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Um blog é uma ilusão

por jpt, em 14.07.04
Um blog é uma ilusão. A ilusão de ser lido. E de isso ter alguma importância. É uma bela ilusão.Para os amigos que cá vieram fica o abraço. Às amigas o beijo. E o aviso, de que há o email. E o telefone. E, imaginem, as cartas.Aos outros visitantes, regulares ou não, um obrigado por terem aparecido. Alimentando a ilusão.Então adeus.Post-mortem [a la Cruzes Canhoto]:Tentei sair à western, pela calada da madrugada, via oeste fugindo ao arame farpado, deixando a beldade loura, já madura, devastada mas firme, e o rapazito orfão surdamente choroso mas desde agora com um exemplo a seguir. Mas está visto, não sou o mais duro a oeste de Pecos. Regresso a agradecer, tanto comentário aqui e aquelas notas em alguns blogs. Envelhecido confesso até, envergonhado claro, aquele toque de comoção com uns poemas que por aí foram dedicados.A forma de agradecer é um "grande obrigado" pelas palavras que foram aqui deixadas. E também alguma explicação. Desnecessária, redundante, em especial para os outros bloguistas que por aqui passaram, presumo que todos mais tarde ou mais cedo tenham dúvidas sobre isto do blogar.Mas sinto um bocadito de obrigação para quem botou quente sobre o Ma-schamba. [e também é desculpa para "só mais um postezinho, só mesmo mais um"]. E também quero espernear à ironia do "sindrome de Vitorino" que amigavelmente puseram por aí (vade retro).1. Não fechei de surpresa. Para aí há um mês pus um "tecto de blog": foto Zé Cabral + O homem do leme. A intenção era fechar nos meus quarenta anos, dali a dias. O LE percebeu. Mas como me estava a divertir continuei.2. Tem cansaço, não desmotivação. Há quem não se importe se é lido ou não. Mas esse é o artista. Aqui não havia arte, houve alguma (menos do que o desejável) divulgação, e croniquetas e opiniões. Para serem lidas, e se possível discutidas. Ora nunca como neste mês foi o Ma-schamba foi tão visitado e tão ligado. Mas isso cria dependência, quantos mais leitores mais me sentia impelido a estar aqui. Escrevi qualquer coisa como "O que vou dizer a estes tipos?". Acho que o LE percebeu outra vez, num "cala-te" cúmplice.3. Um blog individual toma tempo, demasiado tempo, e para mais quando o maluquinho ao teclado quer dizer imensa coisa (o que é diferente de dizer imenso). Também escrevi, acho que dedicado ao Alex, que "a vida não é um blog".Acho que a Inês concorda comigo. Para a semana, quando chegar de Bruxelas, há-de estranhar eu não estar tanto tempo "ao blog". E, talvez até disfarce num "que pena...", mas vai ficar aliviada, qu'afinal o homem está menos taradinho. A Carolina não sabe o que é um blog, mas gostará de certeza que o "ZSSéé" (como aprendeu agora, com um ar matreiro de quem sabe estar um bocado ao lado da norma, ainda que por mim seja uma ternura) não esteja tanto tempo encerrado na sala vedada, onde há imenso fumo.4. Há outras coisas para escrever. Por obrigação profissional. A ver se faço carreira, que no dia do regresso a casa ninguém terá complacências com o bloguista. E também por prazer, coisas assim "de antropólogo" que se impõem, a quem tem tantos anos daqui.E um livro das tais croniquetas que está pronto. Ou seja, tem editor, tem quem faça a capa, tem as ilustrações, tem o prefaciador ("o autor é fantástico, escrita brilhante" essas coisas), tem as fotos, tem o título ["Ao Balcão da Cantina"]. Mas, ridículo, só lhe faltam mesmo os textos. Não é um blog em livro. Os textos são anteriores ao Ma-schamba, alguns estiveram aqui, outros ainda não acabei, rebusquei. Coisas naquele jeito que o Dr. Besugo dissecou, o sacana. E assim passarei, até orgulhoso, a ser autor publicado no estrangeiro. E decerto que de edição esgotada, que os 300 exemplares entre as minhas ofertas, os do patrocinador esperado e alguns literatos coleccionadores tudo há-de sair.5. Um blog é um vício de raciocínio (ou foi-o para mim). Matei o Ma-schamba ontem. Hoje levei a miúda à "escolinha". À saída encontrei o Gilberto Mendes, do Gungu: "então já estiveste com o José Carlos Oliveira?" (o realizador; "Preto e Branco"), e eu que "não", que "nem tenho que estar". Está cá outra vez, para filmagens. Entro no carro e saio a pensar que nunca escrevi o texto sobre o "Preto e Branco", cinema nulo mas ideologicamente abjecto, mas por pura ignorância e tontice, e ainda por cima aqui apresentado por Sec. de Estado da Cultura como exemplo de uma atitude nova [a cara dos moçambicanos, meu Deus]; mas isto é tudo rápido, porque ainda vou na Kaunda e há que colocar o texto do Mia no Savana onde diz ser "natural" o apoio moçambicano à selecção portuguesa - e não é nada natural, e há que explorar o assunto; mas vou a guiar e tenho um texto sobre um acidente que tive; e o atropelamento mortal na Matola que vi na semana passada ("porra, mas tenho tantos textos parados"). E alguém que pediu transcrição de poemas do Armando Artur. E, sempre em sequência, tenho que scannar o raio dos postais do Rufino, o Sopa mata-me que os tenho há que tempos. E ainda não cheguei a casa...Tenho que deixar de fumar. E outras drogas não.6. A razão fundamental: com o Ma-schamba comecei a ler vários blogs. Há muitos bons. Alguns óptimos. Fantástico. Mas há muito blog político. Virado a Portugal. E muitos fantásticos. De cor diferente, mais ou menos alinhados. Óptimos, bons. Francamente, a blogosfera portuguesa tem um belo nível de discussão política. Mas ao mergulhar nela (re)mergulhei em Portugal. Pensei e preocupei-me mais com Portugal nos últimos dois meses do que nos últimos sete anos e tal.E isso não me faz bem. Não por arrogância, superioridade de "estrangeirado". Apenas porque não me faz bem. E porque estou aqui. Saudoso, é certo. Mas bem. E não preciso do fel que o Portugal blogado me provoca. Nem de reviver e escrever as memórias que o terrível período guterrista me deixou. Que estavam passadas, por vis que tenham sido. E que voltaram.Desse fel nada brota, nada cresce. É um fel socialista. Que não muda. E esta conclusão não é ideológica. Já o escrevi, "a minha ideologia de hoje é a higiene". E por isso o trabalho nesta machamba, que o húmus político tornou memorialista, sem que eu o tenha controlado, tornou-se doloroso. Irado.Neste último texto "Ilusão" escrevi e botei, duro e mal-criado. Mas logo depois regressei e apaguei um bocado, não queria acabar o Ma-schamba parecendo ressentido, indignado.Mas agora aqui fica, em versão mais mansa: um patrimonialista, um compadre, é um cobarde, que só se sabe defender do mundo que é grande. Sem saber que é essa a sua beleza. Sem poder saber.E porque é assim não vale a pena andar em torno disso. Se o mundo é grande é andar. Que eles ficam onde estão. Malignos. Mas cobardes. Por isso, para fugir desse (só desse) Portugal que não me interessa, isto morre.Zé Boné, marca lá o restaurante irlandês-argentino para Setembro, que é quando este bijagó se apresenta ao serviçoAgora sim, então Adeus.

publicado às 08:10


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