praia do Restelo iniciou uma marcha longa cujo destino seria a Índia, contornando e conquistando quase todos os povos da parte ocidental do Continente Africano, desembocando depois em Moçambique.

Quer dizer, o conceito de poder e grandeza para os portugueses de então, não era em termos de possuir ou armazenar riqueza, tal como ouro, carvão ou gás de Moçambique que sempre jazeram no subsolo inexploráveis (sic), muito menos o petróleo ou os diamantes angolanos que também sempre existiram, mas apenas e só apenas descobrir o caminho marítimo para a Índia, para de lá carregar para Europa piri-piri e outras especiarias culinárias, tais como gegimbre (sic), açafrão, colorau servindo apenas de entreposto comercial! Ridículo não é?

Mas foi assim mesmo: a noção de riqueza e grandeza para os portugueses de então, não consistia na busca e/ou descoberta e estar sobre o seu domínio as areias pesadas de Angoche, Moebase e Chibuto em Moçambique, Mancarra, olém de dedém ou borracha da Guiné, cacau em São Tomé e Príncipe, ou pelo menos algumas palancas em Angola que fariam delirar de encanto aos (sic) visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa, não senhor!

Apenas e só apenas espezinhar outros povos e levar para Portugal, pimenta, cravo e títulos honoríficos para os seus reis. Por exemplo, um dos seus reis o Rei D. João II, quiçá o mais sanguinário dos reis portugueses, teve a alcunha ou o cognome de "Princípe Perfeito", após ter ordenado o abate de muitos dos seus adversários, mandando igualmente ao cadafalso o Duque de Bragança e apunhalado com as suas próprias mãos o Duque de Viseu e assim ficou Rei e Senhor absoluto de tudo, passando depois a usar pomposamente os títulos de "Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e Navegação, da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia".

Assim, El-Rei, ficava sumptuoso e altivamente arrogante gabaroso e amalham (sic) ao ponto de "chutar" alguns poderes para os seus "vice-reis" lá para as Índias, após ter descoberto o tão almejado caminho marítimo e levar a Lisboa, malaguetas e outros afrodisíacos!

Com este tipo de colonizadores, outra sorte não podia nos calhar senão a pior.

publicado às 07:21


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