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Anti-Intelectuais

por jpt, em 03.08.04

Abaixo falei de "anti-intelectuais". Há anos estavam em voga em Portugal. Daqui de longe não sei como será agora. Talvez já não, talvez sejam apenas uma sobrevivência, uma moda antiga. Aliás, vou abordar um exemplo tão institucional que indicia o fim dessa moda. Sobre o mundo "anti-intelectual" não vale a pena aqui detalhar muito. Habitualmente era gente intelectual encenando a recusa de si própria. Misturando teclas bem esgalhadas, superficialidade agressiva e preconceitos hábeis e rápidos, sempre inibitórios [desconfio que raramente cumpridos pelos próprios]: coisas a não fazer, a não ler, a não ouvir [lembram-se da ditadura do "in" e "out"?]. Tom jocoso, o orador sempre como maître à non penser, num "já está tudo dito" quase enfastiado, para quê essas "pseudo-intelectualices" (lembram-se?) .E por isso mesmo, por tudo estar já dito, "intelectualices" vãs. Mas também porque sempre falsas, apenas (ridículas) tentativas de ascensão. Qualquer fumo de intelectual logo despromovido a falsário, como teatralização procurando esconder a ignorância e o vazio de cada um.

 

Essa "onda" sempre me pareceu mera estratégia, a procura de naturalizar a inteligência do orador/escriba - num "olha eu aqui tão bom e sábio, e virgem dessas leituras horrorosas". Que assim se promovia, tão superior aos infelizes embrenhados, lutando (e, claro, falsificando) para ascenderem aos píncaros onde alguns já estavam, como que por direito natural. E também assim despromovidas as obras consumíveis, porque poluidoras de um saber natural, desse dom.O estilo é velho, na minha geração chegou ao púlpito em algum "Independente". Mas ainda se encontra, até in-blog: li há tempos (sem elo, é mero exemplo), acerca da bola, alguém insultar outrém que tinha citado Norbert Elias. O tal bloguista arengava que não só nunca tinha lido como nunca viria a ler tal autor. E terminava negando a possibilidade de conhecimento sociológico, pois "Uma pessoa que não perceba a inaptidão do cérebro do Miguel para jogar à bola sobre pressão não pode falar de mim" [como rearranjará a teoria depois do Euro-04?] - os tiques estão lá todos, bem como o habitual recurso ao humor violento.

 

Humor que esconde o âmago boçal pela contundência do tom. É uma estratégia retórica que inverte a realidade: os textos surgem como se tivessem uma aparência boçal (um humor rude) mas um conteúdo elegante, um divertido pôr-em-causa. Quando é exactamente o contrário, pois trata-se de um humor pacífico, raramente inquiritivo porque não analítico. Provoca na forma, nada mais. Nada pondo em causa, a aparência é o seu verdadeiro conteúdo. Boçal, exactamente.Mas tudo isto estará em desaparecimento. Pois o que me levou a estas memórias foi encontrá-lo citado no simpático Beco das Imagens. E, ironia, oriundo do institucional Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), tantas vezes apodado de "coito de intelectuais". Pois se o tom foi absorvido pelas instituições mais pesadas (como é o caso do JL) então é porque já faleceu, pois é nestas que as correntes de pensamento moribundas se cristalizam, definham, mumificam.[Digo o JL institucional pois dependente da publicidade institucional/estatal e das aquisições institucionais/estatais. O que tem repercussões em algum conservadorismo político (em sentido lato)]. Nesse trecho do JL dedicado à banda desenhada Disney, lá surge o velho autoritarismo censório, a acusação preconcebida de falsa intelectualidade, de mentira, a quem não segue os cânones do escriba, João Ramalho Santos. Este, falando da edição de "A Saga do Tio Patinhas", insurge-se a priori contra os não incondicionais do "Patinhas". E, claro, insulta-os de falsários, de arrivistas :"A conotação é de tal modo negativa que, quando se fala em banda desenhada da Disney, um leitor que se preze só pode declarar que, desde os dez anos (quando pegou no "Ulisses" de Joyce pela primeira vez), que não liga aos "patinhas"."

 

Acontece que sou admirador da animação Disney (não incondicional, há alguns filmes que pouco me dizem). Mas não tanto da banda desenhada. Abandonei-a até antes dos tais "dez anos". Segundo o censor JR Santos apenas o afirmo porque quero hoje dar a impressão de então me ter iniciado em Joyce. Ora o censor JR Santos não conhecerá o mercado de troca de "livros de quadradinhos" dessa altura. Em que trocávamos os nossos exemplares, então cotados segundo apetências, modas, raridade. Um pouco à imagem das colecções de cromos. Verdadeiras bolsas, posso afiançar para quem nunca conheceu o fenómeno. Líamos e trocávamos. E, ainda na primária, os "Patinhas" iam sendo desvalorizados, não procurados. E onde era necessário ter vários para trocar por um ou outro exemplar de outras correntes. Sem Joyce à mistura. Falo de uma geração que via, antes de saber ler, Asterix, Tintin, Lucky Luke. Que leu com Alix e Blake & Mortimore. Que cresceu com o "Tintin de semana", com esses atrás, que eram obrigatórios, mais Bernard Prince, Comanche (e antes Jugurtha), Michel Vaillant, Ric Hochet e tantos outros, aos seis anos. E, ao lado, com o Marsupilami. E depois Blueberry. E que aos 10-12 teve a revolução tintiniana (aka coperniciana), a chegada de Simon du Fleuve, os mundos de Derib, Cosey e, acima de tudo, Pratt (que polémica houve então nas cartas de leitores). E fora desse mundo franco-belga tinha o Mundo de Aventuras, a colecção Apache, a colecção Combate, o Condor (Kalar, Hogan, etc.), o brevissimo Jornal do Cuto. E o Príncipe Valente dos irmãos mais velhos. E o Mosquito, de tios ou pais fans, já para não falar do Papagaio (ok, ok, lá em casa era beneficiado, havia tradição de décadas nos "quadradinhos"). E, acima de tudo, herói dos heróis, James Eduardo de Cook e Alvega, o valente ribatejano. Quem cresceu com tudo isto não se contentava com o mundo Disney aos quadradinhos. Não lhe chegava o Patinhas, o Zé Carioca.. Mesmo que hoje, trinta anos depois, adore o Rei Leão ou a Branca de Neve. Que são coisas diferentes.Quanto ao Joyce uns terão lido outros não. Mas isso bem depois. JR Santos não analisa, não narra, não pesquisa, não pergunta. Não tem prazer. Imputa. Censor, autoritário. Está, pelos vistos, acantonado no JL. Com estes pergaminhos um dia destes abre um blog. Será decerto muito "linkável", "citável", "topavel". E fresco. Pois a blogosfera portuguesa adora terroristas. Deste tipo.

publicado às 07:19


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