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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Leio no Público [artigo abaixo transcrito pois as ligações ao Público são perecíveis] as declarações do porta-voz da Comissão Europeia, congratulando-se dado que "A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo...[pois] conquistou 286 (82 de ouro) [medalhas olímpicas] entre os 25 países que actualmente a constituem".
Poderiam ser palavras de um qualquer importante dignitário, que valeriam como sua opinião individual. Mas é um porta-voz, ainda que o possamos imaginar informal, "de sorriso largo". Daí que, apenas e muito, ecoa o sentido da dita Comissão Europeia.
Irrita-me. Pois é um cúmulo de ideologia burocrática, a querer impor identidades, sentidos, ao mundo. A narrativa que a Comissão quer inculcar, escondida no tal "sorriso largo", prazenteira, "como quem não quer a coisa".
Nem discuto se a Comissão está mandatada para isso (haverá mandato explícito para a construção de identidades colectivas?). Mas irrita-me a vertigem do funcionário, aflito para produzir a "sua" identidade europeia, aflito para ultrapassar essoutra identidade europeia fluída, complexa, contraditória, antagónica, mítica, construída e também sempre (re)construível , e, para ele(s) talvez pior do que tudo, que não lhe(s) cabe no relatório de actividades. Porque dele(s) não deriva.
Sobre esta vontade de sobreposição, esta incapacidade de entender a dimensão actual de representação identitária que se joga no desporto, e que se cobre de ridículo (e de anti-corpos?) nos seus meneios, já aqui escrevi, em tempos de Ma-schamba menos frequentada.
Vou, por isso, repetir o pecado da auto-referência (a idade, implacável). Foi a propósito do último França-Inglaterra do torneio das 6 Nações de râguebi que botei sobre os hinos e as identidades nacionais no desporto. Para quem não tenha paciência para o clic aqui deixo o final:
Mas se eles [Gales] não estiverem é a Inglaterra. [O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...]
Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.
Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lembro-me e lamento-me eu, desalentado.
Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.
Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.
Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.
Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.
[Transcrição da peça do Público, 31 de Agosto de 2004]
UE Louva Supremacia Sobre EUA
Comissão Europeia congratula-se com as 286 medalhas conquistadas contra as 103 dos norte-americanos
Nenhuma nação obteve em Atenas, tantas medalhas (103, 35 de ouro) como os EUA, mas verifica-se que ficaram a léguas da União Europeia, que conquistou 286 (82 de ouro) entre os 25 países que actualmente a constituem. Como se de arqui-rivais se tratassem, o porta-voz da Comissão Europeia, Reijo Kemppinen, não perdeu a oportunidade de fazer esta comparação, ontem, em Bruxelas.
"A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo, referindo que os europeus se distinguiram sobretudo nos desportos aquáticos e decepcionaram no boxe e no halterofilismo. "Daqui até 2008, o nosso nível deverá melhorar", afiançou.
A prestação dos EUA foi, no entanto, elogiada pela imprensa local. "Os americanos prolongam o domínio nas medalhas", titula o "USA Today", lembrando que os norte-americanos tiveram o mais elevado número de medalhas desde as 108 de Barcelona; mas acrescenta que as 35 de ouro representam o total mais baixo desde Montreal. Os elogios à organização grega são unânimes por parte dos diários mais importantes, embora o "New York Times" mencione a "factura" que a Grécia terá de pagar nos próximos anos pelo investimento feito.A China, com menos três medalhas de ouro que os EUA, rendeu homenagem aos atletas que a representaram. "Bandeira vermelha de cinco estrelas, estamos orgulhosos de ti", escreveu o jornal "Quotidiano" em editorial do orgão central do PC.
Os russos balançavam entre o sucesso dos seus atletas e a desconfiança. Mesmo tendo ganho mais quatro medalhas do que em Sidney, o facto de terem perdido cinco de ouro em relação há quatro anos lançou o alerta.A Alemanha foi o país europeu mais bem classificado, na sexta posição, atrás do Japão e da Austrália, mas os responsáveis apelaram a modificações na estrutura desportiva de alta competição. Com um total de 48 medalhas (56 em Sidney), o ministro dos Desportos, Otto Schily, fez um balanço globalmente bom, mas sublinhou que houve "grandes decepções em algumas modalidades".
(Rodrigo Cordoeiro, com AFP)

"...Para quêquerer incendiar os astros se, dentro de nós,ainda não acendemos todas as luzes"(Rui Knopfli, Ars Poética, Mangas Verdes com Sal)
É o Pululuque refere a proposta apresentada por António Borga, envolver a RTP na criação de um serviço AfricaNews.
Seria uma bela iniciativa. Desejavelmente uma articulação de estações noticiosas de língua portuguesa. Mas melhor ainda seria ter a clarividência (ainda que tardia) de constituir esse serviço na integração constante de notícias e reportagens dedicados à globalidade africana, provenientes de estações internacionais, africanas ou não.

Abaixo deixei a dúzia de postais de Santos Rufino que reproduzi no Ma-schamba ao longo de alguns meses. Aproveitando a chamada de atenção do Abrupto, a qual implicará a chegada de leitores desconhecedores deste blog e dos postais e álbuns em questão, e o início da sua cuidada apresentação no Companhia de Moçambique. Espero que esta curta série incentive o interesse geral na tarefa a que o Rui se vai dedicar.