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Acerca do extra-blogs

por jpt, em 11.07.04
(voltando à velha questão do papel do intelectual na sociedade). Já aqui referi o respeito intelectual que tenho por Augusto Santos Silva. O sociólogo é um mestre. Mas não é por esse a priori que muito apreciei o texto abaixo transcrito. Do melhor extra-blog sobre o momento do meu Portugal. Texto analítico e prospectivo. Límpido. Educado (no sentido amplo da palavra). Entenda-se, "urbano". Não desvairado. Não obscurantista.Os imbecis anti-intelectuais - esses que abundam sob a palavra chic, a verve escorreita e o preconceito hábil, não conseguem compreender que é isto que se espera de um intelectual. Alinhado ou não (que tem ele todo o direito de alinhar, se assim o entender). No nosso campo ou não.Os imbecis intelectuais também não o conseguem compreender.
Como Se Deve Enfrentar SantanaPor AUGUSTO SANTOS SILVAPúblicoSábado, 10 de Julho de 2004[O] cronista escreve sem saber, mas é possível que o leitor já saiba qual é a decisão do Presidente da República. Ao cronista, duas coisas parecem certas: viveremos proximamente um clima de campanha eleitoral - mais breve se as eleições forem convocadas para o Outono, mais longa se for empossado um novo Governo; e a liderança política da direita está nas mãos do par formado por Santana Lopes e Paulo Portas. À frente de um Governo gerado pela mesma maioria parlamentar ou de um bloco eleitoral, Santana constitui o adversário do momento para um campo social e político bastante amplo.Ora, perguntam muitos, e alguns com angústia: como se deve enfrentá-lo, a ele que tem fama de imbatível em manipulação e propaganda? A sua conjugação com Portas não representa apenas uma dada linha política dentro do mesmo regime, mas sim a possibilidade de uma mudança significativa na natureza institucional e na qualidade democrática do regime. Contudo, também é certo que, puxando o "PPD-PSD" para ainda mais perto do PP e impondo-lhe uma lógica populista, Santana aliena parte importante do centro político português. Perderá deste lado muito mais do que o que ganha no outro.Não duvido de que Santana e Portas são campeões do populismo e, por isso, ameaçam realmente a qualidade institucional e democrática da república. Populismo quer dizer demagogia infrene, exploração das emoções, primarismo ideológico, culto quase messiânico do líder, cumplicidade activa com a comunicação social tablóide, espectacularização da política, atenção exclusiva ao curto prazo, desprezo pelas regras institucionais. É preciso não deixar o povo nas mãos dos populistas, mas não é menos necessário confrontar o povo com uma alternativa não populista, claramente distinta, claramente enunciada.O que implica, a meu ver, alguns cuidados. Não se pode cair no erro de seguir ou imitar os populistas, na imagem e no estilo: o original ganha sempre à cópia, o emulado ao emulador. Não se poderá fulanizar demasiado o combate político e muito menos atacar "ad hominem" pela via da diabolização: primeiro, os Berlusconis agradecem a promoção que esse tipo de ataques lhes garante e são mestres na autovitimização; segundo, a reacção histérica e a arrogância intelectual não são antídotos, mas vitaminas do populismo. Não se pode responder ao adversário de hoje com as palavras e as atitudes de ontem: os eleitorados castigam severamente as apreciações desproporcionadas, do tipo "regresso ao fascismo", e quem fala, por exemplo, em "resistência ao avanço da extrema-direita" ou exagera o "fulgor" e a "projecção mediática" dos seus caudilhos coloca-se implicitamente, à partida, na posição de acossado e perdedor.A linha de conduta para enfrentar Santana Lopes parece-me, pois, óbvia. Não subestimar a sua capacidade e influência, mas recusando-lhe qualquer hipótese de colocar o debate no registo histriónico que ele adora. Não dar por adquirido qualquer desenlace do combate político que se avizinha, cortando cerce todas as cenarizações mais ou menos fantasiosas sobre o dia seguinte, que só dispersam e malbaratam energias preciosas para o próprio dia. Ser moderado, falando não para os "santanistas" e na sua linguagem, mas para as pessoas e nos seus problemas, e falando com equilíbrio e convicção tranquila.Se for esta a linha, não percebo por que se há-de sobrevalorizar a dimensão do par Santana/Portas. Desde logo, pertence-lhes o ónus da crise política. Só há crise e só há eleições antecipadas ou Governo de precária legitimidade política porque Durão Barroso desertou, rasgando um compromisso que assumira e reiterara, e tomando uma decisão que, à luz dos seus próprios critérios, configura uma fuga à responsabilidade.Depois, é Santana que responde pelo legado de dois anos de Governo da direita. Por mais piruetas que queira fazer, é ele que agora representa a coligação e é sobre ele que recaem as consequências do juízo político que os portugueses têm de fazer sobre o que é esta direita a governar. Nesse sentido, por mais festanças que agora prometa, Santana é a cara da crise. A sua posição é dilemática: se assumir o legado, pagará por ele; se romper com o legado, pagará por mais uma demonstração das cambalhotas que são a sua imagem de marca.O que se compara são as qualidades dos programas, das equipas e das pessoas, para o exercício efectivo da governação - não para as capas de revistas ou os estúdios de televisão, mas sim para dirigirem o Estado, responderem pelo país e realizarem obra em favor das populações. Ora, conhecem-se as ideias de Ferro Rodrigues, mas quais são as de Santana? Conhecem-se as virtudes e os defeitos dos rostos do centro-esquerda para as diferentes áreas políticas e sectoriais, mas quem são os "santanistas", quem há neles de relevante para lá dos homens de mão e das mulheres em pose? Onde está a obra de Santana Lopes, há 25 anos na política, mas sem uma iniciativa que tenha marcado positivamente os lugares por que passou? Qual é a sua obra: a revista no teatro nacional, a plantação de palmeiras na Figueira ou as ilusões desfeitas e os buracos por tapar em Lisboa? Levou alguma coisa até ao fim, mostrou estabilidade política e emocional em algum lado, manteve alguma coerência em coisa alguma?Eu sei que, na hipervalorização de Santana operada por críticos não menos devotos que os seguidores, espreita a mal disfarçada inveja pelo "animal político" - pela luz dos holofotes, pela sedução pessoal, pelo à-vontade na polémica e no combate, até pela desfaçatez. Mas duvido que esta atitude, realmente influente no campo político-mediático, tenha grande repercussão na generalidade das pessoas. O que estas querem saber é que soluções concretas, práticas e razoáveis lhes são propostas, para sair da profunda crise de meios e de esperança em que as mergulhou o Governo mais desastrado da democracia constitucional portuguesa. E intuem que isso é o contrário da fantasia, do sorriso fácil, do "glamour" das festas e das revistas.Como se enfrenta melhor Santana? Pois não lhe passando muito cartão. Antes falando com sentido de responsabilidade para as pessoas, de modo a que elas percebam o que estará em jogo nas escolhas que serão chamadas a fazer, se e quando o forem. Para dizer numa frase e para o caso de a saída ser a antecipação de eleições: não se trata de evitar que Santana ganhe, trata-se de ganhar.

