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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Aquele Bazonga foi das primeiras casas que conheci. Quando desmatei para o Ma-schamba fui à vizinhança só para saudar, não fossem os diabos locais tecerem desses feitiços, que a gente daqui é assim, tem dessas ruindades. Naquela casa fui bem recebido, afinal sempre são patrícios, água e sal até, vieram depois aqui à machamba só para conhecer, alguma ajuda se necessário fosse.
Passei a visitá-los lá pela manhã, no cedo fresco. Tem clima ameno lá na colina, palavra amiga quando estão bem, mas nunca escorraçam quando não. Um alambique acolhedor, e até uma outra amiga dessas que jingam, e que eles sempre fazem o favor de apresentar, que não são gente egoísta, e sobra sempre um bocado de companhia.
Lá na cidade há muitos patrícios com manias de África, do antigamente que "aquilo é nosso, vejam lá os pretos ladrões miseráveis", do novamente d'agora "que é só para ajudar" e isso do "desenvolvimento" e dos "projectos". Mas é uma boa merda, se me dá licença, que depois nunca dizem nada, e ainda bem, que é bem melhor do que os disparates que têm lá nas cachimónias, que não percebem nada disto. Estou a falar dessa gente que está lá no conforto da ventoínha e das geleiras, nem querem sair. Também sempre foi assim, porque é que ia mudar agora?
Agora estes ali da machamba Bazonga não são assim. Até são os únicos, amais aquela senhora muito séria que trabalha naquela ong eclésis, são os únicos que por aqui andam, falam com a gente, ficam a saber das coisas. E acho que as dizem lá onde querem.
Às vezes arranjam problemas, põem-se a protestar com o administrador do distrito, com os chefes, coisas assim. São jovens, também é isso. Mas depois lá me vêm as queixas "esses teus patrícios, não se sabem comportar, não têm respeito". Eu lá os desculpo como posso, pago umas garrafas, cervejas que desse tontonto não bebo, que não é bebida p'á gente. E assim lá os vou safando. Digo aqui nas estruturas que nem são maus rapazes, aquilo é da juventude, e depois bebem um bocado e depois falam aquelas coisas, é da idade, tá-se a ver, e nem são bem eles, é o vinho, não que tenham mau vinho, não há história de arranjarem confusões, é só as coisas que dizem. Também aqui o que é que um homem pode fazer, senão for isso a distrair a gente? Para além das mulheres, está-se a ver, não é assim?
É boa gente, é boa gente. Uma rapaziada assim, como dizer, moderna. Está a ver como é que é?
Democracia. Gosto bastante do Quase em Português. Não, não é pela ironia do título, nem apenas pela forma como nos prova de como ele é falso. Nem só pelos belas reproduções com que nos brinda (p.ex.). Mas também porque é um belo sinal, tão contrário aos gemidos lancinantes que se ouvem. Porque um estrangeiro residente na minha terra, e com ares e sensações de que também já é dele, opina calma e livremente sobre o que lhe apetece.