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O Poder e a Morte

por jpt, em 12.07.04
"A ausência de Jorge Sampaio foi muito notada mas um dos seus assessores lembrou que o Presidente "nunca vai a funerais." [Este é um excerto de uma notícia do jornal Público, cuja ligação entretanto desapareceu. Presumo que se relacionasse com o funeral de Maria de Lurdes Pintassilgo, falecida a 10 de Julho desse ano].Notam, reparam, no sagrado do poder? O rei sagrado, o chefe tradicional, o ungido pelos deuses, o actual antepassado, o centro da sociedade, o ponto meridiano do cosmos, o descendente e representante do passado, o garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida.

Esse, NUNCA, mas NUNCA, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.

Afinal? Que maravilha. No nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Como em tantos, tantos outros lugares. Hoje e antes.

Não há ponta de crítica. Apenas surpresa na constatação. Que é maravilhosa, a mostrar as continuidades.

E esta é decerto uma - não venham com desculpas de "sobrecarregar agendas" ou "dificuldades de critérios optativos".

Continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder. A essência do poder.

Que maravilha! Que maravilha.

ADENDA: pelos comentários tenho que concluir que o texto foi mal escrito. Não me fiz perceber. Peço desculpa.

Tentarei explicar-me:

1. não há aqui uma ponta de crítica ao cidadão Jorge Sampaio.

2. não há aqui uma ponta de crítica a Sua Excelência o Presidente da República, dr. Jorge Sampaio.

3. não há aqui uma ponta de crítica às instituições nacionais.

4. não há aqui vontade ou opinião que o PR deva ir a funerais.

5. fiquei genuína e deliciadamente (a delícia é uma coisa boa, entenderam-na como crítica, o que denota puritanismo nos leitores, mas isso seria assunto para outro texto) surpreso por saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], sub-conceptualizado como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. E que é assunto para antropólogos e quejandos (simbólico do poder). E que eu nunca tinha percebido no meu país.

6. espero que me tenha feito compreender. E ao meu agrado. O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para criticar, mas sim para tentar perceber porquê.
[muito provavelmente o PR irá a funerais no estrangeiro, aos dos seus pares: mas isso é fora da sua sociedade, não polui a ordem fértil com essa morte, é uma morte estrangeira, forasteira, exterior, não periga a nossa saúde]

7. Houve um comentador, caústico, que disse que ele iria estar presente no seu próprio funeral. Incorrecto. O PR nunca estará no seu funeral. Pois alguém estará já empossado das suas funções. Políticas e simbólicas. Mesmo que nós, vulgo, não o tenhamos compreendido.

8. Prometo que tentarei ser mais explícito daqui em diante. A ver se sim.

publicado às 07:56

A visitar como sempre o excelente Quartzo, Feldspato & Mica (huf). Para chocar com texto, presumo que uma colaboração de leitor.

Cito trechos (é melhor ler todo, que isto de seleccionar excertos arrisca sempre a manipulação), porque condensam uma série de arrazoados que por aí pululam em nome da democracia, mas que são objectivamente anti-democráticos.

1. "Temia, além disso, o sempre propalado argumento da "estabilidade", usado a torto e a direito por alguns opositores da Democracia Participativa sempre que a sede de poder económico e político se sobrepõem ao interesse nacional..."

Já aqui escrevi (não lembro quando) que a adjectivação da democracia normalmente deriva da recuperação, explícita ou implícita, da velha noção comunista de "democracia formal", siamesa da "democracia burguesa". Fiquemos pois a saber do que se trata.

A democracia exige participação. E há poderosas forças sociais que tendem para a redução dessa dimensão. A qual não se esgota em eleições. Há pois que melhorar a participação, potenciar a cidadania.

O que nos divide é uma questão de hierarquia. Quem concorda que uma democracia participativa é fundamentalmente representativa, que implica uma delegação, ainda que efectiva e activamente controlada.

Ora a representação passa fundamentalmente por legislaturas de quatro anos. Não como dogma. Mas como padrão. E essas são representação e participação. Não é por se votar de dois em dois anos que a participação aumenta.

Ora nestes discursos "participativos" surge, sistematicamente, a desvalorização, a subalternização, da representação face à participação. Aquela deficitária face a esta quanto a legitimidade. E sem que se conceptualizem quais os critérios dos "agentes participativos", e suas "modalidades de acção". Bruaaa, sim. Mas um ruído aconceptual perigoso, porque exclui, porque define os "movimentos sociais correctos", os que têm o direito à palavra - pergunte-se a estes "teóricos" qual o papel dos "espoliados do ultramar", dos "heráldicos nacionais", dos "bloguistas neo-fascistas", das "associações de famílias", das "movimentos cabeça-rapadas", dos sindicatos não-comunistas, etc, e logo lhes recusarão legitimidade participativa, mergulhando-os no "caldeirão adversário", grupos ilegítimos porque manipulatórios.