publicado às 07:42

A propósito de entre-blogs

por jpt, em 11.07.04

Há muitos anos, vinte e picos ou quasi-vinte também não interessa, passei uma noite eleitoral, daquelas ainda muito longas maratonas televisivas, com o meu pai. Ele nesse dia saído de mais uma derrota eleitoral, o que o magoava, militante descrente nas críticas, fervoroso na sua verticalidade do tamanho da Torre dos Clérigos, politizado até aos ossos, coisa de geração achava eu. (o politicocentrismo é um mal como outros).

Nessa noite protestava o assim, e saía-lhe o protesto em forma de lamento prévio pelo meu futuro, antevisto como brumoso devido aos terríveis rumos que ali imaginava, e eu, tardo-adolescente, num encolher de ombros, ouvindo-o de um outro lado, que não dO outro lado.Passaram estes anos, ele continua rijo de terceira idade e convicções, e assim se mantenha. Desse meu futuro, já passado, de nada me queixo, coisas boas e más, mas muito mais do que positivo (e mais que não fosse, ainda que felizmente haja muito mais, a Inês e, agora, a Carolina bastariam para apagar qualquer politicocentrismo escatológico se este fosse hereditário).Afinal!(e as filhasdaputice vistas e sofridas até vieram mais das bandas próximas das dele do que daquelas então tão receadas)

Esta lembrança veio-me com o LNT, neste aqui do Tugir, co-autor de um blog assumidamente socialista, com o qual me venho "pegando" de quando em vez. Ânimo homem.

publicado às 07:40


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