Eu sei que isto acabou, mas tendo este "cantinho de orador" disponível não quero deixar de o utilizar para ecoar a minha alegria com o Acordo na Organização Mundial do Comércio.
É um passo, mas não um pequeno passo. É um grande passo. Não irá resolver tudo, claro. Nem nada o fará. Talvez nem tenha os efeitos grandiloquentes que se antecipam. Mas é um extraordinário momento. Talvez o mais importante dos últimos anos - ainda que os media ocidentais não lhe irão dar essa dimensão, coisa pouca decerto.
É um grande momento para o desenvolvimento das áreas mais miseráveis do mundo. Falo com uma alegria gradualista, entenda-se, sem sonhar com amanhãs dourados. Mas sonhando com amanhãs em que haja menos fome e menos dor. Menos morte adiável.
É também um grande momento para o desenvolvimento do "mundo ocidental". Desenvolvimento ético e alimentar. Porque é uma decisão menos omnívora do que a estrutura de pensamento que o domina, esse contrato social entre grande capital e populações. Omnívoro não, antes vampírico, canibal.
Curiosidade: ver como os "movimentos sociais" aí de cima vão reagir. Entender onde se lhes acaba a "esquerda".
E, já que ando em releituras, aqui fica trecho muito apropriado (nem de propósito):
"Nada e mais doloroso na sociedade humana, e daí mais difícil de conseguir, do que a mudança das estruturas de direitos...Direitos e privilégios são o mote das revoluções" (R. Dahrendorf, Ensaios Sobre o Liberalismo, Fragmentos, 1993, 24). É isso que aqui estou a saudar.
Posso estar a ser ingénuo, mas esta é a melhor segunda-feira de manhã de que me lembro.
[Ah, e porque a minha alegria não é utópica, quanta mais amazónia cortada para pastarem as vacas agora liberalizadas? Quantos mais machambeiros sem-terra, esta agora bem mais apetecível à agro-indústria?]