2. "Santana Lopes formará um governo sem a legitimidade do eleitorado, apoiado por uma coligação que apenas foi sufragada pelo voto na eleições para o Parlamento Europeu, sofrendo uma estrondosa derrota"


A coligação no poder não tem legitimidade porque não foi votada. Esta é uma falsidade radical. Houve umas eleições, e do quadro parlamentar estruturou-se um governo de coligação. Situação não original em Portugal. Situação recorrente nas democracias parlamentares. Situação normal. E legítima.

Há dias citei uma afirmação do inefável Prof. Fernando Rosas, que ecoava esta noção, a da ilegitimidade do governo poque não tinha sido votado como coligação.

[Confesso aqui o meu desconforto. Alguns dos meus melhores amigos em Maputo são colegas próximos e bons amigos de Rosas, renomado historiador. E dele dizem maravilhas como pessoa e académico. Mas, honestamente, para um homem da sua cultura este tipo de afirmações só pode indiciar duas abordagens, e que nunca de incompreensão: doença (não estou a ironizar, nem lha desejo) ou uma profundissima desonestidade intelectual. Eu voto nesta segunda hipótese, apesar dos meus amigos.]

Compreendo que gente do BE e do PCP considere as vantagens de ir a eleições coligado: o BE como coligação de partidos de ideologia totalitária e de exclusão socio-política, o PCP como obreiro de uma falsa coligação, hoje pura inércia, em tempos procurando o velho frentismo, signo de liderança.

Mas parece óbvio que não é essa coligação pré-eleitoral a única forma politica e institucionalmente legítima de coligação: dizer o contrário é pura desonestidade. Ou imbecilidade. Para quê repeti-la? Porquê continuar a acreditar que a desonestidade é uma arma política eficaz? Porque continuar a acreditar que a imbecilidade é uma arma política eficaz?

Porquê este elitismo sociocêntrico, esta pequena burguesia letrada que se acha tão distante de um qualquer "povo" que considera que a sua retoricazita o poderá enganar. Que ainda pensa que o ser "letrada" o distingue desse "povo"?
Quando ele é ela, nada mais, que isto mudou para além dos livros. E não lhe compra argumentos made in china. Nem fancaria maoísta, nem fancaria neo-capitalista.


publicado às 07:54

Estatuto de blogs

por jpt, em 12.07.04
Os dois blogs políticos portugueses mais lidos e de autoria mais sonante, José Pacheco Pereira e Vital Moreira et alestão em momento de colocação [dir-se-á publicação?] de múltiplos textos de índole política da autoria dos leitores desses blogs.Acho interessante, até elegante por parte de donos dos blogs. E muitos dos trechos apresentados são muito válidos. (Pacheco Pereira publica inclusive algumas críticas, lançando em sua casa o debate sobre o Abrupto como se fosse à sua revelia).Mas também me questiono, a publicação de tantos trechos de leitores não tende, mesmo que inconscientemente, à afirmação de um estatuto colectivo das opiniões do(s) dono(s) de blog? Uma retórica afirmação de serem estes blogs um representante colectivo?Qual o estatuto de um blog? Representa o seu autor? Ou, como me parece indicar esta deriva, quer-se porta-voz de movimentos sociais, de colectivos de opinião/pressão (mesmo que não herméticos, como prova a multiplicidade interna no Abrupto)?

publicado às 07:53

Aqueles Bazongueiros

por jpt, em 12.07.04

Aquele Bazonga foi das primeiras casas que conheci. Quando desmatei para o Ma-schamba fui à vizinhança só para saudar, não fossem os diabos locais tecerem desses feitiços, que a gente daqui é assim, tem dessas ruindades. Naquela casa fui bem recebido, afinal sempre são patrícios, água e sal até, vieram depois aqui à machamba só para conhecer, alguma ajuda se necessário fosse.

Passei a visitá-los lá pela manhã, no cedo fresco. Tem clima ameno lá na colina, palavra amiga quando estão bem, mas nunca escorraçam quando não. Um alambique acolhedor, e até uma outra amiga dessas que jingam, e que eles sempre fazem o favor de apresentar, que não são gente egoísta, e sobra sempre um bocado de companhia.

