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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Pequeno comentário de emigrante ao entrever o telejornal da RTP, a dizer à mulher: sabes, há tão mais informação sobre Portugal nos blogs do que na tv ou jornais.
Talvez não, mas daqui de longe parece.
PS (não resisto): no final do telejornal José Alberto Carvalho continua (estóico?) a despedir-se de "todo o mundo português". Valerá a pena continuar a protestar?
Há já uma dúzia de anos frequentei um curso universitário interdisciplinar. Um dia o professor de sociologia, hoje bom amigo e que tem memória do episódio, passou-nos um exercício: que nos auto-classificássemos quanto à classe ou estrato social (era optativo) a que considerávamos pertencer. Foi bonita de ver a elevada auto-percepção que alguns colegas tinham. Face à panóplia de indicadores que nos davam para proceder à classificação eu, e muito apropriadamente como o futuro veio a comprovar, apresentei-me como lumpen-burguesia.
Lembrei-me disso hoje ao ler esta interessante pequena reflexão sobre classe sociais americanas colocada por Luís Nazaré no Causa Nossa. Texto (re)citado e (re)comentado [no Causa Nossa entendo que a mera citação é por si só comentário, e não me parece forçada a consideração] no Liberdade de Expressão, de João Miranda.
Se tiver paciência vá ler o pequeno texto. Interessante em si mesmo, mas também pelas múltiplas e legítimas leituras que um mero trecho permite.
Por isso mesmo, e se o leitor gostar da dicotomia analítica "esquerda-direita", permito-me desafiá-lo para um pequeno exercício (sem querer emular o tal meu antigo professor): leia a este propósito os dois blogs e encontre "Onde Está a Esquerda"?
Faróis de Moçambique, de António Sopa e Laura Chirindja, editado pela Ndjira em 2000. Um levantamento histórico e exaustivo sobre os faróis do país. Lembro-me que alguns anos antes da edição deste livro visitei uma exposição realizada pelo incansável Sopa sobre este assunto. Será talvez obra para marítimo ou coleccionador, mas é belissima. E também talvez metafórica, tanto mar para iluminar.

As Duas Sombras do Rio, de João Paulo Borges Coelho. Uma edição simultânea Ndjira/Caminho de 2003.
Uma primeira obra ficcional que é, em minha opinião, a melhor prosa de toda a literatura moçambicana. Um cruzar de personagens sobre o Zambeze, um cruzar de contista com cinema. E, já agora, sem realismo mágico. Inventei-lhe um magicismo realista que muito mais me dá (a mim claro, falo só de mim) prazer.
Sobre este livro aqui tombou, com a excepção do texto do Francisco Noa à altura da sua apresentação, um radical silêncio. Interessante, mas nada intrigante, coisas da sociologia. Mas vai-se vendendo o que indicia o mais importante: vai-se lendo.
Gosto imenso do começo, aqui o transcrevo. E é um despudorado aviso às visitas para que vão ler o livro, se ainda o não fizeram:
"Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu azul brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas - tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto"
Dentro de uns meses será editado um segundo livro, "As Visitas do dr. Valdez". Ainda melhor, se se pensar em consistência literária. E um belissimo traçado sobre o final de uma era, sem o ser ostensivamente, uma bela maneira de avançar sobre as coisas.