[ainda para o LNT]
Por imprensa e blogosfera portuguesa encontro, nos últimos dias, uma verdadeira escatologia. O país moribundo, o "vinte e cinco de abril" morto, o futuro comprometido, a nação traída, a democracia rasgada. Gente chorosa, alquebrada, suicídio de blogs, enfim, uma ladaínha. As carpideiras soltaram-se, e não há quem lhes ponha cobro.
Imbecilidades? Um bocadinho. Mas compreendo-as. Já passei pelo mesmo. Vou contar (o Ma-schamba está-se a tornar numa Autobiografia Oficial antes de tempo, publicada em fascículos. Enfim, mania das grandezas).Quando Guterres atirou a toalha para o chão, perdão, para o pântano, rejubilei. Estava farto dos nenúfares na boca e do lodo nos pés. E enregelado.O meu amigo Zé Filipe, que estava cá de férias, lembrar-se-á bem dessa noite de autárquicas, a cada um dos baronetes que vinha gemer a derrota gritávamos como se fosse golo. E a partir das tantas da manhã íamos acordar a Inês, para que viesse ela ver a cara dos bichos, na hora da derrota (o Gomes, a alegria quando o Gomes foi barranco abaixo, até o capachinho lhe parecia descolado).O João Soares, o que nos rimos apesar de lisboetas (ok,ok). Arrogante imbecil, deitou fora a Câmara - se Santana Lopes chega à Câmara, trampolim para PM a culpa é dele, que lhe ofereceu a dita cuja por menos de 800 votos. Agora ninguém se lembra, mas com o Vasco Lourenço como director de campanha, o Vasco Gonçalves a anunciar o fascismo, idem para o Cunhal, mas que raio é que estava o tonto à espera? Deitou fora por incompetência e ainda anda por aí, a dizer-se pro-califa.Bem e lá se foi o Guterres. O PS entrou em concílio (literalmente, não esquecer). A Inês voou para Lisboa, o meu amigo Zé Filipe voou para a Ilha e Cabo Delgado. Eu fiquei sozinho uns dias em Maputo, que ia seguir para o Niassa. Nesse entretanto um dia chego a casa, cansado, ligo a RTP-África (estava mesmo cansado) e no telejornal anunciam quem seria o mais que provável próximo nº 1 do PS e, então ainda se pensava, muito provável Primeiro-Ministro.Fiquei transido, fiquei devastado. Era o pior de tudo, a expectativa da perfídia étnica, do mais puro e abjecto tribalismo no poder, da ascensão do compadrio radical, corrupto e incompetente. O desrespeito total pela cidadania. Coisas sabidas, e de perto.Levantei-me do sofá, alquebrado como nunca tinha estado desde as porradas que levei na tropa. E assumi uma decisão racional. Esqueci o modesto jantar caseiro (estava em casa sozinho, nada de luxos) e fui até ao Rodízio Real, o mais caro e mais requintado restaurante de Maputo. Fui lá ganhar ânimo, gastar dinheiro para revigorar a alma. Debati-me com um naco de carne, saboreei lenta e solitariamente um Esporão regular que aqui assume preços de hidromel. E convoquei o carrinho das espirituosas, sabendo que no Maputo de hoje é ali o único sítio onde sabem aquecer um balão de aguardente. Aquecidos que foram alguns regressei a casa. Mais animado. Mas ainda aterrorizado. E com a decisão tomada.Logo que em casa telefonei a dois amigos, feitos aqui. Gente de alguns galões lá no partido do LNT [está a ver, não sou assim tão fundamentalista]. "Estás cá, pá?" foi o que cada um à sua vez logo me disse, surpresos pelo inopinado. "Náááda!!", balbuciei, também a cada um deles. "Estou a telefonar por causa disso do PS! Se vocês escolhem esse filhodaputa para chefe entrego o meu passaporte aqui no consulado. E para visitar os meus pais vou até Badajoz e eles vão lá ter comigo. Não entro mais nessa merda de país". Os gajos riram-se, à vez já o disse. E um deles, sacana, desarmou-me, lesto no "ó zé, não vale a pena, podes entrar com o BI".Fiquei-me. E não há outro termo para o definir. Fodido!Bem lá passou um dia, e afinal não foi bem assim, mudaram de chefe proposto. Ao novo chefe, impoluto dizem-no, ainda o vi na televisão no último sábado de campanha eleitoral: manhã em Bragança com Armando Vara; de tarde em Matosinhos com Narciso Miranda (na lota?).E depois perderam as eleições. Que alívio.E ainda não fui a Badajoz.