Lá na cidade há muitos patrícios com manias de África, do antigamente que "aquilo é nosso, vejam lá os pretos ladrões miseráveis", do novamente d'agora "que é só para ajudar" e isso do "desenvolvimento" e dos "projectos". Mas é uma boa merda, se me dá licença, que depois nunca dizem nada, e ainda bem, que é bem melhor do que os disparates que têm lá nas cachimónias, que não percebem nada disto. Estou a falar dessa gente que está lá no conforto da ventoínha e das geleiras, nem querem sair. Também sempre foi assim, porque é que ia mudar agora?

Agora estes ali da machamba Bazonga não são assim. Até são os únicos, amais aquela senhora muito séria que trabalha naquela ong eclésis, são os únicos que por aqui andam, falam com a gente, ficam a saber das coisas. E acho que as dizem lá onde querem.

Às vezes arranjam problemas, põem-se a protestar com o administrador do distrito, com os chefes, coisas assim. São jovens, também é isso. Mas depois lá me vêm as queixas "esses teus patrícios, não se sabem comportar, não têm respeito". Eu lá os desculpo como posso, pago umas garrafas, cervejas que desse tontonto não bebo, que não é bebida p'á gente. E assim lá os vou safando. Digo aqui nas estruturas que nem são maus rapazes, aquilo é da juventude, e depois bebem um bocado e depois falam aquelas coisas, é da idade, tá-se a ver, e nem são bem eles, é o vinho, não que tenham mau vinho, não há história de arranjarem confusões, é só as coisas que dizem. Também aqui o que é que um homem pode fazer, senão for isso a distrair a gente? Para além das mulheres, está-se a ver, não é assim?

É boa gente, é boa gente. Uma rapaziada assim, como dizer, moderna. Está a ver como é que é?

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publicado às 07:51

O Quase em Português

por jpt, em 12.07.04

Democracia. Gosto bastante do Quase em Português. Não, não é pela ironia do título, nem apenas pela forma como nos prova de como ele é falso. Nem só pelos belas reproduções com que nos brinda (p.ex.). Mas também porque é um belo sinal, tão contrário aos gemidos lancinantes que se ouvem. Porque um estrangeiro residente na minha terra, e com ares e sensações de que também já é dele, opina calma e livremente sobre o que lhe apetece.

Leiam-lhe o blog. E calem os gemidos. Que enjoam. Porque o país não é só jogo de bola. É uma democracia. Raios vos partam, que meninas...

publicado às 07:50

Epistemologia

por jpt, em 12.07.04
Epistemologia. A arrogância e a falta de educação, e mais quando se unem em complexo de "prima-donice", são poderoso obstáculo epistemológico ao entendimento do real.

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publicado às 07:49

Desde sempre me lembro da sua existência, e concomitante debate sobre necessidade e modalidades de combate à sua realidade. Ora eu tenho uma preocupação com o conceito de "deficit". Preocupação reforçada nos dias que correm, pois as questões do deficit surgem no cerne retórico da crise política no meu Portugal.Na realidade, e como não sou economista, não compreendo bem o conceito. Esse meu deficit intelectual provoca-me duas estranhezas:1. dizem-no "estatal". Mas a separação Estado/Sociedade é mera falácia disciplinar, o Estado mais não é do que mera forma organizativa intra-sociedade (societal é palavrão aqui). Daí que o deficit é da sociedade.2. dizem-no "factor de desenvolvimento". Mas então não deveria ser conjuntural, cíclico no máximo? Só que surge estrutural, constante. Dir-se-ia não só perene (qual o ano civil em que não existiu?) mas eterno.Esta preocupação deriva de contexto e brota de dilema.Contexto: procuro nestes bloguísticos apontamentos, não sei se o conseguindo, deixar imagem de relativa dúvida, de gente ao teclado sem grandes certezas ou esperanças solarengas (espelho deformado?).Mas tenho também causas últimas, utopias mesmo que autoritárias, adesões acríticas e radicais, valores absolutos. Fundamentalismos. Pelos quais trabalharei insanamente se possível (e necessário). E darei, ainda que pestanejando de medo e desilusão, a vida. Sobre isso escrevi já algumas vezes, e até o sistematizei aqui.Creio, ainda que não baseado em estudos profundos ou sondagens recentes, que será uma crença de adesão generalizada. Até pelos efeitos da socialização (educação, para leigos) relativamente comum que os portugueses têm.Ora o dilema impõe-se-me: este deficit constante, estrutural (bem como a sua defesa implícita ou explícita) não chocará com os objectivos fundamentais a que aderi, os da realização, libertação e optimização da minha causa radical?Haverá algum leitor economista disponível para me sossegar?

publicado às 07:44


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